|

 |
A Bela
Adormecida |
Uma
Visão Histórica
O longa-metragem A Bela Adormecida (Sleeping Beauty), de Walt Disney - uma fantasia
clássica animada ao som da música de Tchaikovsky - foi lançado originalmente em 1959.
Na época de seu lançamento, este espetáculo em 70mm widescreen, no qual o amor a tudo
vence, foi uma experiência ousada para Disney e seus artistas e também um grande avanço
para a arte da animação.
Em sua adaptação da versão do século XVII de Charles Perrault de um famoso conto de
fadas, a equipe de artistas dos estúdios Disney criou um filme absolutamente encantador,
dramático e divertido. De sua abertura tradicional à moda dos contos de fadas à ação
frenética da cena climática do duelo contra o dragão, o longa-metragem, A Bela
Adormecida (Sleeping Beauty), é até hoje considerado uma das obras-primas de animação
de Disney.
O desenvolvimento preliminar de A Bela Adormecida (Sleeping Beauty) teve início em 1950,
com a produção atingindo seu auge em 1953. A produção do filme, entretanto, sofreu
atrasos enquanto Walt Disney se dedicava à construção da Disneylândia e a vários
projetos do estúdio para a televisão. Finalmente, após mais de seis anos de produção,
o filme de 75 minutos foi concluído, a um custo de US$6 milhões de dólares, o que fez
dele o longa de animação mais caro jamais produzido até então. Parte deste custo
deveu-se ao formato Technirama widescreen em bitola 70mm, que exigiu uma animação mais
complexa e cenários de maiores proporções para encher a tela, e que levou mais de 300
artistas e técnicos a criarem mais de um milhão de esboços e desenhos.
O Elenco de Dubladores
A Bela Adormecida (Sleeping Beauty) conta com um elenco impressionante de grandes
intérpretes. A cantora de ópera Mary Costa dubla a voz doce e interpreta as canções da
princesa Aurora, enquanto o cantor Bill Shirley dublou a voz de seu príncipe encantado.
Walt Disney solicitou pessoalmente a contratação de Eleanor Audley, que havia feito um
trabalho magistral dublando a madrasta má de Cinderela, para o papel da fada malvada,
Malévola. A dubladora veterana Barbara Luddy, ouvida anteriormente em A Dama e o
Vagabundo (Lady and the Tramp), interpretou o papel de Primavera e outra colaboradora
constante dos estúdios Disney, Verna Felton, dublou a voz de Flora. Felton, já falecida,
dublou também outros personagens Disney bastante famosos, como a mãe de Tambor, de
Bambi, a matriarca dos elefantes de Dumbo, a divertida fada madrinha de Cinderela
(Cinderella), a irritada Rainha Vermelha de Alice no País das Maravilhas (Alice in
Wonderland) e a cáustica tia Sarah, de A Dama e o Vagabundo (Lady and the Tramp). A
comediante Barbara Jo Allen dublou Fauna.
Dando vida à Bela Adormecida: O Processo Criativo
Dentre todos os contos de fadas clássicos adaptados por Disney para as telonas, A Bela
Adormecida (Sleeping Beauty) ocupa um lugar de destaque. Walt Disney instigou seus
artistas a criarem "ilustrações em movimento", isto é fazer com que cada
fotograma tivesse vida independente do filme em si, como uma bela ilustração. Ele pediu
à sua equipe de animadores que "criassem personagens os mais reais possíveis, quase
de carne e osso, e que se identificassem com eles". Como modo de garantir isso,
modelos-vivos foram filmados para servir como objeto de estudo e de referência aos
artistas.
A fim de enriquecer o visual ilustrativo do filme, Disney requisitou os serviços de um
grande ilustrador de cenários do estúdio, o talentoso artista Eyving Earle. Earle fez
uma fusão das influências góticas francesas, italianas e renascentistas com seu
próprio estilo abstrato de realismo, criando a beleza formal e o desenho estilizado que
se vê em A Bela Adormecida (Sleeping Beauty). Um dos exemplos desta técnica consistia em
desenhar objetos em primeiro plano com a mesma definição com que se desenhava uma
árvore ao fundo, a 15km de distância. A influência de Earle também pôde ser sentida
no desenho dos personagens, cujo traço era marcadamente vertical e angular, em contraste
com os desenhos mais arredondados e suaves das produções de animação anteriores do
estúdio.
