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A Corrente do Bem


webc1185.jpg (24998 bytes)Em A Corrente do Bem, o professor Eugene não espera que sua turma da 7ª série seja diferente da turma do ano passado. Kevin Spacey explica o enredo do filme: "Eugene faz o mesmo discurso para sua turma todos os anos desejando, mas não esperando, que um de seus alunos realmente o leve a sério. Um homem cujas cicatrizes físicas denotam cicatrizes emocionais muito mais profundas. Simonet é um professor apaixonado pelo que faz". O ator continua: "Ele transfere sua esperança aos seus alunos porque não tem esperança para si mesmo. Emocionalmente, ele está totalmente fechado".

A diretora Mimi Leder, que foi muito elogiada internacionalmente pelos filmes épicos de ação Impacto Profundo e O Pacificador, dá mais detalhes: "Há 12 anos que Eugene passa sempre o mesmo trabalho no começo de todos os anos escolares. Os alunos têm que pensar num jeito de mudar nosso mundo e pôr isso em ação. Ele espera, mas não imagina, que isso possa acontecer um dia, que seus alunos realmente levem isso a sério". Mas Trevor Mckinney resolve levar esse trabalho a sério. Mimi Leder observa: "Trevor leva o trabalho a sério porque a sua vida está muito conturbada. Seu pai se foi e ele tem que crescer de uma hora para outra. Ele precisa de alguma esperança em sua vida. E ele a recebe de Eugene.

O pequeno Trevor, de 11 anos, vive num bairro de classe operária de Las Vegas com sua mãe, Arlene. "A mãe de Trevor trabalha muito e tem alguns problemas que a limitam dar atenção ao filho, por isso ele acaba cuidando de si mesmo, na maioria das vezes", explica o jovem Haley Joel Osment, que dá seqüência à sua atuação muito elogiada em O Sexto Sentido. O ator continua: "Ele a ama e quer que ela supere seus problemas, mas Trevor sabe que ela não pode fazer isso sozinha. Se ela pudesse, já teria feito".

Helen Hunt, que ganhou um Oscar de Melhor Atriz por seu trabalho em Melhor É Impossível, faz a mãe de Trevor, Arlene. "Arlene quer ser uma boa mãe para Trevor. Seu amor por ele é o que a ajuda a enfrentar as noites trabalhando como garçonete numa boate de strip tease e, durante os dias, num cassino. Por ele, Arlene está tentando deixar para trás os maus hábitos que a acompanharam durante toda a sua vida. Mas esses hábitos não estão querendo largá-la tão facilmente", descreve a atriz.

Trevor encontra inspiração num lugar muito incomum — sua aula de Estudos Sociais. Haley Joel Osment conta: "Trevor nunca teve um professor como o Sr. Simonet, que não fica apenas de pé na frente da turma e diz, ‘muito bem, turma, abram seus livros na página 1; vamos responder as perguntas de revisão que estão no final’. O Sr. Simonet realmente fala com seu coração para a sua turma. Ele explica realmente o que quer dizer Estudos Sociais — é sobre você e o mundo". Eugene conta à turma de Trevor que é possível uma pessoa mudar o mundo. Osment acrescenta: "Eugene tem um jeito especial de ‘jogar’ alguma coisa para Trevor. O professor tem uma chave para destrancar o que Trevor tem dentro de si. Ele inspira Trevor na ‘corrente do bem’. E isso é algo em que Trevor realmente pode acreditar, algo que ele acha que tornará sua vida melhor".

Osment explica a idéia de Trevor da "corrente do bem": "Fazer por alguém uma coisa que ela não pode fazer por si mesma. Você tem que fazer isso três vezes e as pessoas que você ajudou também têm que fazer três vezes, e aí a coisa vai crescendo. De três para nove, e para 27, e assim por diante".

A diretora Mimi Leder sente que Eugene também vê uma qualidade em Trevor que o ajuda a olhar mais profundamente para dentro de si. Ela diz: "Eugene se vê em Trevor. O professor vê como ele era e o que poderia ter sido quando menino. Eugene é um homem cujas defesas estão totalmente cerradas, mas esse garoto simplesmente as derruba. Trevor não vê suas cicatrizes. Ele apenas o vê como pessoa".

O produtor Steve Reuther observa que um dos primeiros alvos de Trevor são sua mãe, seu professor e, através deles, ele mesmo. Reuther revela: "Trevor está procurando um pai e um lar estável. Uma das três coisas que ele faz para começar a ‘corrente do bem’ é tentar unir sua mãe e Eugene. Assim, ele tenta forçar um relacionamento".

