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notasprod_1.gif (2071 bytes) Caramuru - A Invenção do Brasil

webc3931.jpg (28232 bytes)Caramuru - A Invenção do Brasil narra de forma afetiva, lúdica e bem-humorada uma das histórias mais remotas do imaginário popular brasileiro: o casamento de Caramuru e Paraguaçu tendo como cenário o paraíso tropical que era o Brasil à época do seu descobrimento. E viaja também às cortes de Lisboa quinhentista na época áurea dos descobrimentos portugueses em primorosa recriação de época.

Conta a lenda que o português Diogo Álvares teria nascido em Viana do Castelo, norte de Portugal, em 1475, e dado às costas brasileiras em 1510.

Por sua vez, Paraguaçu teria nascido na ilha de Itaparica, em frente à cidade de Salvador. Itaparica seria também o nome do chefe dos tupinambás, pai da jovem índia.

Logo o encontro amoroso de Caramuru e Paraguaçu ganha um desdobramento inesperado mas muito bem-vindo. Não é que Moema, irmã mais jovem de Paraguaçu, também se encanta pelo estrangeiro e é plenamente correspondida? O que em outras épocas poderia provocar uma história de sangue transformou-se apenas no primeiro triângulo amoroso da história do país.

Com direção de Guel Arraes e roteiro de Guel Arraes e Jorge Furtado, o filme traz Selton Mello como Diogo Álvares, o Caramuru, Camila Pitanga, como Paraguaçu, e Déborah Secco como Moema, irmã de Paraguaçu. Também estão no elenco Tonico Pereira (Itapararica), Débora Bloch (Isabelle), Luis Mello (Vasco de Athayde), Pedro Paulo Rangel (Dom Jayme) e Diogo Vilela (Heitor).

Com filmagens realizadas em Portugal (Palácio de Queluz, Castelo de Leiria, Mosteiro da Batalha) e Brasil (praia de Picinguaba, no litoral paulista) e estúdios da Central Globo de Produção, no Rio de Janeiro, Caramuru - A Invenção do Brasil foi inteiramente filmado no sistema de alta definição de imagem, o HDTV, com direção de fotografia de Felix Monti. A concepção musical é de Lenine, a produção musical de Carlinhos Borges, a direção de arte de Lia Renha e os figurinos de Cao Albuquerque.

Para inventar o Brasil, Guel Arraes e Jorge Furtado pesquisaram as inúmeras influências que fazem parte da história do país - de Macunaíma a texto de Camões, e somaram rigor com irreverência, humor com afeto, confronto com leveza em uma comédia histórica focalizando a origem de alguns dos bons e maus costumes desta terra.

Caramuru - A Invenção do Brasil aborda de forma bem-humorada, lúdica e sensual o encontro de dois mundos e as muitas possibilidades de trocas afetivas e culturais.

A HISTÓRIA

O descobrimento do Brasil em 1500 faz parte do grande ciclo das descobertas portuguesas iniciado em 1415. Nessa época, Portugal tornou-se o país mais empreendedor e ativo da Europa. Destoava do mundo de então pela audácia de alargar as fronteiras marítimas graças aos conhecimentos náuticos portugueses. Lisboa fervilhava de aventureiros, cavaleiros, navegantes, astrônomos e especialistas no astrolábio e no quadrante.

Houve em torno dos sucessos da navegação portuguesa uma conspiração de silêncio. A espionagem dos países concorrentes campeava entre a população à procura de informações a respeito do comércio marítimo português para a Ásia. Pagava-se um bom dinheiro por mapas que fornecessem indicações seguras.

Com as viagens dos descobrimentos, os portugueses tiveram de considerar o regime dos ventos e das correntes no Atlântico. Esse fato implicou, a partir de meados do século XV, na necessidade de realizar uma navegação oceânica longe da costa. Surgia assim a náutica astronômica - isto é, a capacidade de conhecer a posição aproximada dos navios em alto mar.

D. Henrique fez de Sagres um centro de cartografia, navegação e construção naval. Sabia que o desconhecido só poderia ser descoberto se fossem claramente assinaladas as fronteiras do conhecido. Isto significava atirar para o lixo as caricaturas desenhadas por geógrafos cristãos e substituí-las por mapas cautelosos e fragmentados.

O Infante exigiu que seus marinheiros fizessem diários de bordo e cartas precisas e anotassem, pelo uso dos seus sucessores, tudo quanto vissem da costa.

Na expedição de Pedro Álvares Cabral, os relatórios do capitão-mor e dos pilotos enviados com Gaspar Lemos desapareceram ou foram destruídos. Restaram, como testemunhas autênticas da viagem, as cartas de Pero Vaz de Caminha, mantidas em segredo durante muitos anos, e a de Mestre João.

CARAMURU

Personagem exemplar da história dos 500 anos de Brasil, Diogo Álvares Correia - o Caramuru -, viajava em direção às Índias e terminou naufragando na Bahia de Todos os Santos em 1510. Seus companheiros de embarcação foram devorados pelos tupinambás.

Capturado, foi levado para ser devorado festivamente. Paraguaçu, filha do cacique, apaixonou-se por Diogo, que acaba conseguindo se impor ao encontrar pólvora e algumas armas. Ao disparar um tiro, salva sua vida e ganha o apelido de Caramuru, o Filho do Trovão (há uma outra versão para o apelido. Caramuru em tupi é o nome de um peixe que vive entre as pedras, na beira do mar, local onde Diogo foi encontrado). Diogo casa-se com Paraguaçu e torna-se chefe dos tupinambás. Casa-se também com Moema, irmã mais jovem da esposa e passa a ter uma vida de rei. De acordo com a lenda, confirmada pela versão de Santa Rita Durão, o náufrago teria sido recuperado por uma nau francesa e, em companhia de Paraguaçu, ido à corte francesa, partindo posteriormente para Portugal, mas retornando ao Brasil.

