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O Fabuloso
Destino
de Amélie Poulain |
É difícil procurar
algo quando não se sabe o que é...
Amélie vive em Paris, no seu mundinho particular. Traumatizada pela inesperada morte da
mãe e pela conseqüente indiferença de seu pai, tornou-se fascinada por pequenas coisas,
como fazer um bolo, enfiar a mão num barril cheio de arroz, imaginar quantos orgasmos
estão acontecendo na cidade num determinado momento.
Ela mora num apartamento alugado no bairro de Montmartre, cuida do gato de sua vizinha
aeromoça, PHILOMÈNE e espiona, com uma certa culpa, seu frágil vizinho Dufayel.
Trabalha num Café chamado "Les Deux Moulins", onde sua chefe, SUZANNE, sonha
com seu passado num circo, e sua colega de trabalho, GINA, rejeita o assédio de seu
ex-namorado JOSEPH. A vida de Amélie é razoavelmente boa, mas limitada.
Certo dia, ela descobre uma velha caixa cheia de lembranças de infância em seu
apartamento. Empolgada, assume a missão de encontrar seu dono. Essa busca a leva a entrar
em contato com a zeladora de seu prédio, que anseia por receber uma carta de seu errante
(e, infelizmente, falecido) marido, assim como com o cruel dono de mercearia COLLIGNON,
que trata muito mal seu empregado LUCIEN. Por fim, seu caminho se cruza com DUFAYEL, que
indica a ela o caminho certo para encontrar o que procura e, durante esse processo,
revela-se um filósofo e um pintor excêntrico ele vem pintando cópias minuciosas de um
Renoir por ano, há vinte anos.
Amélie devolve a caixa, anonimamente, para seu dono de meia-idade, BRETODEAU, e assiste
à distância a vida desse homem ser transformada pela mágica descoberta. Fica tão
comovida com sua alegria que começa a procurar outras vidas para consertar.
Ela leva Joseph a se apaixonar por GEORGETTE, libertando Gina de seu ciúme indesejado.
Numa tentativa de liberar as emoções de seu pai, Amélie rouba seu amado anão de jardim
e faz com que Philomène envie para ele fotos do anão em uma viagem ao redor do mundo.
Entra no apartamento de Coullignon e faz algumas mudanças sutis, levando o terrível
homem a duvidar de sua própria sanidade. Ela ainda envia falsas cartas de amor à amarga
zeladora, supostamente remetidas por seu marido.
Até que um dia, ao retornar de uma visita a seu pai, Amélie se depara com um homem jovem
que recolhe fotos de passaporte jogadas fora numa estação de trem. Ele vai embora,
deixando cair seu diário. Ela pega o diário e fica encantada: ele revela que um homem
está deixando suas fotografias por toda a cidade de Paris. O dono do diário está
desesperado para saber o porquê e Amélie fica desesperada para encontrá-lo.
Amélie descobre o nome e o telefone do dono do diário e começa a pesquisar. Quanto mais
descobre a seu respeito, maior sua certeza de que NINO, colecionador de coisas efêmeras e
bizarras, como mensagens estranhas em secretárias-eletrônicas, é o homem ideal para
ela. Mas é difícil mudar velhos hábitos. Apesar de seu novo amigo Dufayel a aconselhar
a não o fazer, Amélie passa a agir em segredo.
Ela visita Nino anonimamente em seu local de trabalho (um trem fantasma), deixa pistas
enigmáticas para ele, e o conduz a uma misteriosa caça ao tesouro; ela chega a
solucionar o quebra-cabeça que intrigava Nino (o homem misterioso é um técnico de fotos
instantâneas) sem nunca, porém, aproximar-se dele diretamente. Em vez disso, deixa uma
série de fotos suas para Nino, que o levam cada vez mais perto do "Les Deux
Moulins".