Porém, enquanto Arlene começa a ver a força do plano do seu filho, ela procura Eugene para ajudá-la a compreender Trevor. "Ela fica perplexa com seu filho. Ele virou um jovem introspectivo e pensativo e ela está sempre tão ocupada. Há um lado dele que ela simplesmente não conhece, mas que quer conhecer, e ela quer que Eugene a ajude a compreendê-lo", conta a atriz Helen Hunt. E Kevin Spacey observa: "Com o desenvolver da história, Eugene começa a se permitir a ser mais aberto por causa de Trevor, e também por causa de seus sentimentos pela mãe dele, Arlene. Ele começa a se abrir e a se permitir ser amado".

O produtor Peter Abrams conta a origem do relacionamento entre os três protagonistas: "Eugene e Arlene são duas pessoas cautelosas com relação uma a outra, mas que acabam sendo unidas por esse garotinho. O trabalho de Estudos Sociais de Trevor é o que inicialmente reúne os dois e eles começam tentando conversar sobre esse garoto que nenhum deles compreende bem. O menino quer que eles tentem se entender. Ele está esperando o efeito da ‘corrente do bem’ ao tentar curar o Sr. Simonet e sua mãe".

Mimi Leder e os atores trabalharam juntos para ancorar esses personagens despertados nas duras realidades de suas vidas. A diretora define: "Este filme é uma história de amor mais do que qualquer outra coisa. É uma história de amor forte porque você pode ver a verdadeira dinâmica que une essas duas pessoas. Eles são todos ‘deslocados’, de certa forma, pessoas que mal conseguem se manter firmes, mas que acabam ficando juntas de uma forma que fortifica a todos".

Enquanto Trevor vai em frente com o seu plano, as conseqüências começam a ser sentidas por outros pessoas que fazem parte de sua vida. Trevor dá a um jovem sem-teto (interpretado por Jim Caviezel) um lugar para dormir e para tomar um banho. Isso emociona uma mulher sem-teto mais velha, Grace, vivida na tela pela atriz Angie Dickenson. Ele acaba até atingindo um jovem repórter (papel desempenhado por Jay Mohr), que tenta perseguir aquilo que ele acredita ser a história do século.

Sem que Trevor saiba, a concepção da "corrente do bem" foi iniciada em Las Vegas e está se espalhando pelos Estados Unidos.

Haley Joel Osment ficou atraído pela oportunidade de trabalhar com Spacey e Hunt, como conta: "Adoro vê-los fazendo as cenas. Aprendi muito só de olhar para eles". Como o relacionamento entre Eugene, Arlene e Trevor era a chave para fazer o filme funcionar, a diretora Mimi Leder inspirou-se na relação de Osment com os dois astros vencedores do Oscar. "Ele é realmente um ator incrível e muito honesto, com um conhecimento e maturidade bem maior que sua idade. Ele deu dignidade e honestidade tremendas ao personagem de Trevor. Ele pensa e sente cada palavra que fala", garante a diretora.

O astro do rock e ator Jon Bon Jovi (que recentemente fez U-571 — A Batalha do Atlântico) adorou a oportunidade de se juntar ao elenco de A Corrente do Bem como Ricky, o pai não muito presente de Trevor. Ele afirma: "Eu ia lutar pelo papel só para estar na companhia de Kevin, Helen e Haley, sem falar de Angie Dickinson e todo o resto. Participar deste filme, com esse calibre de atores, foi uma experiência incrível para mim". E seu colega Jay Mohr acrescenta: "O roteiro era ótimo. Fiz o teste para o papel do garoto sem-teto que Trevor tira das ruas. No entanto, alguns dias depois, Mimi ligou e perguntou se eu estava interessado em outro papel. Fiquei igualmente ansioso porque o papel que me deram tinha mais falas. Mas, honestamente, não havia nenhum papel ruim neste filme".

A lendária atriz de vários clássicos do cinema e da famosa série Police Woman, Angie Dickinson adorou a oportunidade de fazer a mendiga bêbada Grace. "Levei muito tempo para finalmente fazer uma personagem nada glamourosa. Fiz vários testes para papéis que eram um pouco angelicais, mas não os consegui. Shirley MacLaine, Faye Dunaway ou Jane Fonda os ganhavam. Mas agora estou mais velha e posso fazer qualquer coisa. É engraçado", diz a atriz.