Conta-se que Caramuru e Paraguaçu tiveram quatro filhas que se casaram com colonos portugueses.

Quando o primeiro governador-geral Tomé de Sousa chegou à Bahia em 1549, Caramuru ainda vivia, assim como durante o governo de Duarte da Costa. Foi sepultado no mosteiro dos jesuítas em Salvador, ao lado da mulher índia, batizada com o nome de Catarina.

PERFIL DOS PERSONAGENS

Diogo Álvares/Caramuru (Selton Mello) - Artista português ingênuo, tem mania de melhorar a realidade nas telas. É envolvido em roubo de mapas, punido com o degredo e chega ao Brasil. Se encanta com Paraguaçu e sua irmã Moema. Na dúvida, ficou com as duas. Deu um tiro por acaso e entrou para a História.

Paraguaçu (Camila Pitanga) - Dengosa, sensual, livre de preconceitos. Vive como a natureza manda, e só tropeça na vida quando vai a Portugal e tenta subir uma escada.

Moema (Débora Secco) - Irmãzinha mais nova de Paraguaçu, se encanta com o cunhado e é correspondida, fortalecendo ainda mais a harmonia familiar. Pena que não sabia nadar.

Cacique Itaparica (Tonico Pereira) - O chefe dos Tupinambás, pai de Paraguaçu e Moema, pode ser visto como um antecessor de Macunaíma: preguiçoso, malandro, divertido.

Vasco de Atahyde (Luís Mello) - Navegador de origem nobre, morre de inveja da concorrência. É o vilão da história que pune Diogo Álvares com o degredo que se transforma na descoberta da felicidade no novo mundo.

Isabelle (Débora Bloch) - Cortesã francesa, adora roupas, luxo e intrigas palacianas. Acha-se espertíssima e nem lhe passa pela cabeça cheia de adornos que um dia perderá o jogo para uma índia que substitui o verniz europeu por uma esperteza natural cheia de graça.

Heitor (Diogo Villela) - Degredado de carteirinha, sabe tudo sobre a sobrevivência em naus em busca de novas terras. Representa o mochileiro de outros tempos.

Dom Jayme (Pedro Paulo Rangel) - Cartógrafo do rei, prefere não se comprometer, mas acaba se envolvendo na disputa que provocará o degredo de Diogo Álvares.

EQUIPE TÉCNICA

GUEL ARRAES - diretor e co-roteirista - Até o ano 2000, Guel Arraes era visto como um dos grandes renovadores da TV no Brasil. Com o lançamento de O Auto da Compadecida em setembro de 2000, passou a ser também pioneiro na experiência de adaptar um produto da TV para o cinema. A operação, vista por muitos como de alto risco, não podia ter sido mais vitoriosa: com mais de 2 milhões de espectadores, ocupou o primeiro lugar de bilheteria para filme nacional do ano. Além do sucesso de público, O Auto da Compadecida conquistou também o aplauso da crítica e prêmios em quatro categorias no Grande Prêmio Brasil: melhor diretor, ator (Matheus Nachtergaele), lançamento em cinema (Columbia Pictures) e roteiro.

Como criador, autor, produtor e diretor, Guel Arraes esteve à frente de marcos da TV Globo, onde trabalha desde 1981, participando na direção e criação do seriado Armação Ilimitada, do programa TV Pirata, marco do humorismo na TV brasileira, e do Programa Legal, com Regina Casé e Luís Fernando Guimarães.

Em 1993, Guel Arraes deu início ao projeto de dramaturgia especial, voltada para inovadoras adaptações de clássicos da literatura e do teatro, como Memórias de um Sargento de Milícias, O Besouro e a Rosa, O Mambembe, Lisbela e o Prisioneiro, O Auto da Compadecida. Entre as realizações do núcleo de dramaturgia especial, está também Comédia da Vida Privada, inspirados em crônicas de Luís Fernando Veríssimo, e roteiro de Jorge Furtado, João Falcão e Guel Arraes, e os mais recentes sucessos da TV: Brava Gente, A Grande Família e Os Normais.

Caramuru - A Invenção do Brasil, concebido para comemorar os 500 anos do descobrimento, assinala a parceria de dez anos entre Guel Arraes e Jorge Furtado.

Entrevista: Guel Arraes

Como você define o filme Caramuru - A Invenção do Brasil?
Uma comédia romântica histórica narrada em tom de fábula. Embora o encontro de Caramuru e Paraguaçu se baseie em fatos reais, trabalhamos as referências da História com muita liberdade. E surpreendentemente, o filme está mais leve e mais popular do que a minissérie, enquanto devia ser o contrário - era de se esperar um produto para a TV mais leve que para o cinema. A série era um docudrama, mistura de jornalismo com ficção, e a parte mais documental não está no filme, no qual predomina a comédia em torno do triângulo amoroso entre Caramuru, Paraguaçu e sua irmã Moema nos primeiros anos da História do Brasil.

Caramuru repete o percurso de O Auto da Compadecida ao migrar da TV para o cinema. Quais os paralelos entre os dois projetos?
Para levar O Auto da Compadecida para o cinema a gente simplesmente condensou a série da TV de 2h40 para 1h40. Já o filme Caramuru tem um resultado final bem diferente da série. Para fazê-lo nós extraímos do seriado, que era um "docudrama" misturando cenas de ficção e informações históricas, apenas a história de Caramuru e Paraguaçu, eliminando a parte documental. A preocupação deixou de ser comemorar os 500 anos do descobrimento do Brasil para narrar em tom de comédia uma história que tem como pano de fundo aquela época. Como o programa foi exibido durante a semana de comemoração dos 500 anos do descobrimento, as referências históricas e documentais faziam sentido. Tivemos a preocupação de transmitir essas informações de forma leve e atraente, desde a narração do Marco Nanini à criação de cenas de animação, encenações, vinhetas. Na edição para o cinema cheguei a pensar na inclusão de alguma narração, mas consultando várias pessoas envolvidas com o projeto cheguei à conclusão de que o filme deveria se voltar para a história do relacionamento de Caramuru e das índias.