Os Animadores
Quando o trabalho de animação de A Bela Adormecida (Sleeping Beauty) encontrava-se a
pleno vapor, em meados da década de 50, os maiores animadores dos estúdios Disney -
conhecidos como os "nine old men, numa referência sarcástica aos cabeças da
Suprema Corte do presidente Roosevelt - estavam no auge de sua forma artística. Em seus
filmes anteriores, como Branca de Neve, Pinóquio e Bambi, eles já haviam demonstrado a
viabilidade de produções de animação na forma de longa-metragem, e também que
personagens bidimensionais de cartoons, desenhados à mão, poderiam conquistar o
coração e a imaginação dos espectadores de cinema. A Bela Adormecida (Sleeping Beauty)
foi para eles seu maior desafio até então, tanto em termos estilísticos quanto
narrativos.
Eric Larson, um dos maiores animadores dos estúdios Disney e diretor de seqüências de A
Bela Adormecida (Sleeping Beauty), relembra que houve um esforço consciente no sentido de
dar ao filme um visual inédito e de torná-lo o mais perfeito possível. "Após uma
reunião de roteiro, Walt me disse que não se importava com o tempo que a produção do
filme levaria, contanto que fizéssemos tudo direito", conta Larson. "Foi um
desafio fazer algo que jamais havíamos feito anteriormente."
Houve mais reuniões da equipe de roteiristas de A Bela Adormecida (Sleeping Beauty) do
que em qualquer produção anterior do estúdio, unicamente com o intuito de dar ao conto
de fadas de Perrault a forma ideal segundo os propósitos dos animadores. A história
original contava com sete fadas, não incluía o duelo com o dragão e Malévola era uma
bruxa horrenda, apropriadamente chamada Uglyane.
"A primeira seqüência que animamos", relembra Larson, "é aquela na qual
a princesa está passeando no bosque com os animais e falando acerca de seu amado
príncipe. Walt tinha uma predileção por começar a produção com uma cena do meio do
filme, pois isso proporcionava à equipe uma oportunidade ideal para desenvolver os
personagens e suas personalidades."
A atriz veterana Helene Stanley, que durante 14 anos trabalhou como a maior modelo do
desenho das heroínas Disney, serviu de inspiração aos artistas na criação dos
movimentos graciosos da princesa Aurora. Ela também serviu de modelo e inspiração para
Cinderela e Anita (101 Dálmatas). Com seus olhos amendoados, queixo pontudo, nariz
minúsculo e movimentos corporais muito expressivos, Stanley era convocada sempre que se
tratava de uma cena difícil com personagens humanos.
Os animadores trabalhavam com ampliações dos fotogramas das imagens live-action dos
artistas e, sem no entanto copiar o traçado por cima, convertiam e redesenhavam o que
viam na forma de caricaturas, concentrando-se no estilo do traço escolhido e em áreas
determinadas da cena.
Stanley relembra seu trabalho em A Bela Adormecida (Sleeping Beauty) como sendo uma
experiência com um grande nível de exigência: "Tudo precisava ser absolutamente
perfeito, todos os movimentos precisavam ser corretos", conta ela. "Ensaiamos a
cena grandiosa da valsa durante três dias antes que ela fosse filmada. Eu tive de usar um
figurino confeccionado sob medida para mim, uma peruca incômoda e também decorar todas
as falas."
O animador Marc Davis, um dos maiores artistas e desenhistas de personagem do estúdio,
criou e animou a maior parte das cenas de Aurora e Malévola. No desenho de Malévola,
Davis optou por uma abordagem única e discreta, tornando-a uma mulher de grande dignidade
e beleza, e não a caricatural bruxa-vilã dos filmes anteriores. Sua beleza é fria e
perversa e seus movimentos são graciosos e seguros.
Segundo Davis, animar Malévola foi um desafio. "Em quase todas as suas cenas, ela
está fazendo algum discurso ou lançando feitiços", conta ele. "Ele tinha
muito pouco contato íntimo com os demais personagens."
Davis conseguiu superar algumas dessas limitações dando à personagem um visual
interessante e presenteando-a com um bicho de estimação como comparsa - um corvo
espião. Inspirado por uma imagem religiosa tirada de um livro de arte tcheco-eslovaco,
Davis fez inúmeros testes com formas como a de uma labareda de fogo, de chifres e
ondulações, em cores triangulares. Malévola usa um traje longo negro e esvoaçante, com
uma textura que lembra a de um réptil, o que facilitou sua transformação na pele
escamosa do dragão no qual ela se transforma posteriormente. Seu chapéu lembra os
chifres de uma cabra e a parte que emoldura seu rosto foi inspirada nas asas de um
morcego.