No Café, Joseph agora tem ciúmes de Georgette, e o poeta local HIPOLITO lamenta o fato
de não ter um editor. Enquanto isso, Dufayel ensina Lucien a pintar e está intrigado com
as estranhas e belas imagens que Amélie enviou para ele em vídeo. Collignon, perturbado
com as sabotagens de Amélie, está à beira de um ataque de nervos. E Nino finalmente
encontra o Café. Contudo, quando pergunta à Amélie se ela é a mulher que o vem
conduzindo até lá, ela perde a coragem e nega tudo.
Dufayel tenta convencê-la a revelar a verdade para Nino, mas ela está apavorada. Porém,
o destino intervém na pessoa de Gina, que sai para uma caminhada com Nino e lhe diz que
também ele deve se aproximar em segredo de Amélie. Dufayel deixa para ela um vídeo
incentivando-a mergulhar de cabeça na vida.
Uma trilha de bilhetes vai lentamente conduzindo Amélie, finalmente, até Nino. Eles se
beijam e tudo em volta deles entra nos eixos...
BRETODEAU encontra seus netos distantes.
HIPOLITO descobre que Amélie "publicou" seu trabalho com tinta-spray num muro.
DUFAYEL passa a desenvolver um estilo próprio de pintura.
O PAI de Amélie decide seguir os passos de seu anão de jardim e sai numa volta pelo
mundo...
... e Amélie diz a Nino que o ama.
Os Personagens
AUDREY TAUTOU (Amélie Poulain) - Uma tímida jovem com um
acentuado gosto pelos pequenos prazeres da vida: enfiar a mão num saco de grãos, quebrar
a crosta de um crème brulée (N.T.: sobremesa francesa) com o dorso da colher ou atirar
pedras no Canal Saint Martin.
Na noite de 13 de agosto de 1997, ela se vê tomada por uma resolução: endireitar as
vidas de outras pessoas. Quem, contudo, irá consertar a vida de Amélie?
MATHIEU KASSOVITZ (Nino Quincampoix) - Caixa em meio período no
"Palace Vídeo, O Rei do Pornô", ele coleciona fotos instantâneas e digitais
gravadas em concreto. Às quartas-feiras, trabalha como fantasma, assombrando os
passageiros de um trem fantasma.
RUFUS (Raphäel Poulain, Pai de Amélie) - Amélie tem seis anos. O único contato físico
de Raphäel Poulain com ela ocorre durante o checkup mensal da menina. Emocionada com
tamanha proximidade, a menina não consegue impedir seu coração de disparar... Daí em
diante, seu pai se convence de que ela sofre de uma anomalia cardíaca.
LORELLA CRAVOTTA (Amandine Fouet, Mãe de Amélie) - Uma vez por
ano, Amandine Fouet leva sua filha à Catedral de Notre-Dame, onde a menina acende uma
vela para que Deus lhe traga um irmãozinho. Até que num ano, a intervenção divina
ocorre efetivamente três minutos depois. Infelizmente, porém, o que cai do céu não é
um bebê, mas uma turista canadense chamada Marguerite Bouchard, que decide acabar com
tudo por causa de problemas amorosos... Amandine Poulain, cujo sobrenome de solteira é
Fouet, morre no local.
CLAIRE MAURIER (Suzanne) - Após passar trinta anos atendendo
num bar, aprendeu tudo sobre amor à primeira vista. Pode até fornecer a receita:
"Pegue duas pessoas, faça com que ambas acreditem que acham uma à outra
irresistíveis e depois deixe-as ansiosas com isso. Nunca falha".
CLOTILDE MOLLET (Gina, Colega de trabalho de Amélie) - Sua avó
curava as pessoas. O que ela mais gosta é de quebrar os ossos dos clientes.
DOMINIQUE PINON (Joseph) - Joseph é um ciumento patológico que
só tem prazer quando está estourando bolhinhas daquele plástico-bolha usado para
embalar.
ISABELLE NANTY (Georgette) - Ela é Goergette, a hipocondríaca.