E quanto às opções narrativas entre os dois filmes?
O Auto da Compadecida se baseava em um clássico da literatura brasileira, e procurei ficar o mais próximo possível deste modelo. Eu diria que A Invenção do Brasil, na falta de um termo melhor, é uma obra pop, com as vantagens, desvantagens e imperfeições do gênero.

O Auto fazia uma espécie de reverência à geração anterior através de um grande autor preocupado com a valorização da cultura popular. Invenção estaria mais ligado à minha geração, marcada pela retomada nos anos setenta das teses dos modernistas sobre a cultura brasileira. O projeto representa também dez anos de parceria com Jorge Furtado, e reflete muito da nossa experiência, das nossas discussões ao longo desse tempo. Enquanto O Auto foi inspirado em Ariano Suassuna e aspectos regionalistas, A Invenção teve por base os modernistas, e Macunaíma talvez tenha sido a grande luz para a nossa criação. Não quanto à trama ou o personagem mas em relação ao olhar que lança sobre o Brasil.

Que linhas vocês seguiram nesta criação?
O projeto foi totalmente desenvolvido a quatro mãos com o Jorge Furtado. Quando pensamos em um tema para os 500 anos, passamos a ler dezenas de livros, romances, pesquisas históricas. E o Jorge chamou a atenção para a lenda do Caramuru, e de como a história do Brasil começava com um casal, e que esta seria uma história exemplar. Passamos a desenvolver o roteiro e acho que A Invenção resultou em uma pequena utopia do Brasil justificada pela História. Até 1530, embora também houvesse massacres e matança de índios, a relação de forças entre portugueses e índios era muito diferente. Muitas vezes, três ou quatro portugueses eram colocados no meio de uma tribo, e os dois lados tinham que se entender. Essa situação criou uma espécie de convivência inevitável, às vezes através da força, outras através do entendimento, como no caso de Caramuru.

Como vocês chegaram ao tom de humor e leveza para narrar a história?
Queríamos contar um pouco desta fábula meio à maneira modernista, neo-tropicalista, aplicada às cores, música, elementos de chanchada, que são as principais influências da nossa geração. E esta mistura nos possibilitaria também falar do Brasil de hoje. Não fizemos o épico próprio a essas ocasiões comemorativas, até porque o Brasil permite este humor e fantasia, uma abordagem menos sisuda da História. O filme tem este tom evocativo, para comemorar nossa nacionalidade, nosso sentimento. E escolhemos o tom de comédia romântica, um ar de utopia abordado com leveza e humor para falar desses nossos 500 anos.

Como foi para você inventar o Brasil?
Uma emoção muito particular. O projeto teve muito a ver como o meu reencontro com o Brasil há 20 anos. Vivi muito tempo fora, e fiquei deslumbrando quando voltei. Viajei de Belém ao Rio de carro, de ônibus, encantado com a paisagem, com a beleza das brasileiras e dos brasileiros. Por mais que eu estivesse ligado às coisas do Brasil, talvez pela ditadura, a minha visão do país tenha ficado meio sisuda. Cheguei logo depois da abertura, quando tudo parecia possível. E a história de Caramuru tem um aspecto interessante: ele tem a possibilidade de voltar para a França, mas escolheu viver no Brasil. A sua ligação com o país começou como necessidade e terminou como opção. Nesse sentido, também é uma história exemplar, quase uma bula de como virar brasileiro.

No tratamento da história, houve a preocupação em ser politicamente correto?
Houve a preocupação em sermos evocativos, em comemorar os 500 anos como uma festa para celebrar o nascimento do Brasil. O filme não tem culpa, ele nasce de um sentimento de amor pelo Brasil, de querer gostar de ser brasileiro, o que permite também uma irreverência à História, com respeito mas com criatividade. Muitas informações históricas estão no subtexto, e o conhecimento da época nos permitiu alguns anacronismos: a rigor, o visual de Isabelle deveria ser mais recatado, típico do início do Renascimento, mas optamos por um visual mais arrojado, para mostrar uma mulher à frente do seu tempo. As regras sexuais de nossos índios eram muito diferentes da dos europeus e isso nos inspirou a contar o nascimento do Brasil a partir de um casal com certa liberdade sexual e de relacionamento, e com uma particularidade: este primeiro casal já era um triângulo permitido.

Como vocês chegaram à representação dos índios?
Em A Invenção do Brasil todos os personagens são brasileiros - de Paraguaçu a Caramuru.

Como eu disse, Macunaíma foi um pouco a luz que orientou o projeto, e ele é índio e vira branco e é brasileiro. Por mais que se diga que descendemos de índios, brancos e negros, se colocássemos uma índia para fazer o papel de mocinha em um filme ou seriado de TV, ela seria vista com olhar estrangeiro. Assim, as índias do filme são quase garotas de praia, mas funcionando como índias de época. Já o Caramuru representaria aquele estrangeiro que existe dentro de nós: quando vamos a uma favela, também nos sentimos meio gringos diante de uma escola de samba. As roupas das índias foram resultado de muita pesquisa e só utiliza material natural, como cascas de cocos, resinas, cordas, escamas de peixes, penas. A maquiagem, quase futurista, também foi uma recriação. A maior questão da interpretação da Camila e da Déborah foi definir como falariam. Enquanto a maior parte do elenco usa um português um pouco mais castiço, elas falam um português arrevesado, um "macunaimês", com expressões da Bahia, do Sul, do Nordeste. E essa prosódia deveria ser a mais natural possível.