Da mesma forma que Dickinson queria um papel rico, ela também se viu hesitante no início, como confessa: "Fiquei apreensiva com o papel porque ele pedia que eu me apresentasse de uma forma horrível. Contei ao meu amigo Gregory Peck sobre isso e ele ficou envergonhado de eu achar que poderia não querer fazê-lo. Ele realmente me ajudou a sentir que seria muito bom apenas parecer tão feia e verdadeira ao personagem o quanto possível. Peck estava certo. Este papel é um grande pulo para eu poder fazer todos os bons papéis dramáticos que minha imagem glamourosa impedia". Mimi Leder acrescenta: "Eu a fiz ler o roteiro duas vezes. Sei que ela acha que é porque eu queria ver como ela parecia, mas foi porque era um papel diferente de tudo que ela já havia feito. Ou de qualquer coisa que eu já a vi fazer". E na opinião da diretora, Dickinson se soltou. "Ela mergulhou profundamente. Ela é real e honesta, simplesmente fantástica. Todo mundo neste set está apaixonado por Angie Dickinson", diz Leder.

Quando chegou a hora de definir a locação do filme, a diretora decidiu levar o filme para Las Vegas, como lembra: "Las Vegas foi perfeita em vários sentidos. O roteiro pedia um deserto com todos esses personagens, principalmente a de Helen Hunt, que está no limite. Las Vegas oferecia todos os contrastes que poderíamos imaginar entre a dura realidade do mundo dos nossos personagens e o oásis de fantasia de uma vida perfeita".

Leder tirou todas as vantagens das paisagens de Las Vegas, freqüentemente criando tomadas que acentuavam os contrastes. Quando a equipe de desenho criou uma área de sem-teto nos arredores da cidade, perto de Mandalay Bay Road, onde Trevor conhece Jerry, Leder fez tomadas de forma que o Luxor, em forma de pirâmide, e a parte sul de Las Vegas Strip subissem imponentes no fundo da área coberta de lixo. Da mesma forma, o modesto apartamento de Eugene e a área da casa de Arlene também mostram a brilhante Las Vegas ao fundo, tremulando como uma miragem no deserto.

A Centennial High School foi escolhida para se passar pela escola de Eugene e Trevor devido à sua localização fora da cidade, cerca de 50 quilômetros a Noroeste de Las Vegas, perto de Red Rock. Para Leder e o desenhista de produção Les Dilley, que trabalhou com a diretora em O Pacificador e Impacto Profundo, o relativo afastamento da locação era uma metáfora perfeita para os personagens isolados do filme e os complexos relacionamentos emocionais. Les Dilley descreve a paisagem: "Um estéril jardim de rochas — perto do nada. Calçadas incompletas e estradas que levam a lugar nenhum. Sentimos a sensação de estarmos dependurados, lutando para não cair".

A escola estava funcionando durante as duas semanas de filmagens. Mais de 125 alunos e uma dezena de professores e funcionários da administração trabalharam como figurantes no filme, com o elenco e a equipe cronometrando suas cenas nos corredores e estacionamento entre os intervalos. Centenas de alunos ficavam observando Spacey, Hunt e Osment em cena antes de saírem correndo para suas salas de aula.

Várias locações no centro de Las Vegas também foram utilizadas, incluindo o Royal Motel, no Las Vegas Boulevard, o All American Sports Park, os Oasis Apartments, a Stratosphere, no Strip, bem como o Golden Gate Hotel e Casino e o Union Plaza Hotel e Casino. O elenco e a equipe também filmaram nas ruas ao longo do Glitter Gulch, incluindo o Fremont Experience. O show de luzes a laser à noite aparece ao fundo durante as filmagens de uma cena no restaurante Center Stage, do Union Plaza Hotel, onde Eugene e Arlene têm seu primeiro encontro.

Oliver Stapleton, o diretor de fotografia, conta: "É difícil encontrar um lugar à altura de Las Vegas devido aos seus visuais muito interessantes. Ela supera tudo em termos de cor, confusão e luz. Nós a contrastamos com uma tonalidade de cores cinza-azulado para o apartamento de Eugene, que é claro, mas melancólico, e mostra que ele tem pouca aspiração para iluminar sua vida ou para viver num ambiente que seja confortável. Aí está um homem que foi afastado por tantas pessoas por sua aparência. Ele evita qualquer coisa ofuscante numa tentativa de manter seu lugar comum".

E esse "lugar comum" de Eugene estava em total contraste com o momento em que se encontrava o ator Kevin Spacey durante a produção. Na semana em que começou a fotografia principal em Las Vegas, em fevereiro de 2000, Spacey e seu colega de 11 anos, Haley Joel Osment, se viram sob o foco dos holofotes por terem sido indicados para o Oscar por seus trabalhos anteriores. Spacey, que anteriormente ganhou um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante com Os Suspeitos, foi indicado a Melhor Ator por Beleza Americana, enquanto a interpretação de Osment em O Sexto Sentido rendeu ao jovem artista uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Spacey ganhou seu segundo Oscar e o filme também levou o cobiçado prêmio de Melhor Filme.

