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Hedwig - Rock, Amor e Traição |
Não há dúvida de que John Cameron
Mitchell e Stephen Trask, os autores do mais criativo musical que Nova Iorque já viu,
tinham um desafio em suas mãos. A montagem de "Hedwig - Rock, Amor e Traição"
no circuito off-Broadway foi um estrondoso sucesso, aclamada por público e crítica. Esta
peça de teatro original e inovadora tinha deixado no público um "gostinho de quero
mais". E "mais" acabou significando a gravação de um cd, bem como o
desejo de diversos estúdios de transformar a peça num filme.
Os caminhos de John Cameron Mitchell e Stephen Trask se cruzaram pela primeira vez ao
pegarem um mesmo vôo. Conversaram a respeito de suas carreiras, a de John no teatro e a
de Stephen na música, e de como um admirava o meio em que o outro atuava. Após o
primeiro encontro, começaram a passar algum tempo juntos e logo perceberam que tinham um
sonho em comum. "Tudo aconteceu do mesmo jeito que, dizem, costumam se formar as
bandas, com a diferença de que estávamos preparando uma peça de teatro. Íamos à casa
um do outro, éramos duas pessoas com interesses em comum, falando sobre as coisas de que
gostávamos e, em seguida, iniciando um projeto e incentivando um ao outro", descreve
Trask.
Dessa parceria nasceu a personagem Hedwig. John escreveu os monólogos e estrelou a peça
no papel da protagonista, enquanto Stephen compôs as músicas e as letras e interpretou o
líder da banda, Skszp. O grupo de Stephen, o Cheater, juntou-se a eles e "Hedwig -
Rock, Amor e Traição" estreou em Nova Iorque numa festa de punk rock chamada
Squeezebox, no clube noturno Don Hill, no Soho. A peça agradou tanto que logo foi preciso
encontrar um lugar maior.
Quando John e Stephen transferiram a montagem para um teatro do circuito off-Broadway,
localizado no West Village, a peça imediatamente se tornou a sensação da temporada.
Celebridades compareciam aos bandos. Eles se apresentaram no famoso programa de TV
"Late Night with David Letterman", no "The Rosie O'Donell Show" e na
MTV, apareceram na capa da Time Out New York, e tiveram destaque nas revistas Time,
Rolling Stone e Spin. John e Stephen receberam convites para se apresentar em diversas
partes do mundo. O musical já foi apresentado em Los Angeles, Seattle, Boston, Kansas
City, Colônia, Londres, e já está programado para estrear em São Francisco, Toronto e
Berlim.
O pessoal da produtora Killer Films ficou imediatamente impressionado com o espetáculo. A
produtora Katie Roumel lembra que: "a companhia inteira foi assistir ao espetáculo e
todos ficamos empolgados, pois era maravilhoso. Muitos dos diálogos, assim como as
piadas, tinham duplo sentido ou faziam referência a algo e a performance de John era
comovente. Era muito divertido, mas tocante e inteligente ao mesmo tempo".
A produtora Christine Vachon, que criou a Killer Films juntamente com Pamela Koffler e
produziu filmes de sucesso inspirados na cultura pop, como "Um Tiro para Andy
Warhol", "A Salvo" e "Velvet Goldmine", acreditava que
"Hedwig - Rock, Amor e Traição" tinha de ser adaptado para o cinema. "Vi
o potencial da história. Afinal, o que é um grande filme senão uma boa história bem
contada? Achei que havia uma carga dramática que poderia ser até melhor aproveitada na
linguagem do cinema do que no teatro", declara Vachon.
A Killer Films, que produziu "Felicidade", de Todd Solondz, e o filme ganhador
de um Oscar "Meninos Não Choram", de Kimberley Peirce, é conhecida por apostar
em novos diretores, bem como em material propenso a controvérsias. "Foi emocionante
trabalhar com alguém que está dirigindo um filme pela primeira vez. A inexperiência
pode ser sinônimo de desconhecimento de limitações. Se você sabe quais são os
problemas que podem surgir, sabe o que temer, não está aberto da mesma forma que alguém
que adentra um território desconhecido. Acredito que a Killer Films sabe bem como apoiar
um diretor, emprestando sua experiência sem, contudo, limitar sua visão", afirma a
produtora Pamela Koffler.