Como você trabalhou com o elenco?
O mesmo método de O Auto: muita leitura, muito ensaio, muita marcação, como no teatro. Escolhemos atrizes da nova geração para representar o Brasil, enquanto a Europa vem representada por atores mais experientes. O Selton foi a confirmação do que eu já achava em O Auto: além de um comediante de primeira linha, é um grande companheiro de filmagem - ele sabe tudo que interessa ao ator. Pensamos no personagem com cara de anjo - um pouco inspirado no Cândido do Voltaire. A Camila trabalhou muito, estudou o texto com perfeição, sabia as falas de trás prá frente. Ela e Déborah desenvolveram um trabalho de dupla, com uma cumplicidade muito bacana, e embora não sejam parecidas, passaram uma irmandade resultado de uma sintonia muito fina.

Se O Auto foi pioneiro na filmagem de um projeto para TV em película, A Invenção traz o pioneirismo de ter sido filmado em HDTV. Por que você optou por esse processo?
Esta opção talvez tenha sido o nosso maior risco, mas que acabou totalmente revertido a nosso favor. Como o produto tinha dupla linguagem, a princípio pensei em filmar a ficção em 35mm e a parte documental em vídeo. Como essa parte tinha muitos efeitos e utilizava amplo material de arquivo, optei pelo HDTV basicamente por duas razões: economia de custos e pela experiência. Ainda não estava seguro quanto ao resultado técnico final, que acabou revelando uma qualidade perfeita.

E quais as vantagens desta utilização do HDTV?
No Brasil, sem dúvida o HDTV abre uma nova perspectiva na ligação entre cinema e TV. As vantagens são inúmeras, sobretudo para um diretor de TV como eu: o equipamento é mais leve, não há problemas de gastar película, todo o processo é mais fácil e mais rápido. No caso de A Invenção, talvez a grande vantagem tenha sido utilizar toda a experiência técnica da Globo, como o olhar, os técnicos, equipamentos, o padrão de produção. A TV tem artistas, autores, atores, figurinistas, cenógrafos e técnicos que fazem cinema para a TV, mas na hora de filmar em película há uma certa inibição. Embora em O Auto tivéssemos utilizado o máximo do staff da TV, quando se roda em película, uma parte do staff fica alijado. No caso do HDTV não há esta transição, a integração entre TV e cinema é imediata, o controle de todas as etapas é total, dos créditos iniciais à copia final. O produto só vai para o laboratório para ser kinescopado. A meu ver, esta tecnologia pode transformar a Globo no maior estúdio de cinema do país.

JORGE FURTADO - co-roteirista - Gaúcho de Porto Alegre, é nome de referência na realização de curtas no país.

Sócio da Casa de Cinema de Porto Alegre, pólo responsável pela dinamização da produção no estado de reconhecimento nacional, estreou no cinema em 1984 com o curta metragem Temporal, realizado em parceria com José Pedro Goulart.

Dirigiu o segundo curta dois anos depois - O Dia em que Dorival Encarou a Guarda, premiado nos festivais de Gramado, Havana e Huelva. A grande consagração veio em 1989, com Ilha das Flores, novamente premiado em Gramado, e também com o Urso de Prata do Festival de Berlim de 1990 e no festival de Clermont-Ferrand. Seguiram-se ainda os curtas Barbosa (1988), co-dirigido com Ana Luíza Azevedo, melhor curta do Festival de Havana, Esta não é a sua vida (1991) e Ângelo anda sumido (1997). Dirigiu também dois episódios de longas-metragens coletivos: em Os Sete Sacramentos de Canudos, para a TV alemã assinou Extrema-Unção, lançado separadamente com o título de A Matadeira, em 1993. E no longa nacional Felicidade É, dirigia o curta A Estrada.

Diretor e roteirista da TV Globo desde 1989, parceiro de Guel Arraes há dez anos, tem entre seus últimos trabalhos a elogiada adaptação de Luna Caliente.

Entrevista: Jorge Furtado

Foi bom inventar o Brasil?
Foi ótimo. Gostei especialmente da mistura de raças, da praia, longa e variada, e da localização da Amazônia.

Você trabalhou o programa já pensando em exibição na TV e no cinema?
Sim, os enquadramentos e as piadas foram pensados para os dois formatos.

Qual o maior desafio do projeto? Conciliar História com leveza, humor?
O maior desafio do projeto foi mentir descaradamente e contar histórias reais ao mesmo tempo.

Você se preocupou em ser politicamente correto na abordagem da História?
Não. Não existe humor politicamente correto. Mas os fatos descritos são todos documentados pela história, algum há de ser verdadeiro.

Qual a sua opinião sobre o registro de imagem em HDTV?
A melhor possível. A imagem é quase tão boa quanto a do negativo. A produção é mais ágil e os recursos de pós-produção são maiores, mais rápidos e mais baratos.

Qual o método de trabalho com o Guel? Há uma divisão de tarefas?
Nós escrevemos juntos, parte ao vivo, parte por e-mail. Ele dirigiu a ficção e eu os documentários, na versão para TV. A versão para o cinema não tem os documentários, a direção e a montagem são do Guel.

Como você define sua parceria de dez anos com o Guel Arraes?
Curta.

Que aspectos você gostaria de enfatizar em Caramuru - A Invenção do Brasil?
O trabalho dos atores.

DANIEL FILHO - Produtor Associado - Através de uma carreira diversificada como diretor, ator, produtor de cinema e televisão, Daniel Filho tem seu nome ligado a profundas renovações da TV brasileira. Entre suas muitas realizações, destaca-se o estabelecimento de um novo padrão dramatúrgico, artístico e de produção para novelas e seriados na TV Globo, na qual começou a trabalhar em 1966.

Como produtor e diretor independente de TV de 1991 a 1996, Daniel Filho foi o primeiro diretor a filmar um seriado de TV em película (Confissões de Adolescente). De volta à TV Globo, continuou a experiência com A Vida Como Ela É e A Justiceira, que lhe renderam o prêmio de melhor diretor pela Associação Paulista de Críticos de Arte / APCA em 1996 e 1997. Sob sua orientação, a opção pela filmagem em película também foi utilizada nos projetos Mulher, Luna Caliente e O Auto da Compadecida, de Guel Arraes, um marco na relação entre cinema e TV no Brasil, que ao chegar aos cinemas se transformou no primeiro filme brasileiro a cruzar a barreira dos 2 milhões de espectadores em dez anos.

