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Cronicamente Inviável |
COMUNIDADE
SOLIDÁRIA?
"Cronicamente Inviável", o novo longa-metragem de Sérgio Bianchi transporta o
espectador numa implacável viagem de descoberta de um país que se esconde por trás da
imagem do paraíso tropical - abençoado por Deus e bonito por natureza - a que está
reservado um destino grandioso no futuro.
Um professor inconformista, cuja pesquisa o impele a visitar lugares prováveis (Rio de
Janeiro, Bahia) e improváveis (Rondônia), é um dos fios condutores da história em que
atuam um migrante do Paraná de origem polonesa, uma gerente de restaurante fino, que
também pratica a caridade com os índios, o tráfico de órgãos humanos e o comércio em
torno da adoção de crianças recém-nascidas, e um bando de burgueses que se defendem
como podem na selva da cidade.
Trata-se de um fábula moral, feita com a serena contemplação dos sábios e a urgente
impertinência das crianças, sobre o absurdo da vida brasileira, que engendrou uma
sociedade estruturalmente injusta e incompetente. Sérgio Bianchi não precisa do álibi,
de que se serviram os moralistas do passado, de deslocar o território da fábula para um
país exótico e irreal, dando-lhe no entanto suficientes contornos próximos para cada um
reconhecer a si e aos seus. As coisas são ditas sem peias, numa linguagem crua e
levemente irônica.
Esse artifício lhe é favorecido pelo tom documental que atravessa a fábula dando-lhe
certa unidade de estilo. O teor de documento contribui ainda para acentuar o caráter
realista que empresta verossimilhança às situações mais absurdas.
Hipocrisia, auto-engano, submissão, destruição ambiental, hedonismo inconsequente,
discriminação social e racial, cinismo, exploração, violência institucional,
ingenuidade, corrupção, o inventário das mazelas nacionais aponta o dedo para o
espectador e formula a pergunta: De quem é a culpa? Ninguém a assume no plano
individual, eximindo-se de qualquer responsabilidade pela mudança do padrão moral e
ético vigente. Diz a certa altura uma personagem que confia na própria lucidez: "-
No Brasil quem não é trambiqueiro não sobrevive".
O olhar do filme aos excluídos do processo social não é de glorificação, piedade ou
indulgência. É da mais singela perplexidade. Mas o julgamento da classe dominante é
feroz: sua insensibilidade produziu - e continua alimentando - um monstro social que tudo
e a todos devora e avilta, liquidando com a presença até mesmo dos eternos otimistas.
"Cronicamente Inviável" é um tapa na cara de uma sociedade que não foi capaz
de assumir seus conflitos e de resolvê-los pela política ou pela ruptura. Como nada
evolui, apenas se agrava com a sofisticação dos métodos de dominação, instala-se o
mal estar generalizado. E o sentimento de impotência vem acudir os que ainda guardam um
resto de dignidade. Nada mais atual num tempo de demissões públicas e escândalos
privados.
Carlos Augusto Calil é professor de Cinema da ECA/USP
* Trechos deste artigo foram publicados no caderno Ilustrada do jornal Folha de S.Paulo em
06/05/1999.
SÉRGIO BIANCHI E O CINEMA: UMA TRAJETÓRIA
* 1945 - Nasce, a 25 de Novembro, em Ponta Grossa, Paraná
* 1968 - Começa a participar das atividades cinematográficas de Curitiba, para onde
mudara-se no início da década. Integra como ator e assistente de produção a equipe de
"Lance Maior", primeiro longa-metragem do cineasta Sylvio Back. Assume a
coordenação do setor de cinema do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e
Cultura do Estado do Paraná e organiza mostra de cinema de animação e uma retrospectiva
de Fritz Lang.
* 1969 - Segue para São Paulo. Ingressa na Escola de Comunicação e Artes da USP, a ECA.
Faz a assistência de direção de "Compasso de Espera" de Antunes Filho e
"Uma Mulher para Sábado" de Maurício Rittner.