Ninguém na Killer Films tinha dúvidas quanto ao fato de John Mitchell ser a pessoa certa
para dirigir o filme. Segundo Koffler: "Era óbvio que John era o tipo de diretor
estreante ideal para que nós produzíssemos. Ele criou a personagem, conhecia a história
profundamente e estava bem preparado. Seria uma experiência de estréia na direção
perfeita sob diversos pontos de vista". E Vachon concorda: "John é Hedwig,
conhece intimamente a personagem e o texto e não havia dúvidas de que daria um grande
diretor".
De acordo com John Mitchell, a Killer Films e "Hedwig - Rock, Amor e Traição"
formavam a parceria perfeita. "A Killer produziu alguns dos filmes mais interessantes
da última década. A equipe trabalha unida; eles pensam da mesma forma que eu, não
perdem tempo com bobagens, pois não há tempo nem dinheiro a perder", diz Mitchell.
A inspiração para "Hedwig - Rock, Amor e Traição" surgiu espontaneamente da
parceria de Mitchell e Trask. Mitchell esclarece: "Eu estava entediado fazendo uma
participação especial numa série de televisão e pensava em escrever uma peça
incorporando o rock. Tinha algumas imagens autobiográficas, alguns personagens e um mito
de Platão. Aí então conheci Stephen, um compositor incrível. A partir do mito ele
compôs ´The Origin of Love`".
A peça teve uma inesperada reviravolta quando Trask incentivou Mitchell a desenvolver um
personagem que era inspirado numa mulher do passado deste. "Lembro-me dela como a
babá do meu irmão menor. Era alemã e tinha se divorciado de um soldado americano. Fez
amizade comigo e com minha amiga Brenda quando tínhamos quatorze anos e vivíamos no
Kansas. Fomos ao trailer dela e a divertimos com performances para músicas como
'Copacabana' e 'Lying Eyes' e ela ria e nos dava cerveja", recorda-se, rindo. Ela
saía com muitos homens e eu não entendia por que era tão popular. Anos depois, Brenda
explicou que ela era uma prostituta.
Quando Mitchell contou a história a Trask, este sugeriu que a babá fosse transformada
numa cantora de casas noturnas, uma aspirante a estrela de rock frustrada, que havia se
apresentado com um cantor quando ele era ainda um adolescente. Começaram a fazer
laboratório para o personagem num clube de drag queens em que Trask fazia a direção
musical, e ela logo se tornou um hit.
Muito embora "Hedwig - Rock, Amor e Traição" não seja autobiográfica, tem
muito de seus diretores. "Nós nos mudávamos quase todo ano quando eu era pequeno.
Meu pai era militar e uma vez foi enviado para Berlim. Eu tinha uma sensação de
deslocamento e desorientação, como se estivesse sempre numa turnê. 'Hedwig' é uma
espécie de alívio para essa sensação de não ter raízes em lugar nenhum. Além disso,
posso curtir rock e me vestir de drag por um tempo. Eu nunca tinha me fantasiado de drag
antes de Hedwig", diz Mitchell, sorrindo.
Trask também viu suas experiências como músico ganharem vida em "Hedwig".
"O lado de músico lutando pelo sucesso que se vê em Hedwig vem de mim. A forma como
ela sempre se volta para o rock 'n roll como inspiração quando as coisas vão mal,
aquele músico triste e batalhador que acredita na música e segue adiante", afirma
Trask.
Mitchell já havia visualizado Hedwig no cinema. "Quando comecei a redigir a peça,
na verdade achava que era mais adequada para a linguagem cinematográfica. Havia piadas ou
cenas que tinha em mente e eu pensava ´Puxa, seria tão mais fácil se pudéssemos
mostrar uma imagem, pois sabe-se que uma imagem vale por mil palavras`", confessa
Mitchell.
Ele se dá conta hoje de que o desafio de traduzir as imagens em texto para a montagem
teatral acabou se mostrando importante na hora de redigir o roteiro. "Transformar
imagens em palavras me fez aperfeiçoar a escrita. Trabalhei no texto durante anos,
aprimorando-o, mas agora também posso voltar às imagens originais que trago na memória
e lentamente ir inserindo as vozes", ele declara. E explica: "A peça tinha o
formato de uma apresentação de rock, e o filme o de uma turnê de rock. Então, a
estrutura do filme é a banda excursionando misturada a flashbacks".
