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Gênero História em Quadrinhos

Os filmes baseados em quadrinhos deixaram de ser uma moda para tornar-se um gênero com força independente - mas não foi nada fácil

Superman - O Filme foi uma exceção. Quando os dois primeiros longas do kryptoniano deram bons resultados nos cinemas, muitos fãs de HQs acharam que outras produções com os super-heróis dos quadrinhos continuariam a invadir as telas. Todo mundo se enganou feio. Era o início dos anos 80, e o cinema tomava rumos mais anabolizados - Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger, mais "verdadeiros" que heróis vestindo uniformes de cores berrantes, dominavam a cena. O primeiro Batman, dirigido por Tim Burton, também pode ser considerado outro fato isolado de sucesso de uma HQ na telona. Os quadrinhos ainda teriam de percorrer um longo e tortuoso caminho para finalmente se tornar um gênero de verdade, rentável e duradouro em Hollywood - e não só uma moda passageira. O mais interessante é que essa trajetória não foi conquistada com pesos pesados como Homem-Aranha, X-Men ou mesmo Batman e Superman. Coube a dois personagens bem desconhecidos do grande público preparar o terreno para o futuro. Seus nomes: o Máskara, de John Arcudi e Doug Mahnke, e o Corvo, criado por James O'Barr.

Stanley Ipkiss, o homem comum que se tornava uma força da natureza ao usar a máscara de Loki, e Eric Draven, o músico que volta dos mortos para vingar sua amada, eram heróis de editoras independentes americanas e praticamente ninguém fora do gueto de leitores fanáticos tinha contato com eles. Eram personagens baratos e seus autores não cobraram uma fortuna para licenciá-los - além do que, sem uma legião de devotos analisando cada polegada de celulóide, produtores e diretores tinham mais liberdade para adaptar livremente o material original. O resultado foi que tanto O Máskara quanto O Corvo tiveram produções baratas para os padrões de Hollywood. A indústria cinematográfica aprendeu que as HQs poderiam render bons filmes, dar seu lucro e não ser preciso super-heróis clássicos e mega-famosos para que a coisa funcionasse.

A partir daí outros personagens dos quadrinhos ganharam chances, quase todos desconhecidos do grande público: Tank Girl (1995), O Juiz (1995), Barb Wire (1996), O Fantasma (1996), Spawn (1997), Aço (1997), além dos novos longas do Corvo e de Batman & Robin (1997). Dos lançamentos da segunda metade dos anos 90, só mesmo Batman Eternamente (1995) e Homens de Preto (1997) podem ser considerados grandes produções capazes de gerar bom lucro, o que não impediu a formação de uma massa crítica em torno das HQs, preparando a verdadeira invasão.

Até 1998, as HQs ainda não tinham se firmado como um gênero com força própria e Homens de Preto, que consolidou Will Smith como astro, era uma revista desconhecida que quase ninguém a associava a um quadrinho da Marvel (a editora na verdade havia comprado os direitos da Malibu Comics). Curiosamente, o verdadeiro teste de fogo para a vida dos super-heróis no cinema viria da mesma Marvel, em 1998, com Blade - O Caçador de Vampiros. O sucesso do personagem, meio homem meio vampiro, interpretado por Wesley Snipes, deu o empurrão necessário para que a editora resolvesse iniciar seu mais ambicioso projeto: um filme com os X-Men, famosíssimos nas HQs e entre a criançada que acompanhava o desenho animado, mas desconhecidos do grande público.

Qualquer um que lia as histórias dos mutantes Wolverine, Ciclope, Tempestade e Jean Grey sempre sonhou em ver esses heróis no cinema. O problema é que um filme desse tipo precisava de alto investimento em efeitos especiais para dar conta dos poderes dos personagens e mesmo assim o risco de cair no ridículo ainda era grande. Pior: se Blade foi o início de uma nova era dos quadrinhos no cinema, o fracasso de X-Men poderia significar o fim de tudo.

Felizmente, X-Men foi um grande sucesso. Boa parte dos suados 75 milhões de dólares da produção foi gasta com efeitos especiais, já que os atores eram praticamente desconhecidos e não muito caros. O êxito de X-Men fez a Marvel olhar adiante, inaugurar uma nova era em sua história e ser a grande responsável pelas HQs ganharem um lugar de destaque como um gênero cinematográfico de verdade. A editora saía de um complicado processo de falência e da briga de dois investidores não pela paixão por quadrinhos mas sim pelo controle da empresa e de seus personagens, mas foi um terceiro jogador, o empresário Avi Arad, que levou a melhor: presidente da Toy Biz, fabricante de brinquedos amparada nos heróis Marvel, ele conseguiu comprar a editora e enxergou em outras mídias além dos quadrinhos um caminho para que ela prosperasse.