Como diretor artístico da Globo Filmes, da qual foi um dos fundadores, e da Central Globo de Criação, Daniel Filho é um grande defensor e entusiasta de novas experiências no setor audiovisual. Associou-se como produtor a seis filmes produzidos pela Globo Filmes - Orfeu, Simão, o Fantasma Trapalhão, Zoando na TV, O Trapalhão e a Luz Azul e O Auto da Compadecida.

Daniel Filho conta também seis longas-metragens como diretor: Pobre Príncipe Encantado (1968), O Impossível Acontece (1969), A Cama ao Alcance de Todos (1969), O Casal (1975), O Cangaceiro Trapalhão (1983). Em 2001 voltou à direção cinematográfica com A Partilha, um dos grandes sucessos do ano, com mais de 1 milhão de espectadores.

Em Caramuru - A Invenção do Brasil, Daniel Filho associa mais uma vez seu nome a um projeto inovador: filmagens realizadas em HDTV e a transferência para o cinema.

Entrevista: Daniel Filho

Que paralelos você faz entre a chegada de O Auto da Compadecida e Caramuru - A Invenção do Brasil ao cinema?
Guel Arraes por si só já seria um bom paralelo. O Guel é um diretor com um
humor e ritmo difícil de encontrar no nosso cinema. O publico brasileiro está com vontade de se divertir no cinema. E o Guel trata de assuntos "sérios", com um humor único. Em Caramuru - A Invenção do Brasil a história é verdadeira, mas é claro que não da forma que está narrada. Mas, ali estão todos os princípios que nortearão o Brasil desde sua invenção.

Você foi pioneiro na utilização da película na filmagem de um seriado de TV em película, e Caramuru - A Invenção do Brasil foi filmada em HDTV. Como você decide sobre o uso de um suporte - vídeo, película ou HDTV - para um determinado produto? Neste caso, quais as vantagens do uso de HDTV?
Devo dizer que não fui pioneiro no uso da película - O Patrulheiro Rodoviário, por exemplo, dirigido por Vitor Lima, com Jardel Filho e Cláudio Cavalcante, utilizou o processo no inicio da TV Globo. Eu fui o primeiro a dirigir um seriado em película - Confissões de Adolescente. Na minha opinião, produtos nobres, minisséries e seriados deviam ser feitos num suporte mais estável. A TV, em seu ritmo diário, é produzida em tape. Acho que deveria haver um diferencial, e mesmo que o publico não identifique o suporte, ele percebe uma qualidade melhor da imagem. Por isso, utilizei a película não só em Confissões de Adolescente, mas também em A Vida Como Ela É, Mulher, Justiceira, O Auto da Compadecida, etc. Isso acontece no mundo, por que não aconteceria no Brasil? Quanto ao HDTV, seu custo é inferior ao do filme. Mas acho que para a exibição na TV, após a finalização, o produto deve ser transferido para filme, pois se exibido no formato digital não haveria diferença na qualidade da imagem.

webc3934.jpg (25239 bytes)Você ficou satisfeito com a imagem em HDTV?
O trabalho da Central Globo de Engenharia é pioneiro no Brasil. Este é o primeiro filme brasileiro com este sistema e foi feito ao mesmo tempo que George Lucas realizava o seu último Star Wars em HDTV. Nós também temos alguns efeitos, e é claro que não há comparação. Mas, temos um naufrágio que é um desafio, que os técnicos da CGE, enfrentaram brilhantemente. Eu estou satisfeito, mas o publico é a ultima palavra. Tenho certeza de que não notarão a diferença.

Na sua opinião esta tecnologia de ponta pode representar uma nova etapa na relação cinema e TV no Brasil?
Sem dúvida - é a possibilidade de fazer filme no Brasil. E como estas tecnologias se aprimoram rapidamente, o custo deverá cair ainda mais e ficar mais dentro da nossa realidade. E podemos sonhar com produções mais complicadas. Os filmes hoje, nos Estados Unidos são escaneados para obter um melhor acabamento. O processo custa US$400.000. Traffic e muitos outros filmes utilizaram o processo para atingir um melhor tratamento da fotografia. O HDTV já está neste processo.

Depois de O Auto da Compadecida e A Invenção do Brasil, pode-se esperar outras transferências de projetos de TV para o cinema? Quais?
Sem dúvida, o filme sobre Cazuza ( Só as Mães são Felizes) será feito neste sistema, por exemplo.

LIA RENHA - Direção de arte - Profissional de grande experiência, Lia Renha é formada em arquitetura e fez curso de extensão em cenografia na Escola de Artes Visuais do Parque Laje, onde foi aluna de Carlos Ripper e Marcos Flaksman.

Entre seus trabalhos de cenografia para teatro estão Odeio Hamlet, Algemas do Ódio e O Homem da Pizza.
Na TV Globo, realizou a cenografia de episódios da Comédia da Vida Privada e também da série Brasil Especial inspirada apenas em autores brasileiros, e A Muralha.

Entre seus filmes como diretora de arte estão Dedé Mamata, de Dodô Brandão, três parcerias com Cacá Diegues - Um Trem Para as Estrelas, Dias Melhores Virão e Tieta do Agreste - e O Auto da Compadecida, de Guel Arraes.

Qual o conceito da direção de arte que você adotou para Caramuru - A Invenção do Brasil?
Nosso ponto de partida já estava no título - A Invenção do Brasil - e, a partir daí, o trabalho foi o de lidar, basicamente, com os desafios de uma recriação. As referências históricas não só estavam muito distantes como revelavam sobretudo o olhar do português sobre o país, e que já era também uma recriação que se manifestava através da pintura, de desenhos. É só pegar os trabalhos de Rugendas, por exemplo, na qual os índios apareciam cercados de macacos, onças, tigres, indicando claramente que já se tratava da interpretação de um Brasil recriado. Há desenhos e pinturas de época, o que não significa que os pintores estiveram aqui, mas que pintaram segundo o relato de alguém que esteve no Brasil, voltou e contou o que viu.