Quando não está com enxaqueca, seu nervo ciático a incomoda. O monóxido de carbono a
faz tossir tanto que constantemente se vê perto de descolar sua pleura.
SERGE MERLIN (Raymond Dufayel) - Ele é o homem de vidro. Uma
doença congênita faz seus ossos se quebrarem como cristal. Um simples aperto de mão
poderia estraçalhar seu metacarpo. Evita sair de casa há cerca de vinte anos e passa seu
tempo reproduzindo uma tela de Renoir. Pinta um por ano há vinte anos.
YOLANDE MOREAU (Madeleine Wallace, a Zeladora) - Madeleine
Wallace é a zeladora do prédio onde mora Amélie. A expressão francesa "chorar
como uma Madalena" aliada às Fontes Walllace são indicações claras de que ela
nasceu fadada às lágrimas...
JAMEL DEBBOUZE (Lucien) - Amélie adora a forma delicada como
ele manuseia a endívias, como se fossem pássaros caídos do ninho. É esse o modo de
Lucien demonstrar como valoriza um trabalho bem feito.
URBAIN CANCELLIER (Collignon, o dono da mercearia) - Ele é mau
e grosseiro, adora humilhar os mais fracos, porém ninguém ousa enfrentá-lo. "Um
belo de um prompter, como fazem com as falas no teatro, escondido e sempre pronto a lhes
mostrar uma resposta mordaz, é disso que os tímidos precisam para finalmente ter a
última palavra..."
MICHEL ROBIN (Velho Collignon) - Antes de ser dono de mercearia,
trabalhou no metrô marcando os bilhetes dos passageiros (para não serem reutilizados)...
Ultimamente, vem acordando no meio da noite para ir ao parque marcar com furos as folhas
dos loureiros. Ele preferia que fossem lilases. É a vida.
ARTHUS DE PENGUERN (Hipolito) - Escritor fracassado, diz que os
críticos literários não passam de cactos sem espinhos que vivem no meio de abutres que
se alimentam de suas próprias penas.
MAURICE BENICHON (Dominique Bretodeau, o homem da caixa) -
Dominique Bretodeau adora frango assado. Depois de devorar as coxas, sobrecoxas, o peito e
as asas, seu maior prazer consiste em descarnar a carcaça com seus dedos.
CLAUDE PERRON (a Stripper) - Ela trabalha como stripper no
"Palace Video, O Rei do Pornô" e é bem direta. "Amélie? Hum...ela tem...
estatura mediana, não é nem anã nem tipo girafa, sabe, normal. Bonita do seu jeito...
Agora, se é loura ou morena, bem, é difícil dizer... De qualquer forma, não é ruiva.
Embora..."
ENTREVISTA COM JEAN-PIERRE JEUNET
P:Qual era o seu estado de espírito após terminar Alien A Ressurreição e o que o
motivou a fazer Amélie From Montmartre?
R: Lembro-me que depois de Alien tudo que eu queria era voltar à França, reunir uns
amigos e fazer um filme "pequeno"! É que, embora Alien tenha sido uma aventura
extraordinária, também foi um grande peso... Na realidade, quando a Fox me ofereceu o
filme, eu já estava trabalhando no projeto de Amélie. Tinha várias idéias para cenas,
situações, personagens, diversos desejos específicos, mas a dificuldade estava em achar
um denominador comum naquilo tudo. Eu não era capaz de dizer a respeito de que era o
filme. Era assim que as coisas se encontravam quando fui para Hollywood. Ao voltar,
retomei o projeto de onde havia parado.
P: E foi fácil, nessa altura, descobrir sobre o que era o filme?
R: Não, não de imediato. Todas as piadas que vinha colecionando dariam para fazer quatro
ou cinco filmes diferentes, porém não um apenas! E então, enquanto eu refletia sobre
essas idéias, me veio a resposta, como uma fruta madura. Como se fosse óbvio. O
denominador comum era essa garota, que decide modificar as vidas das outras pessoas. E
assim, de repente, a idéia decolou... Guillaume Laurant e eu começamos a escrever.