Hoje é até engraçado perceber que o ótimo resultado de X-Men foi o responsável por abrir as portas para o incrível Homem-Aranha. Ele é de longe o personagem mais famoso da Marvel e mesmo assim só ganhou sua chance em carne e osso depois dos mutantes darem a cara a tapa. É fato que os direitos cinematográficos do Homem-Aranha estavam enrolados num emaranhado legal que durou uma década para ser desfeito, e atrasou consideravelmente sua adaptação para as telas, o que finalmente aconteceu em 2002 - ano em que Blade 2 também estreou. O resultado foi inacreditável: Homem-Aranha tornou-se a quinta maior bilheteria de todos os tempos, e a Marvel definitivamente fincou seus pés em Hollywood para se tornar uma grande geradora de ótima matéria-prima para o cinema.

Após X-Men e Homem-Aranha, a editora, representada por sua divisão de filmes, não parou mais. Em 2003 foi a vez do segundo longa dos X-Men, ainda melhor que o primeiro, e de Hulk, que contribuiu com a evolução dos efeitos especiais no cinema, mas não deu o retorno astronômico esperado pelos produtores. A Marvel gostou tanto dos resultados obtidos que resolveu investir em heróis da casa não tão conhecidos. Nesse perfil se encaixa Demolidor, transposição de um personagem cult e, com 100 milhões em caixa, provou que só o nome da editora era o suficiente para tirar um projeto da gaveta - sem falar que a fita, com Ben Affleck no papel principal, já deu até cria: a ninja Elektra, o caso amoroso do herói cego no filme e nas HQ.

A Marvel já caminha com as próprias pernas e tem solidificado sua marca na tela grande, mas sua maior rival, a DC Comics, não conseguiu grandes resultados. O que não deixa de ser estranho, considerando que Superman - O Filme ainda é um dos melhores longas de aventura da história, e que Batman, de 1989, fez com que o mundo e os produtores de Hollywood passassem a freqüentar lojas especializadas em quadrinhos em busca de diversão e inspiração - e que a Warner é dona da editora, o que eliminaria quaisquer problemas de direitos autorais. Mas desde Batman & Robin os heróis da DC parecem amaldiçoados - e seus próximos filmes não são tão animadores. Mulher-Gato só mantém o nome da inimiga do Batman, mas no filme com Halle Berry, que deve estrear por aqui no mês que vem, a identidade da personagem foi trocada, bem como sua origem, cidade de operações - até superpoderes ela ganhou. Já Constantine, adaptação da série Hellblazer, modificou tanto o personagem que é difícil prever como ficou - no trailer, ele usa uma arma em forma de cruz. Em forma de cruz!!!

A editora se recuperou do tempo perdido para a Marvel com o lançamento do filme Batman Begins, dirigido por Christopher Nolan. Apesar de ser o quinto filme com o personagem das histórias em quadrinhos conhecido como Batman, da DC Comics, não se trata de uma seqüências dos filmes anteriores, dirigidos por Tim Burton e Joel Schumacher, sendo, na verdade, uma espécie de reinício, uma releitura cinematográfica do personagem também conhecido como o "Cavaleiro das Trevas". Tem como continuação The Dark Knight. Nunca um projeto baseado em um super-herói dos gibis foi montado de forma tão correta. O roteiro é equilibrado, tratando o personagem de modo realista e muito sério. "Está próximo do espírito de Perseguidor Implacável e Sérpico, com uma pitada de longas de samurai e artes marciais", afirma Christian Bale, que interpreta Bruce Wayne/Batman, liderando um elenco que ainda traz Michael Caine, Gary Oldman, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Katie Holmes, Morgan Freeman e Rutger Hauer. Sem falar no uniforme do herói, menos armadura e mais traje hi-tech de espião, e no novo batmóvel, um tanque de guerra para combate urbano.

As HQs têm tamanha força hoje nos cinemas que até editoras independentes, com personagens pouco conhecidos e histórias que saem do eixo dos super-heróis e similares, começam a se dar bem longe do papel. É o caso, por exemplo, de Mike Mignola com Hellboy, (anti)-herói da editora Dark Horse Comics. Mas Hellboy ainda tem pinta de herói aventureiro, e poderia facilmente dividir a cena com Batman (isso já aconteceu nos gibis) - o que não pode ser dito de certos personagens de quadrinhos que começam a ser cutucados para dar origem a filmes sem poderes ou capas. Do Inferno, pesadelo que colocou Johnny Depp na trilha de Jack, o Estripador, saiu das páginas da série de Alan Moore e Eddie Campbell. Estrada para Perdição converteu Tom Hanks em um assassino a serviço de um gângster na América dos anos 30, porém era ainda mais violento em forma de quadrinhos, na série de Max Allan Collins e Richard Piers Rayner. E Anti-Herói Americano transformou em filme as agruras e a vida modorrenta de Harvey Pekar, roteirista da HQ American Splendor - uma obra biográfica levada ao cinema com o mesmo humor mordaz que Pekar imprimiu a si mesmo em papel.