E como essa visão se traduziu na direção de arte?
O desenho dos figurinos seguiu esse linha de invenção, de recriação. Não tivemos a preocupação de passar a fidelidade histórica, e sim as muitas visões das pessoa que vinham ao Brasil e que ao voltarem a Portugal relatavam sobre a nova terra com seus exageros, a ponto de existir muita pintura de época retratando brasileiros com rostos europeus. Trabalhamos no sentido de transformar a chegada ao Brasil no paraíso, criando uma locação com interferências através de muitas flores, frutos, vegetação abundante. A locação já era naturalmente fértil, e quisemos enfatizar ainda mais colocando mais material.

E para a criação de figurinos?
A fonte foi pensar como as pessoas que viveram naquele paraíso se vestiriam - onde buscariam, de onde tirariam os elementos para seu cotidiano. A resposta só poderia ser uma - na própria natureza. As roupas de Paraguaçu e Moema, por exemplo, utilizam cascas de árvores, resinas, cordas, escamas de peixe, penas, e eventualmente, uma ou outra coisa artificial. Mas mesmo quando as duas irmãs vestem uma roupa de folhas artificiais, essa recriação imita o real. Os modelos não eram arbitrários, mas seguiam formas encontradas na natureza - flores, conchas, mar, vegetação, bichos. Esse trabalho foi desenvolvido com o figurinista Cao Albuquerque, e depois a direção de arte costurava os elementos, criando brincos e anéis em forma de besouro, por exemplo. Já as roupas européias eram bem elaboradas, pesadas, como a armadura de lata de Vasco de Athayde. Isabelle vestiu 12 figurinos diferentes, e aparecia também com uma caravela na cabeça, indicando que as roupas não eram totalmente realistas e que não obedeciam a um rigor histórico, mas a um princípio histórico, trabalhado com leveza e imaginação.

E quanto aos cenários europeus?
Se aqui era o paraíso natural de cores e vegetação, Portugal deveria ser o outro lado da moeda do paraíso - com castelos, muros de pedra, ambientes suntuosos, sem a presença da cor verde ou da natureza. A concepção desses ambientes também seguiu a linha da recriação para acentuar contrastes, diferenças.

CAO ALBUQUERQUE - Figurino - Integrante do núcleo de Guel Arraes, Cao Albuquerque vem dando mostras de sua criatividade ao longo dos anos em várias parcerias com o diretor, entre elas os elogiados figurinos de O Auto da Compadecida. Os desafios para criar os figurinos de Caramuru - A Invenção do Brasil não foram menores, como explica o estilista.

Como você trabalhou a criação de figurinos tão diferentes - na Europa e no Brasil?
De início, senti uma dificuldade muito grande. Para criar as roupas de Portugal havia referências, fontes de pesquisa, dados de realidade para se trabalhar. Já para os figurinos brasileiros, não havia essas fontes. Trabalhamos com uma divisão básica de cores - mais fechadas, e escuras para Portugal, com ênfase também no vermelho, que vinha do pau Brasil, e tons mais coloridos para o chamado "paraíso tropical".

E como você resolveu a roupa dos nativos brasileiros?
Partimos do princípio de que os índios deveriam cobrir os corpos com coisas existentes na natureza - penas, cascas de árvores, escamas de peixe - uma ênfase no aproveitamento de materiais orgânicos. E pensamos que só faltava uma pessoa mais criativa para transformar esses elementos em roupas e adereços. Devo dizer que trabalhamos com uma licença poética muito grande, assumida a partir da concepção do Guel Arraes. E essa liberdade criativa se estendeu à direção de arte, à cenografia e também à maquiagem. A responsável pela maquiagem Marlene Moura inventou novas áreas do rosto para serem maquiadas e também novos elementos, como a utilização de escamas em vez de sombras sobre os olhos.

Houve algum método de trabalho especial na confecção das roupas para Paraguaçu e Moema?
Fizemos os corpos das "meninas" em gesso e depois em fibra, e fomos moldando e testando modelos e materiais sobre esses moldes. Foi um trabalho muito estimulante e às vezes eu me sentia o Glauber Rocha dos figurinos, revisitando uma parte da História de uma forma livre e irreverente, em que o importante era o resultado que imprimisse na tela.

FELIX MONTI - Diretor de Fotografia - Nascido na Argentina, foi fotógrafo de A História Oficial, de Luiz Puenzo, que recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1985. Com o mesmo diretor, filmou Gringo Velho e A Peste. Fotografou também a trilogia de Fernando Solanas - Tangos, o Exílio de Gardel, Sur e A Viagem - e De Amor e De Sombras, dirigido por Betty Kaplan, inspirado em romance de Isabel Allende.
Apesar de ter vivido no Brasil entre 1966 e 1970 trabalhando em propaganda, foi apenas em 1995 que fotografou seu primeiro longa no país: O Quatrilho, de Fábio Barreto, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, seguido de O que é isso, Companheiro?, de Bruno Barreto, indicado para a mesma categoria. Fotografou também Bela Donna, de Fábio Barreto, Eu não conhecia Tururu, de Florinda Bolkan, e A Partilha, de Daniel Filho.

Em Caramuru - A Invenção do Brasil, as filmagens foram realizadas no sistema de alta definição de imagem - o HDTV.

Qual era a sua experiência com HDTV antes de A Invenção do Brasil?
Eu não tinha experiência anterior com HDTV, mas toda a experiência que me faltava o Celso Araújo tinha. Trabalhamos juntos em O Auto da Compadecida e considero aquele período fundamental na minha aproximação com o HDTV.