P: Como conheceu Guillaume Laurant?
R: Isso é uma verdadeira história de cinema. Na época de Delicatessen (N.T.:filme de
Jeunet, de 1990), ele estava fazendo uma coisa ou outra. E ele tinha escrito um roteiro,
em grande parte pelo simples prazer de fazê-lo, já que era a adaptação de um livro de
que nem sequer detinha os direitos autorais! Depois de assistir Delicatessen, sua namorada
disse a ele: "Você devia enviar seu roteiro a Caro ou a Jeunet". Ao procurar na
lista telefônica, encontrou duas vezes o nome Caro, mas só havia um Jeunet. E então foi
para mim que enviou o roteiro. Eu o li e telefonei para ele para dizer que tinha lido, e
foi aí que ouvi uma mensagem de secretária-eletrônica esquisita. A mensagem me fez
querer conhecê-lo e foi assim que aconteceu! Ele trabalhou nos diálogos de The City of
the Lost Children. E chegou a trabalhar em Alien, quando estávamos com dificuldade para
encontrar um final.
P: Como diria que complementam um ao outro?
R: Nossas mentes são bastante parecidas. Porém, ele se dedica mais aos diálogos e eu
cuido mais do visual. No que diz respeito às idéias, mesmo quando a idéia inicial é
minha, nossa interação é como pingue-pongue. O filme Amélie é repleto de idéias
dele.
P:O filme tem um uma característica de inventário, remanescente do trabalho de
Prévert!
R: Adoro listas, adoro coleções. Na verdade, coleciono... temas de coleções! Usei
alguns no filme: Nino coleciona digitais em concreto e fotos instantâneas descartadas...
Durante muito tempo, eu tinha uma caixa onde guardava fragmentos de histórias, idéias.
Ainda guardo, mas hoje em dia, como sou uma pessoa um tanto racional, guardo todas essas
idéias e listas no computador...
P: Essas idéias são inventadas ou algumas delas são extraídas de sua experiência
de vida?
R: Ambas as coisas. A dificuldade em fazer o filme consistiu em selecionar e concatenar
piadas originárias da vida real e idéias apenas fruto da imaginação. Não podia
forçar seu encaixe na história, elas tinham de ser adequadas às personalidades dos
personagens.
P: Apresentar os personagens na forma de "eu gosto, eu não gosto"
naturalmente faz lembrar seu curta Foutaises (Nonsense)...
R: Sim, sempre fiz isso. Tenho páginas e mais páginas de "Gosto, não
gosto"... Usá-las é uma questão delicada porque é preciso que seja bastante
pessoal e que ao mesmo tempo alcance a todos e em Amélie foi imperativo acrescentar o
elemento visual. É, contudo, um jogo do qual eu gosto...
P: O que diz das incríveis imagens de televisão que inseriu no filme, de onde
vieram?
R: O prazer de ver uma imagem que o impressiona e o deixa boquiaberto é uma coleção em
si. Uma coleção de instantes mágicos. No fim das contas, é um conceito semelhante ao
de "gosto, não gosto"... Coleciono essas imagens na memória, até certo ponto.
Não as gravo, como Amélie o faz, de modo que tivemos de ir atrás delas para o filme,
assim como também tivemos de encontrar algumas novas. Felizmente, pudemos recorrer ao
programa "Zapping", do Canal+... (N.T.: canal por assinatura da TV francesa)
P: A protagonista sempre se chamou Amélie?
R: Não, isso aconteceu no meio do caminho. Gosto de ter um ator em mente quando escrevo.