O filme retrata o que na peça podia ser apenas sugerido, incluindo personagens como a
entusiasmada empresária da banda Phyllis Stein e o jovem astro do rock Tommy Gnosis.
"As alegrias da performance ao vivo no teatro não poderão ser reproduzidas no
filme, por outro lado, o filme mostra o que a montagem teatral jamais poderia",
resume Mitchell.
Quando se trata de rotular "Hedwig - Rock, Amor e Traição" no típico jargão
hollywoodiano, as pessoas envolvidas ficam confusas. "É sempre difícil explicar. É
um drama de ação? É uma comédia romântica? Um thriller cômico? Não há como definir
e exatamente por isso tem mais valor para mim e para as pessoas que gostam de
'Hedwig'", diz Mitchell. Todavia, quando pressionado, Mitchell diz que às vezes
pensa em classificá-lo como "um musical de rock pós-punk neo-glam." Ou, mais
precisamente, "um personagem que parte em busca da descoberta de quem ele/ela é e o
que isso significa... sim, acho que odisséia é a melhor palavra que contém a melhor
definição", admite Mitchell, por fim.
Mitchell e Trask acreditavam ser fundamental manter o elemento de música ao vivo da
peça. "Stephen e eu concordamos que se músicas de punk rock fossem dubladas num
filme o público não se envolveria. Dá para perceber logo que não é de verdade. Em
filmes como 'Nashville' e outros filmes de Robert Altman em que se tem personagens
cantando ao vivo tende a haver um maior envolvimento, pois não há uma barreira entre o
intérprete e o público", comenta Mitchell.
Assim como na peça, as canções no filme são veículos através dos quais Hedwig revela
como se tornou quem é. "Os monólogos ampliam o significado das letras", atesta
Trask. Para transpor as músicas para a tela, Trask regravou a trilha com algumas novas
canções. Reuniu uma banda que incluía o conhecido roqueiro alternativo Bob Mould
(Husker Du; Sugar) e Theodore Liscinski tocando baixo, com Perry James na bateria.
"É ótimo poder regravar um cd, pois pode-se consertar o que não tinha ficado bom
na primeira versão. Queria muito produzir as músicas de Hedwig de modo a captar por
completo a sensação da apresentação ao vivo, que é emocionante e um verdadeiro
espetáculo", declara Trask. Os vocais foram gravados ao vivo no set de filmagem para
garantir essa sensação. Novas músicas e uma trilha instrumental também foram gravadas
por Trask.
Com a Killer Films dando suporte, Mitchell podia se concentrar na escalação do elenco.
"Os produtores e executivos do estúdio deram todo o apoio. Não se tratava de
escalar estrelas, pois o que importava eram os personagens, a história, as músicas de
Stephen", afirma Mitchell.
Contando com o apoio da Killer Filmes, Mitchell e Trask puderam convidar atores que haviam
participado da produção para o teatro e outros novos. Quando chegaram ao momento de
escolher o ator que interpretaria o complexo papel de Yitzhak, o marido de Hedwig que quer
ser uma drag queen, ficou claro para ambos que Miriam Shor era a única escolha possível.
"Ela fez o teste para o papel e vimos logo que tinha de ser ela", recorda-se
Mitchell. Trask faz coro com ele: "Ela é muito talentosa. A intensidade que deu ao
personagem na peça nos fez ver que tínhamos de desenvolvê-lo ainda mais no filme. Ela
é uma jóia".
"A trajetória de Yitzhak é essencial para a de Hedwig em sua busca de se sentir
completa", afirma Mitchell. Sobre sua personagem, declara Shor: "Sou uma
espécie de sombra que segue Hedwig o tempo todo, em sua tentativa de se encontrar, se
amar, basicamente, de se libertar. Pode soar meio 'clichê', mas nada que diga respeito a
Hedwig é ´clichê`".
Uma das coisas mais fantásticas acerca da produção para o teatro de "Hedwig -
Rock, Amor e Traição" foi a reação da platéia, que ficou bastante emocionada.
"Você não acreditaria nas pessoas que iam assistir à peça. Nós víamos um senhor
de setenta e nove anos entrando e dizíamos 'Ele vai sair logo depois do número de
abertura', mas ele não só ficava como aplaudia, chorava e retornava, e nós pensávamos
'Meu Deus, isso é inacreditável!", relata Shor.