Osment, que comemorou seu 12º aniversário no seu último dia de filmagens de A Corrente do Bem, avalia: "O Oscar foi muito divertido, mas desde que começamos a filmar, naquela mesma semana, eu fiquei mais concentrado neste filme. Isso foi bom porque tive alguma coisa a mais para pensar".

No término das filmagens em Las Vegas, a produção foi para Los Angeles. Primeiro foram feitas as cenas na sala de aula de Eugene, no Centennial High School, que tiveram que ser duplicadas no estúdio The Lot (que já foi Warner Hollywood). Enquanto várias cenas eram filmadas numa sala de aula na escola, outras pediam a possibilidade de movimentar paredes e trazer equipamentos que seriam impossíveis em locação.

webc1187.jpg (18410 bytes)Da mesma forma, Dilley também reproduziu o exterior da casa de Arlene em estúdio, mudando a frente de uma casa na esquina da Rua Lailani com a Sunrise Avenue, no subúrbio de Las Vegas. Para a casa da personagem, Dilley e sua equipe simplesmente construíram uma fachada e a filmaram em Las Vegas. Em seguida, ela foi desmanchada, pedaço a pedaço, levada para Los Angeles e reconstruída no The Lot. Dessa vez, entretanto, havia um interior completo, incluindo uma sala totalmente mobiliada, sala de jantar, cozinha, banheiro e dois quartos.

Os realizadores também filmaram em várias outras locações, incluindo Griffith Park, o Campo de Golf Wilson-Harding, o Parque Lunark, em Sylmar, o Centro Médico Glendale Adventists, a antiga prisão Lincoln Heights e a boate Stock Exchange. A abertura do filme, que inclui uma situação de seqüestro durante uma noite escura e chuvosa, foi rodada em Fremmont Place, no Parque Hancock. Essa seqüência mobilizou durante várias noites o elenco e a equipe, que também incluiu uma cena de ação que pedia um acidente entre dois carros debaixo de um aguaceiro forte, criado por máquinas de chuva artificial.

Os realizadores também filmaram em áreas industriais no centro de Los Angeles, bem como ao longo da estrada de ferro MTA, onde um espetacular mural foi pintado e ainda é mantido por um grupo organizado de artistas. A cena noturna, onde a repórter Chris Chandler encontra Grace, é iluminada por uma lareira e enquadrada por um vagão abandonado. Da mesma forma, uma cena importante envolvendo Arlene e Grace foi rodada num acampamento de sem-teto, onde a única luz vinha das fogueiras do acampamento. Em ambos os momentos, Mimi Leder usou a fogueira não apenas para sublinhar a intimidade das cenas, como também para iluminar o impacto dos encontros.

Leder, primeira diretora de fotografia aceita para estudar no programa de cinema do American Film Institute, é conhecida como uma das primeiras e mais técnicas diretoras de Hollywood. Da mesma forma que fez em seus filmes de ação O Pacificador e Impacto Profundo, Leder empregou uma ampla variedade de lentes, suportes, equipamentos de câmera e movimentos de câmera para contar a história. Apesar de A Corrente do Bem estar numa escala mais intimista, ela se aproveitou de seu conhecimento de câmera e do know-how em iluminação para criar cenas interessantes e envolventes. Por exemplo, Chandler persegue o advogado Thorsen (interpretado por Gary Werntz, marido de Leder na vida real) — homem que entrou na "corrente do bem" por sua causa — numa enorme escadaria antes de explicar-lhe o conceito da "corrente". A cena foi rodada no histórico e famoso Ray Bradbury Building. Para esta cena, Leder precisou de uma tomada na qual a câmera os persegue verticalmente e horizontalmente pela longa escadaria. Isso foi feito suspendendo a câmera numa plataforma, que desce junto com os personagens desde o início da tomada até o fim da escada.

A produtora executiva Mary McLaglen elogia: "Mimi é uma cineasta completa. Ela é perita em tomadas e não apenas conhece câmera e iluminação, mas também é maravilhosa com o roteirista e os atores. Ela é aberta para idéias, está sempre calma e é generosa. É simplesmente incrível trabalhar com ela".

O produtor Peter Abrams, cuja companhia, a Tapestry Films, "comprou" o manuscrito não publicado de Catherine Ryan Hyde (que deu origem ao roteiro) poucos dias depois de o ter lido, concorda que Leder é uma cineasta talentosa, sempre à procura do próximo desafio. Abrams atesta: "Não dá para falar todas as maravilhas que Mimi é. Ela está sempre tentando melhorar, se testando, como fazem os grandes diretores. Ela é uma grande líder, que também está aberta para sugestões, o que torna todo o processo mais criativo, emocionante e interessante".


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