Então, procuramos alguém e pensamos: "Poderia ser a personagem de Emily Watson em
Ondas do Destino. Essa integridade e determinação..." Então imaginamos Emily, só
para começar o trabalho. Mais tarde, nos perguntamos: "Por que não?" Além
disso, ela havia dito numa entrevista que desejava trabalhar comigo. Assim, escrevemos a
personagem para ela e a chamamos de Emily. Contactei Emily Watson, nos encontramos e ela
gostou do roteiro. Nos reunimos diversas outras vezes em Paris e em Londres. Fizemos
leituras em francês e me dei conta de que dessa forma ela perderia cinqüenta por cento
de seu talento, razão pela qual reescrevi a história para que tivesse início na
Inglaterra: a heroína havia crescido lá antes de se mudar para Montmartre... Ela ainda
estava disposta a atuar. No primeiro dia da pré-produção, recebi um telefonema. Era
Emily Watson dizendo que, por razões pessoais, tinha desistido de fazer o filme. Ela não
queria deixar sua casa por seis meses, era muito tempo. De volta à estaca zero!
Reescrevemos o roteiro para que se passasse inteiramente em Montmartre. O nome foi
mantido, apenas o mudamos de Emily para Amélie. Comecei a procurar uma atriz na França e
um dia, caminhando, me deparei com um poster e fiquei paralisado com um par de olhos
negros, uma inocência, uma postura fora do comum: tratava-se de Audrey Tautou no poster
de Vénus Beauté. Marquei uma entrevista e ela fez um teste. Nos primeiros dez segundos
eu já sabia que seria ela.
P: Qual, na sua opinião, é a maior qualidade dela?
R: É um prazer trabalhar com ela. Não só por ser perfeita para o papel, mas por ser uma
atriz que interpreta personalidades típicas, o que é raro na França. Além disso, tem
uma sensibilidade aguçada para a fotografia e o movimento no cinema. E tem apenas vinte e
três anos!
P: A escalação do restante do elenco também transcorreu facilmente? Por exemplo,
pensou logo em Mathieu Kassovitz para o papel do "Príncipe Encantado"?
R: Sim, foi bem rápido... Não há tantos atores assim para desempenhar um papel
principal romântico na França. Ele não só é um ator extraordinário e incrivelmente
charmoso, como também possui uma característica impressionante: a câmera o adora. Nos
damos muito bem e ele ainda é um ótimo diretor, o que nos permitiu ter ótimas conversas
sobre filmes.
P: E quanto a Jamel?
R: Jamel surgiu de repente quando eu estava nos EUA. Eu o descobri abruptamente, de um dia
para o outro, sem me dar conta da magnitude de sua enorme popularidade. Tinha apenas um
pequeno papel para lhe oferecer, que era o do empregado da mercearia, mas acreditava que
ele ficaria ótimo como este personagem gentil, delicado. E ele é louco por Alien. Além
do mais, eu o havia visto em Zonzon e pude ver o ator maravilhoso que é.
P: O elenco de Amélie From Montmartre também inclui alguns dos seus atores
favoritos: Dominique Pinon, Rufus, Serge Merlin...
R: Jamais faria um filme sem Dominique. A princípio, não havia nenhum papel à sua
altura em Amélie, então tive de lhe oferecer uma participação. Mas ele preferiu
interpretar o personagem que era um ciumento obsessivo. E se entregou de tal forma ao
papel que o transformou num grande personagem. O par formado por ele e Isabelle Nanty vai
além de tudo que eu havia imaginado. Isto se deve a ele e também a ela, que eu não
conhecia e que acabou por me surpreender.
Sempre esteve claro que Rufus seria perfeito como o pai de Amélie. Eu o havia visto no
palco, interpretando Freud e achei seu trabalho extraordinário. Foi como se ele tivesse
tido meses e meses para ensaiar o papel de pai de Amélie! Quanto a Serge Merlin, não
pensei nele de imediato. De início procurei atores conhecidos e um dia me pareceu óbvio
que ele tinha sido feito para esse papel!