Qual a sua opinião sobre a utilização do HDTV como suporte?
Um sistema não vale apenas por si mesmo. O que realmente importa é a obra que se vai realizar, e o suporte a ser realizado, seja película ou HDTV. É parte da busca estética de um realizador. No caso de Caramuru - A Invenção do Brasil, acredito que o HDTV foi o suporte ideal.

A parte brasileira do filme apresenta uma grande exuberância de cores, um verdadeiro paraíso tropical. O que você achou do uso do HDTV na captação dessas cores?

A idéia de obter essa diferença entre o sol e a luz do Brasil e a luz européia de Portugal esteve em todas as conversas com Guel e também com a diretora de arte Lia Renha. A resposta técnica do HDTV foi ideal, tanto nas cores brasileiras como nas baixas luzes dos interiores. Se bem que no Brasil queríamos cores e luz, e também uma luz mais baixa em Portugal. A diferença entre o velho e o novo mundo foi buscada não apenas na luz, mas também na geografia: um mundo de grandes aberturas na América frente a um mundo fechado entre muros na Europa.

NELSON FARIA - Direção de Engenharia de Produção

Como você avalia a chegada do sistema de HDTV na criação audiovisual?
O mundo do cinema está em mais uma fase de revolução tecnológica. Após a evolução do cinema mudo para o cinema falado e do preto e branco para o Technicolor, estamos vivendo um momento em que a utilização de câmeras de vídeo de alta definição representa um novo potencial no circuito das produções cinematográficas. Nesta transição para o cinema digital, nos deparamos com conseqüências diversas, resultado de um processo de mudanças no campo cinematográfico, como o barateamento nos custos das produções, e a questão da facilidade na manipulação das imagens.

Quais as conseqüências imediatas desta facilidade de manipulação?
Os cineastas alcançam maior rapidez na análise do material que está sendo gravado, sem a demora natural resultante do processo de revelação da película. E o que se observa cada vez com maior freqüência na produção cinematográfica que utiliza tecnologias digitais é o uso das mais diferentes técnicas produtoras de imagens eletrônicas, o que possibilita hoje assistir a filmes produzidos inteiramente em computador, com imagens eletrônicas diversas, assim como com imagens fotográficas posteriormente digitalizadas. Não existem regras quanto ao uso destas tecnologias - o único limite é a capacidade criativa do cineasta.

Qual a sua opinião sobre a utilização do HDTV em Caramuru - A Invenção do Brasil?
Trata-se da primeira experiência no Brasil de um filme originalmente captado com câmera digital de alta definição, e o resultado certamente irá mostrar o enorme sucesso dessa nova tecnologia, que se apresenta como uma aplicação acessível, de grande rapidez e alto nível técnico. A captação eletrônica apesar de revigorar o cinema como um todo, mantém os princípios básicos da captação fotográfica, na qual o diretor de fotografia exerce seu potencial criativo com a correta preparação do ambiente para a melhor captação da profundidade e dos planos de luz. E um diretor de fotografia que vivencia esta nova realidade digital é um profissional que antes de tudo que enriquece seus objetivos pela maior possibilidade de permuta entre os diferentes suportes de produção e pós-produção, incorporados à sua dinâmica através da agilidade e da manipulação proporcionada pelo processo de digitalização de imagens.

E qual a participação do público neste processo?
No final, os espectadores e o próprio cinema são os grandes beneficiários desta revitalização de sua carga expressiva através de suportes totalmente inovadores, mesmo que mantendo os princípios básicos da captação fotográfica. Assim, um novo cinema começa a surgir, a partir do ocaso do filme sintético.

LENINE - Concepção Musical

Cantor, compositor, arranjador, músico e produtor, Lenine lançou, em parceria com Marcos Suzano, Olho de peixe, que rendeu turnês pela Europa, Estados Unidos e Japão em 1996 e 1997. Pelo primeiro trabalho solo, O dia em que faremos contato, ganhou dois prêmios Sharp - nas categorias revelação e melhor música, A Ponte, em parceria com Lulu Queiroga. Em 99, Lenine lançou Na Pressão, com ótima repercussão de crítica. Foi responsável pela direção musical do espetáculo Cambaio, com letras de Chico Buarque, músicas de Edu Lobo, direção de João Falcão e texto de João e Adriana Falcão. Entre seus últimos trabalhos está a preparação do CD Falange Canibal. Artista representado pela BMG, Lenine compôs mais de 500 músicas, muitas das quais gravadas por grandes artistas de gerações e estilos diferentes, como Maria Bethania, Elba Ramalho, Fernanda Abreu, Ney Matogrosso, Zizi Possi, Tim Maia, Gabriel o Pensador e O Rappa.

Quais as linhas gerais da concepção da trilha de A Invenção do Brasil?
Trabalhar com um dos maiores artesãos de imagens do Brasil de hoje, numa história tão instigante quanto a de A Invenção do Brasil, foi um presente e não um convite de trabalho. Quando nos encontramos pela primeira vez , chegamos à conclusão de que tínhamos pouco tempo para compor e produzir uma trilha original. Sendo assim, decidimos "descobrir" o universo musical de Caramuru e Paraguaçu, garimpando fonogramas existentes, tentando fazer um paralelo da música do Velho Mundo com a do Novo Mundo e buscando, principalmente, similaridades e consonâncias.

Que elementos vocês quis enfatizar na criação da música relativa aos sons brasileiros? E no lado europeu?
Não houve uma preocupação em criar a trilha com algum tipo de instrumentação especifica, estilo ou arranjo. O objetivo sempre foi a contemporaneidade. A unidade foi naturalmente aparecendo durante o desenrolar do trabalho. Na parte da Europa foi intencional a procura por algum Brasil na música de outros países. Foi assim que chegamos a Maria João e Mario Laginha ou aos Fabolous Trobadors, por exemplo. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Houve a intenção de homenagear algum compositor ou gênero musical?
Não. A grande celebração é a procura da beleza. E o resultado final não poderia ter sido de outro modo... com esta equipe da pesada, que gosta e sabe do que faz , foi beleza na veia!

