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notasprod_1.gif (2071 bytes) Cronicamente Inviável

webci127.jpg (33206 bytes)COMUNIDADE SOLIDÁRIA?

"Cronicamente Inviável", o novo longa-metragem de Sérgio Bianchi transporta o espectador numa implacável viagem de descoberta de um país que se esconde por trás da imagem do paraíso tropical - abençoado por Deus e bonito por natureza - a que está reservado um destino grandioso no futuro.

Um professor inconformista, cuja pesquisa o impele a visitar lugares prováveis (Rio de Janeiro, Bahia) e improváveis (Rondônia), é um dos fios condutores da história em que atuam um migrante do Paraná de origem polonesa, uma gerente de restaurante fino, que também pratica a caridade com os índios, o tráfico de órgãos humanos e o comércio em torno da adoção de crianças recém-nascidas, e um bando de burgueses que se defendem como podem na selva da cidade.

Trata-se de um fábula moral, feita com a serena contemplação dos sábios e a urgente impertinência das crianças, sobre o absurdo da vida brasileira, que engendrou uma sociedade estruturalmente injusta e incompetente. Sérgio Bianchi não precisa do álibi, de que se serviram os moralistas do passado, de deslocar o território da fábula para um país exótico e irreal, dando-lhe no entanto suficientes contornos próximos para cada um reconhecer a si e aos seus. As coisas são ditas sem peias, numa linguagem crua e levemente irônica.

Esse artifício lhe é favorecido pelo tom documental que atravessa a fábula dando-lhe certa unidade de estilo. O teor de documento contribui ainda para acentuar o caráter realista que empresta verossimilhança às situações mais absurdas.

Hipocrisia, auto-engano, submissão, destruição ambiental, hedonismo inconsequente, discriminação social e racial, cinismo, exploração, violência institucional, ingenuidade, corrupção, o inventário das mazelas nacionais aponta o dedo para o espectador e formula a pergunta: De quem é a culpa? Ninguém a assume no plano individual, eximindo-se de qualquer responsabilidade pela mudança do padrão moral e ético vigente. Diz a certa altura uma personagem que confia na própria lucidez: "- No Brasil quem não é trambiqueiro não sobrevive".

O olhar do filme aos excluídos do processo social não é de glorificação, piedade ou indulgência. É da mais singela perplexidade. Mas o julgamento da classe dominante é feroz: sua insensibilidade produziu - e continua alimentando - um monstro social que tudo e a todos devora e avilta, liquidando com a presença até mesmo dos eternos otimistas.

"Cronicamente Inviável" é um tapa na cara de uma sociedade que não foi capaz de assumir seus conflitos e de resolvê-los pela política ou pela ruptura. Como nada evolui, apenas se agrava com a sofisticação dos métodos de dominação, instala-se o mal estar generalizado. E o sentimento de impotência vem acudir os que ainda guardam um resto de dignidade. Nada mais atual num tempo de demissões públicas e escândalos privados.

Carlos Augusto Calil é professor de Cinema da ECA/USP

* Trechos deste artigo foram publicados no caderno Ilustrada do jornal Folha de S.Paulo em 06/05/1999.

SÉRGIO BIANCHI E O CINEMA: UMA TRAJETÓRIA

* 1945 - Nasce, a 25 de Novembro, em Ponta Grossa, Paraná

* 1968 - Começa a participar das atividades cinematográficas de Curitiba, para onde mudara-se no início da década. Integra como ator e assistente de produção a equipe de "Lance Maior", primeiro longa-metragem do cineasta Sylvio Back. Assume a coordenação do setor de cinema do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Paraná e organiza mostra de cinema de animação e uma retrospectiva de Fritz Lang.

* 1969 - Segue para São Paulo. Ingressa na Escola de Comunicação e Artes da USP, a ECA. Faz a assistência de direção de "Compasso de Espera" de Antunes Filho e "Uma Mulher para Sábado" de Maurício Rittner.
* 1970 - É o assistente de direção de "O Jogo da Vida e da Morte" de Mário Kuperman e do curta "Bexiga ano zero" de Regina Jehá.
* 1971 - Como fotógrafo realiza uma exposição individual de suas fotos na Galeria SESC de São Paulo. É também o ano em que participa da montagem (assistente de produção) de "O Rei da Vela" pelo Grupo Oficina. Faz assistência de direção de "O Vendedor de Ilusões", filme de Maurice Capovilla.

* 1972 - Estréia na direção cinematográfica com o curta metragem "Omnibus", baseado em um dos contos de "Bestiário" de Júlio Cortázar. O filme é um dos destaques da mostra especial da categoria no Festival Internacional do filme em Cannes, 1975.

* 1973 - Inicia um período em que dirige comerciais, filmes publicitários e documentários em Curitiba e São Paulo, o que faz até 1976. Ainda em 73, trabalha como fotógrafo e ator na peça "O Casamento do Pequeno Burguês" com o Grupo Pão e Circo.

* 1977 - Dirige "A Segunda Besta", curta metragem também baseado no escritor argentino Júlio Cortázar, adaptação de "Carta a uma Senhorita em Paris", outro conto de "Bestiário".

* 1979 - É o ano de "Maldita Coincidência" seu primeiro longa metragem. Recebido pela crítica como a revelação de um dos talentos menos convencionais e de um dos diretores mais criativos do cinema brasileiro, o filme é logo incluído entre os melhores da década.

* 1982 - A explosão de "Mato Eles?", média metragem, inusitado documentário sobre os conflitos em uma reserva indígena na Paraná.

* 1983 - Dirige o curta "Divina Previdência", veemente crítica à burocracia, retratando as atribulações de um mendigo ferido às voltas com funcionários públicos, documentos e prontuários da Previdência Social. Prêmio de Melhor direção no 12º Festival do Cinema Brasileiro de Gramado em 1984.
* 1984 - Dirige "Entojo", curta em que registra o processo de preservação ecológica do Norte do Estado do Paraná.

* 1988 - Dirige "Romance", longa metragem, sobre os questionamentos éticos, políticos e sexuais desencadeados a partir da morte de um intelectual de esquerda. É a maior repercussão do 21º Festival de Cinema de Brasília, onde recebe os prêmios de Melhor Direção, Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, indicado entre os 10 melhores filmes do ano pela crítica especializada de São Paulo e do Rio de Janeiro e participa de várias mostras e festivais internacionais, como New Director / New Films Festival, do Museu de Arte Morderna de Nova Iorque (1989), o Film Festival de Roterdam (1989), e o 39º Festival Internacional de Cinema de Berlim (1989).

* 1989 - Estréia na direção cênica de ópera com um dos mitos da cultura ocidental, o "Don Giovanni" de Mozart. A montagem é realizada no Teatro Guaíra em Curitiba, com a participação dos cantores Celine Imbert, Adélia Issa, Francisco Frias e Luiz Orefice.

* 1994 - Realiza seu terceiro longa metragem, "A Causa Secreta", baseado em um conto de Machado de Assis, sobre um grupo de teatro que, a pretexto de montar uma peça, pesquisa situações de miséria no país. O filme recebe do 27º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (1994) e os de Melhor Roteiro, melhor Ator Coadjuvante (Rodrigo Santiago), Melhor Atriz Coadjuvante (Cláudia Mello e Ester Góes) da Associação Paulista de Críticos de Arte (1994).

* 2000 - Num ano de muitas comemorações, Sérgio Bianchi conclui "Cronicamente Inviável", longa metragem rodado durante o ano de 1999 em São Paulo , Rio de Janeiro, Bahia, Mato Grosso e Rondônia.


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