Adoro personagens secundários, adoro atores com personalidades típicas, com um
"rosto" real, uma personalidade verdadeira. Foi um enorme prazer trabalhar com
Claire Maurier, Yolande Moreau, Michel Robin, Maurice Benichou, Urbain Cancellier, Claude
Perron, Clotilde Mollet...
P: Foi a primeira vez que filmou fora de estúdio. Por quê?
R: Porque cedo ou tarde eu tinha que sair dele! E a história era a ideal para isso,
queria que Paris estivesse lá, no centro do filme. Porém, assim como Kurosawa, acredito
que: "cada tomada deve ser como uma pintura". Não consigo deixar de ser
"artístico". Busquei as imagens de tudo o que me atrai em Paris, coisas que se
pode encontrar nos quadrinhos de Tardi. Nós dois somos atraídos pelas mesmas coisas:
trens de superfície, certos monumentos, escadarias, certos prédios... Toda a minha busca
por locações se pautou por isso. Em seguida, tiramos os carros das ruas, limpamos as
pichações dos muros, trocamos os posters por outros mais coloridos etc. Digamos que
tentei ter o máximo de controle possível sobre as qualidades artísticas da cidade. E
foi sensacional trabalhar com a pós-produção digital, pois pudemos fazer ajustes até o
último momento, até o último quadro...
P: Filmar em locações mudou sua forma de trabalhar?
R: Não, não fundamentalmente. De qualquer forma, o que posso dizer agora é que
realmente não gostei! (risadas) Não consigo me acostumar com a idéia de não poder ter
o controle de tudo. Em locações, há sempre um carro estacionado no lugar errado, um
sujeito que aparece ou faz barulho nas proximidades. Algo sempre dá errado... Essas
coisas me deixam maluco! Tempo é dinheiro. E para não perder tempo, preparo tudo
cuidadosamente. Assim, perder uma hora ou duas por causa de imprevistos não é nem um
pouco divertido, nem um pouco mesmo!
P: É a primeira vez que trabalha com Bruno Delbonnel como diretor de fotografia, no
lugar de Darius Khondji...
R: Darius não estava disponível. Bruno é um velho amigo, nos conhecemos há 25 anos.
Quando filmamos Delicatessen, ele ainda nem era operador de câmera, então ele não
participou dos três filmes. Enquanto isso, filmei comerciais com ele. Quando soube que
Darius não poderia trabalhar no filme, aproveitei a oportunidade para convidar Bruno. E
no final o resultado ficou acima das minhas melhores expectativas...
P: Yann Tiersen compôs a trilha.
R: Tinha outra coisa em mente, até que um dia um assistente de produção me deu uma
carona e colocou um cd que eu não conhecia e que achei simplesmente maravilhoso. Era uma
composição de Yann Tiersen. Na noite daquele dia eu já tinha todos os seus cds! Além
disso, ele nos permitiu escolher o que quiséssemos de suas outras gravações... A parte
difícil foi fazer a seleção, pois tudo se encaixava com as imagens do filme!
P: No set você disse que Amélie From Montmartre é um filme "que deixa as
pessoas felizes". O que o faz querer tornar as pessoas felizes atualmente?
R: Pode ter algo a ver com uma evolução pessoal. Aos 47 anos, há coisas com que
aprendemos a conviver. E não necessariamente se deseja as mesmas coisas de antes. The
City of the Lost Children é um filme mais sombrio. Para nós, era uma espécie de conto
de fadas. Mas quando o revejo hoje em dia, me dou conta do quanto é obscuro... Isso
também pode ter a ver com a presença de Caro, pois seu imaginário é bem mais sombrio,
não sei...
Fui encarregado de dirigir Alien. Era um filme de ação, hardcore e violento. Tudo isto
para dizer que nuca fiz um filme realmente positivo. E isso me interessava. Mais do que
destruir, construir me parece um desafio interessante. Neste estágio de minha vida e de
minha carreira, queria fazer um filme alegre, que fizesse as pessoas sonharem, que lhes
desse prazer...
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