ELENCO

SELTON MELLO - Diogo Álvares / Caramuru - Em 20 anos de carreira, iniciada aos sete anos de idade, Selton Mello vem se dividindo entre a TV, o cinema e o teatro, mostrando grande versatilidade e amplos recursos dramáticos.

Entre seus muitos trabalhos na TV, destacam-se atuações nas novelas Pedra sobre Pedra, Tropicaliente, Força de um Desejo, e nas minisséries Os Maias e O Auto da Compadecida, na qual interpretava Chicó, companheiro de estrada e confusões de João Grilo.

Entre suas peças, estão À Luz da Lua e O Zelador, ambas do autor inglês Harold Pinter, que lhe valeram muitos elogios da crítica, e Esperando Godot, texto de Samuel Beckett, com direção de José Celso Martinez Corrêa.
Sua versatilidade como ator pode também ser comprovada nos filmes O que é isso, companheiro?, de Bruno Barreto, Guerra de Canudos, de Sérgio Rezende, e Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho.
Caramuru - A Invenção do Brasil marca sua segunda parceria com o diretor Guel Arraes.

Como foi voltar a trabalhar com Guel Arraes?
Minha primeira experiência com ele foi em O Auto da Compadecida - uma experiência muito feliz, em todos os sentidos. Com O Auto, Guel foi pioneiro na passagem de um filme da TV para o cinema, e quebrou uma barreira importante entre os dois veículos. Agora, com a chegada de Caramuru - A Invenção do Brasil aos cinemas, acho que ele foi duplamente pioneiro por ter utilizado o sistema de alta definição nas filmagens.

E como funciona a relação diretor/ator?
O que me interessa como ator é encontrar novas possibilidades de textura, de interpretação e de sensibilidade faz a gente crescer como artista, investigar novos caminhos. E o Guel possibilita esse crescimento através de uma direção muito estimulante e também muito ágil. Além disso, me sinto muito à vontade com ele, que sabe muito bem o que quer e já trabalha com o filme que vai montar na cabeça.

Qual foi o maior desafio de interpretar Caramuru, um personagem entre dois mundos, duas culturas?
O maior desafio foi justamente trabalhar essas duas situações. Vejo um pouco o percurso do personagem como a história do homem errado no lugar errado, na hora errada. Em Portugal, ele é enrolado pela Isabelle (Débora Bloch), é punido com degredo, e colocado em um navio rumo ao desconhecido. E na verdade, ele não tinha feito nada - queria apenas, como artista, buscar uma coisa pura, bonita. No começo da história, ele é um sonhador, um pintor de ateliê, vítima de armações dos outros. Quando chega ao Brasil, no entanto, sua história muda e ele vive altas recompensas, tanto no contato com a terra, como com Paraguaçu e Moema. E a história de um estrangeiro que se apaixona pelo Brasil é também a história de muitos estrangeiros que se sentiram tocados pela beleza da terra.

CAMILA PITANGA / Paraguaçu - Desde o começo da carreira, Camila Pitanga vem sendo valorizada como exemplo de beleza da mulher brasileira. Ao longo de seu trabalho, porém, a jovem atriz vem provando que é capaz de somar talento e versatilidade aos dotes naturais. Entre seus papéis na TV destacam-se a minissérie Sex Appeal e as novelas A Próxima Vítima, Pecado Capital, Porto dos Milagres. Em A Invenção do Brasil, interpreta a índia Paraguaçu, que conquista o coração de Diogo Álvares, o Caramuru.

Qual o maior desafio de interpretar a índia Paraguaçu?
Na verdade, não houve só um desafio, mas vários, começando pela própria linguagem da personagem. Quando recebi o texto fiquei surpresa com o ritmo e também com o tipo de fala. Embora as falas tivessem início, meio e fim, eram uma forma de expressão diferente de tudo que eu tinha feito até então.

E como você resolveu essa forma de expressão?
Um dos pontos principais foi o de perceber que não precisava falar como índio fala, até porque o texto não era de uma língua indígena, e sim brincar, estabelecer um jogo com as palavras. Quando percebi isso, foi muito bom, era entrar no jogo de imaginação através de toques do Guel e do contato com os outros atores. E para esse trabalho, foi fundamental ter lido Macunaíma.

Como foi a sua relação com Guel?
Foi duro. Por um lado ele prepara o ator durante o ensaios com muita liberdade, mas também é muito exigente. O processo de filmagem também foi uma surpresa: descontínuo, basicamente take a take, através de pequenos cortes, com um ritmo muito rápido, muito mais rápido que o da TV. Sem dúvida, foi um grande desafio, mas muito enriquecedor.

E quanto aos figurinos?
Eu já admirava o trabalho do Cao de TV Pirata, e acho que a criação dele para Paraguaçu ajudou a dar o tom do personagem, assim como a maquiagem da Marlene Moura. Eram roupas e maquiagem que indicavam que estávamos quebrando com o realismo, e nos permitia brincar com a interpretação.

Como você vê a Paraguaçu?
Acho que ela tem muito da espontaneidade, da criancice, da meiguice e da sensualidade que costuma se atribuir à mulher brasileira.

DÉBORAH SECCO / Moema - Começou a fazer teatro aos 11 anos, e entre suas peças estão Contador de Histórias, Confissões de Adolescente e Lágrimas Amargas de Petra Von Kant. Estreou na TV aos 10 anos, na novela Mico Preto, e entre seus trabalhos destacam-se Confissões de Adolescente,
com direção de Daniel Filho, A Próxima Vítima, O Vira Lata, Era uma Vez, Suave Veneno, Laços de Família e A Padroeira.

Em Caramuru, A Invenção do Brasil, interpreta Moema, a irmã de Paraguaçu que também conquista o coração de Diogo Álvares, formando assim o primeiro triângulo amoroso da história do país.


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