* 1970 - É o assistente de direção de "O Jogo da Vida e da Morte" de Mário
Kuperman e do curta "Bexiga ano zero" de Regina Jehá.
* 1971 - Como fotógrafo realiza uma exposição individual de suas fotos na Galeria SESC
de São Paulo. É também o ano em que participa da montagem (assistente de produção) de
"O Rei da Vela" pelo Grupo Oficina. Faz assistência de direção de "O
Vendedor de Ilusões", filme de Maurice Capovilla.
* 1972 - Estréia na direção cinematográfica com o curta metragem "Omnibus",
baseado em um dos contos de "Bestiário" de Júlio Cortázar. O filme é um dos
destaques da mostra especial da categoria no Festival Internacional do filme em Cannes,
1975.
* 1973 - Inicia um período em que dirige comerciais, filmes publicitários e
documentários em Curitiba e São Paulo, o que faz até 1976. Ainda em 73, trabalha como
fotógrafo e ator na peça "O Casamento do Pequeno Burguês" com o Grupo Pão e
Circo.
* 1977 - Dirige "A Segunda Besta", curta metragem também baseado no escritor
argentino Júlio Cortázar, adaptação de "Carta a uma Senhorita em Paris",
outro conto de "Bestiário".
* 1979 - É o ano de "Maldita Coincidência" seu primeiro longa metragem.
Recebido pela crítica como a revelação de um dos talentos menos convencionais e de um
dos diretores mais criativos do cinema brasileiro, o filme é logo incluído entre os
melhores da década.
* 1982 - A explosão de "Mato Eles?", média metragem, inusitado documentário
sobre os conflitos em uma reserva indígena na Paraná.
* 1983 - Dirige o curta "Divina Previdência", veemente crítica à burocracia,
retratando as atribulações de um mendigo ferido às voltas com funcionários públicos,
documentos e prontuários da Previdência Social. Prêmio de Melhor direção no 12º
Festival do Cinema Brasileiro de Gramado em 1984.
* 1984 - Dirige "Entojo", curta em que registra o processo de preservação
ecológica do Norte do Estado do Paraná.
* 1988 - Dirige "Romance", longa metragem, sobre os questionamentos éticos,
políticos e sexuais desencadeados a partir da morte de um intelectual de esquerda. É a
maior repercussão do 21º Festival de Cinema de Brasília, onde recebe os prêmios de
Melhor Direção, Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, indicado entre os 10 melhores
filmes do ano pela crítica especializada de São Paulo e do Rio de Janeiro e participa de
várias mostras e festivais internacionais, como New Director / New Films Festival, do
Museu de Arte Morderna de Nova Iorque (1989), o Film Festival de Roterdam (1989), e o 39º
Festival Internacional de Cinema de Berlim (1989).
* 1989 - Estréia na direção cênica de ópera com um dos mitos da cultura ocidental, o
"Don Giovanni" de Mozart. A montagem é realizada no Teatro Guaíra em Curitiba,
com a participação dos cantores Celine Imbert, Adélia Issa, Francisco Frias e Luiz
Orefice.
* 1994 - Realiza seu terceiro longa metragem, "A Causa Secreta", baseado em um
conto de Machado de Assis, sobre um grupo de teatro que, a pretexto de montar uma peça,
pesquisa situações de miséria no país. O filme recebe do 27º Festival de Brasília do
Cinema Brasileiro (1994) e os de Melhor Roteiro, melhor Ator Coadjuvante (Rodrigo
Santiago), Melhor Atriz Coadjuvante (Cláudia Mello e Ester Góes) da Associação
Paulista de Críticos de Arte (1994).
* 2000 - Num ano de muitas comemorações, Sérgio Bianchi conclui "Cronicamente
Inviável", longa metragem rodado durante o ano de 1999 em São Paulo , Rio de
Janeiro, Bahia, Mato Grosso e Rondônia.
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