Pode parecer estranho que tantas pessoas, incluindo centenas de groupies, que passaram a
ser chamados "Hedheads" (os fãs de "Hedwig - Rock, Amor e Traição")
se identifiquem tão fortemente com a história de um transexual da Alemanha Oriental que
busca sua cara-metade. "O personagem é bizarro e acontecem inúmeras coisas
esquisitas com ele, mas mesmo assim a história é tão humana que as pessoas se
identificam com ela", comenta Trask.
A procura pela cara-metade, pela completude ou pelo contentamento, por uma paz interior e
por aceitação não consiste numa experiência pessoal, ela é universal e pode
emocionar, não importando o sexo, a raça, a religião ou as vivências que se tenha. Ela
ultrapassa fronteiras e obstáculos e pode até construir pontes, é algo com que todos
podemos nos identificar. A busca de Hedwig reflete-se nos personagem Phyllis e Yitzhak,
assim como nos demais integrantes da banda. "Tudo o que Hedwig faz é com o intuito
de se sentir completa, inteira", explica Mitchell. E ele continua: "E acredito
que todos os personagens da banda também sentem que falta alguma coisa em suas vidas: uma
esposa, um amor, um deus, realização profissional. Todos buscam algo e tentam se sentir
pessoas inteiras, inclusive Hedwig, é claro, e Tommy Gnosis. No final, é Tommy que dá a
Hedwig a noção de que ela tem de seguir adiante, de que ela é uma pessoa completa de
uma forma que ela não esperava".
Tanto Miriam Shor, que interpreta Yitzhak, como Theodore Liscinski, que faz o papel do
guitarrista Jacek, participaram da montagem teatral. Para atuar como os demais membros do
grupo, porém, era preciso encontrar artistas que fossem atores e músicos. "Tive
excelentes diretores de casting que encontraram artistas maravilhosos. Rob Campbell e
Michael Aronov, contudo, eram os que combinavam melhor, além de serem os melhores
atores", lembra Mitchel. Era preciso escolher também atores para papéis que não
haviam sido encarnados na peça, mas que fariam parte do filme, como os de Phyllis Stein e
Tommy Gnosis.
Ao pensar em Phyllis, a animada empresária da banda, Mitchell ficou imediatamente
atraído por Andrea Martin: "Ela é uma das minhas heroínas cômicas, é
simplesmente incrível!". Com larga experiência no teatro, Andrea Martin assistiu ao
espetáculo "Hedwig - Rock, Amor e Traição" em Nova Iorque e em Los Angeles,
antes mesmo de ouvir falar no projeto do filme. Ficou fascinada e surpresa por ter se
identificado tanto com Hedwig e com a música de Trask. "Por mais estranha que Hedwig
pareça, há algo nela que toca a todos nós. Muito disso se dá através da música... e
o melhor de tudo é que cada música contém em si uma história", declara Andrea
Martin.
Ao saber que o filme estava em fase de pré-produção e que procuravam alguém para
interpretar o papel de Phyllis Stein, ela imediatamente sentiu que tinha de fazer o teste.
"Alisei o cabelo em Los Angeles e comprei uma calça de couro. Fiquei sem poder
respirar durantes as seis horas que durou o vôo de volta a Nova Iorque, mas não
importava, era pela arte. Já no avião, incorporei a personagem, coloquei a calça de
couro, um top sensual e pensei 'Não vejo a hora de encontrar esses garotos! Venham com a
banda de rock!", exclama Martin. E continua: "Ao chegar lá me transformei e
improvisei com os músicos por duas horas e meia. Quando os rapazes saíram John me
ofereceu o papel".
Quando as filmagens tiveram início, Martin ficou impressionada com a habilidade de
Mitchell para dirigir, bem como por sua atuação. Ela comenta: "Sinceramente, não
consigo imaginar outra pessoa dirigindo o filme. Não vejo nenhuma outra pessoa que fosse
capaz de dar o tom exato. Havia humor, mas se não houvesse autenticidade poderia fugir ao
controle. John não só tem essa noção como ele foi essa pessoa, viveu no universo de
Hedwig por muito tempo. Então acho que dirigir era o caminho natural para ele".