A partir de 2005 a coisa não parou de esquentar, tivemos Elektra, Quarteto Fantástico, Blade 3 - Trinity, O Justiceiro, Homem Aranha 2, Homem-Coisa, entre outros.

Sin City - A Cidade do Pecado (Sin City) - Baseado na incrível série de histórias em quadrinhos de Frank Miller, os co-diretores Miller e Robert Rodriguez reúnem um maravilhoso elenco em um dos filmes mais esperados do ano. Bruce Willis é Hartigan, um policial com a missão de proteger uma dançarina, Nancy (Jessica Alba); Mickey Rourke é Marv, um marginal decidido a se vingar da morte de seu único e verdadeiro amor; e Clive Owen é Dwight, o ajor clandestino de Shellie (Brittany Murphy) que passa a noite inteira protegendo Gail (Rosario Dawson) e suas garotas do Old Town de Jackie (Benicio Del Toro), um rapaz durão com tendências violentas.

Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider) Johnny Blaze é um famoso piloto de motocicleta, notório por suas acrobacias. Um dia, para salvar a vida de seu pai ele faz um pacto com o demônio Mefisto, recebendo uma maldição, se tornando a entidade "Motoqueiro Fantasma".
O filho de Mefisto, Blackheart (em português Coração Negro), foge do inferno com o objetivo de conquistar toda a Terra com ajuda dos demônios chamados de Arcanos. Johnny terá que usar sua maldição para o bem, detendo os planos de BlackHeart.

300, adaptação das HQs de Frank Miller dirigida por Zack Snyder que tem no elenco o brasileiro Rodrigo Santoro e os internacionais Gerard Butler, Lena Headey, David Wenham, Vincent Regan e Dominic West, conta a heróica luta dos espartanos contra o exército invasor persa. Posicionados nas Termópilas e empregando estrategicamente a geografia do local, 300 homens resistiram ao avanço de um exército de milhares.

Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3) - O tímido Peter Parker (Tobey Maguire) enfrentará três inimigos: o Homem-Areia e o Novo Duende, além de lidar com o simbionte negro que dará origem a Venom, um reporter investigativo chamado Eddie Brock, vivido pelo ator Topher Grace.
O filme conta com uma maravilhosa participação do elenco e encerra a trilogia, com a morte de um importante personagem. Entretanto o longa ainda apresenta uma nova personagem, Gwen Stacy que poderá ser usada em futuros filmes do aracnídeo.
Neste novo filme ocorre a retomada de um vilão e o surgimento de outros dois. Harry, vilão do último filme, que voltará mais forte, Flink Marko, o Homem-Areia e Venom.

Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (Fantastic Four: Rise of The Silver Surfer ) - Em pleno casamento de Sue Storm (A Mulher-Invisível) e Reed Richards (O Senhor Fantástico), a Terra recebe a impactante visita de um enigmático e ultrapoderoso ser vindo do Espaço: o Surfista Prateado. Logo, a família de super-heróis originária dos quadrinhos da Marvel, o Quarteto Fantástico, descobrirá as intenções do visitante, que deve preparar o planeta para ser devorado pelo seu monstruoso senhor, Galactus. Enquanto o ser prateado se desloca pelo mundo num caminho destrutivo, Reed, Sue, Johnny e Ben tentam impedir que ele cumpra sua missão e seja tarde demais. E como se não bastasse, o Dr. Destino (Dr. Doom) está de volta e tenta enganar e depois roubar os poderes do Surfista.

Com a produção a todo vapor, o gênero "filme de HQ" não dá sinais de que possa ser s/data passageiro e, como em qualquer outro, vai produzir bons e maus filmes, assim como há bons e maus dramas, comédias, aventuras e ficção científica. Se você gosta desse tipo de produção com seres coloridos e roupas agarradas, fique contente. Nunca foi tão bom ser fã de cinema e de histórias em quadrinhos.

Texto extraido da Revista Set
Por: Odair Braz Júnior e Roberto Sadovski
Publicado em: 07/2004 - 205
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