O falecido Woolie (Wolfgang) Reitherman, outro dos "nine old men", dirigiu uma
das seqüências mais espetaculares do filme - o duelo mortal entre o príncipe e o
dragão, que foi animado primordialmente por Eric Cleworth. Reitherman especializou-se
como diretor e animador de cenas de ação, como por exemplo a batalha dos dinossauros de
Fantasia, o ataque da monstruosa baleia de Pinóquio (Pinnocchio) e a hilária cena da
perseguição em alta velocidade, de The Legend of Sleepy Hollow, na qual Ichabod Crane é
perseguido por um cavaleiro sem cabeça. Subseqüentemente, ele dirigiu e/ou produziu
todos os longas animados dos estúdios Disney, de A Espada Era a Lei (The Sword in the
Stone) até O Cão e a Raposa (The Fox and the Hound). Reitherman faleceu em 1985.
Os animadores Frank Thomas e Ollie Johnston - que, juntos, contaram a toda a história da
animação Disney num livro intitulado Disney Animation: The Illusion of Life - deram vida
às três fadas. Outro renomado animador Disney, Milt Kahl, criou um príncipe Felipe
simpático e convincente.
A Tecnologia
A Bela Adormecida (Sleeping Beauty), uma realização técnica espetacular que
aproveitou-se de todos os recursos do formato widescreen, foi o primeiro longa-metragem
animado a ser filmado em bitola 70mm. Empregando um processo até então inédito, chamado
Technirama-70, os artistas Disney foram capazes de criar cenas panorâmicas em um
Technicolor reluzente, incluindo uma animação cheia de minúcias de detalhes. A ilusão
impressionante de profundidade de campo e dimensão do filme é fruto do casamento dos
recursos da câmera de planos múltiplos e do widescreen.
Na filmagem em bitola 70mm, o filme corre na câmera na horizontal, e não na vertical,
com as imagens expostas em fotogramas duplos de 35mm. O negativo Technirama é copiado em
70mm e projetado através do modo convencional nos cinemas.
"O complexo processo Technirama impôs um enorme trabalho extra aos artistas",
afirmou Walt Disney, em 1959. "Eles tiveram de movimentar seus personagens num campo
de ação muito maior. Os cálculos matemáticos se tornaram muito mais intrincados. Todas
as fases do desenho e da mecânica, que, juntas, compreendem a animação, tiveram de ser
repensadas."
As animadores reclamaram do trabalho num formato apelidado por eles de "abertura de
caixa de correio" e das complicações para se contrabalançar a ação no centro da
tela com o preenchimento das laterais com mais personagens coadjuvantes. O formato de
grande largura por uma altura estreita também impôs limitações nas tomadas em plano
fechado.
A Trilha
Desde os primórdios de sua carreira, Walt Disney reconheceu a importância da música em
seus longas de animação. A série de cartoons, Silly Symphony (1929-1939), permitiu a
ele experimentar livremente com estas duas formas tão diversas de arte e preparou seus
artistas para o desafio que seria a produção de Fantasia.
Disney sempre admirou a expressividade do balé "A Bela Adormecida", de
Tchaikovsky, e sempre considerou-o uma parte fundamental do processo de criação de A
Bela Adormecida (Sleeping Beauty). Segundo o diretor de seqüência, Woolie Reitherman,
"Walt queria um equivalente visual perfeito para àquela eloqüência musical."
George Bruns, um músico renomado e um dos maiores compositores do estúdio, foi convocado
para fazer uma adaptação artística das canções românticas e das orquestrações da
peça clássica de Tchaikovsky. Ele viajou à Alemanha para gravar a música interpretada
pela Orquestra Sinfônica de Berlim, com o que havia de mais moderno na época: um
equipamento estéreo de seis canais.
Ao longo de sua adaptação, Bruns reunia-se constantemente com os animadores que estavam
criando os personagens e os storyboard para trocar idéias. A música foi criada
especificamente para se casar com a ação da história, transformando o ritmo do balé no
tempo da animação. A trilha musical do filme inclui cerca de um terço do balé
original.
O balé "A Bela Adormecida", que Tchaikovsky considerava uma de suas melhores
criações, foi apresentado pela primeira vez em São Petersburgo, Rússia, em 1890. Na
íntegra (um prólogo e três atos), o balé tem a duração de duas horas e 45 minutos.
A trilha instrumental de A Bela Adormecida (Sleeping Beauty) é uma coadjuvante da ação
nas telas - a música acentua o apelo emocional da história, conferindo ainda mais
impacto e emoção às cenas de amor entre o príncipe e a princesa, às cenas cômicas
das três fadinhas e à cena climática do duelo final entre o príncipe e o dragão.
O filme inclui ainda cinco canções retiradas do balé original, que ganharam letras e
foram transformadas em temas dos personagens. "Once Upon a Dream" e "I
Wonder" são interpretadas por Mary Costa. As demais são "Hail the Princess
Aurora", "The Sleeping Beauty Song" e a cômica canção celebratória
"Skumps", interpretada pelos dois reis.
|
 |