Há também o jovem rapaz a quem Hedwig dá tudo, que lhe vira as costas e a abandona, mas
fica com suas músicas, tornando-se um astro do rock e seu concorrente Tommy Gnosis.
"Esse foi o papel que requereu o maior número de testes. Michael Pitt é Tommy
Gnosis sob diversos aspectos. Sua vivência tem muitos traços semelhantes e ele é muito
talentoso, bonito e querido. Ameacei torná-lo uma estrela com este filme, quer ele queira
quer não", brinca Mitchell.
Pitt, que mora na cidade de Nova Iorque, adorou a peça e conta: "Fiquei louco quando
vi a peça, nunca tinha visto nada parecido". No que se refere a trabalhar com
Mitchell, Pitt é só elogios: "John é gente boa, quero dizer, é bom, verdadeiro,
talentoso, ele é simplesmente sensacional. Não tenho mais palavras, ele é
sensacional".
Trabalhando ao lado deste elenco escolhido a dedo está uma equipe maravilhosa por trás
das câmeras. Estilista de estrelas e uma das mais badaladas figurinistas, Arianne
Phillips juntou-se ao grupo depois que sua amiga, a designer de produção Thérèse
DePrez, a fez ler o roteiro. Phillips foi então assistir a peça dez vezes e se tornou
uma "Hedhead" assumida. Ela derrete-se: "Adoro Hedwig. Adoro a história, a
música e o sentimento encarar a adversidade mantendo-se fiel a si mesmo. Amo tudo que tem
a ver com a história".
A figurinista tinha em suas mãos um desafio. Na peça, Hedwig tinha apenas dois trajes,
no filme precisaria de quarenta e um. Cada um dos quatro membros da banda e a empresária
tinham cerca de dezesseis trocas de roupa. Onde uma estilista encontra inspiração para
criar tantas roupas? Arianne Phillips se inspirou no texto. "Antes de mais nada,
tenho que conseguir entrar em contato com os personagens, e o texto de John Cameron
Mitchell é fantástico, os personagens saltavam do papel", elogia Phillips.
Mitchell deixou claro que o figurino de Hedwig tinha de ser realista. "A regra era
que tudo tinha de ser possível; a atuação tinha de ser verossímil, assim como o design
e a câmera... não se trata de 'Priscila - A Rainha do Deserto' nem de 'Rocky Horror'.
Hedwig é alguém que poderia existir, esta história poderia acontecer. Então Hedwig
tinha de usar roupas que ela poderia comprar. Vinda da Alemanha Oriental, ela meio que
parou nos anos 80, e usa coisas meio ultrapassadas", esclarece Mitchell.
Phillips concorda com John Mitchell. "O desafio era criar algo real, porque há uma
história humana verdadeira por trás do aparente absurdo", diz ela. Em seus
figurinos ela usou de pele de coelho, pedras falsas e macacões multicoloridos a peças de
coleções antigas de designers como Rifat Ozbek e Jean Paul Gaultier. Mas uma das
influências mais presentes no trabalho de Arianne Phillips são as perucas. "Tem um
monte de perucas compondo os visuais, chegamos a fazer um vestido todo de cabelo. É um
vestido-peruca", diverte-se. E acrescenta: "Como se pode ver, John nos deixou
totalmente à vontade para soltarmos a imaginação, por isso foi muito divertido e um
processo criativo ininterrupto".
Para criar o visual de Hedwig juntou-se a Phillips o especialista em perucas e em
maquiagem Mike Potter. "Mike e eu passamos muito tempo juntos antes do filme. Foi a
primeira vez que fiz um filme em que busco inspiração no cabelo e na maquiagem. Meu
trabalho foi uma extensão do de Mike", conta Phillips.
Segundo Mike Potter, que criou mais de trinta perucas para o filme, levar Hedwig para as
telas era a realização de um sonho. "Em 1995, nós usávamos rolos de papel
higiênico enrolado com cabelo", ele conta, rindo, e continua: "Não tínhamos
dinheiro, John me dava vinte dólares e me perguntava se dava para fazer uma peruca. Eu
fazia e ela se desmanchava no palco ou caía de sua cabeça. E de repente lá estava
Hedwig. Posso dizer que aprendi muita coisa nesses anos todos".
Ele se recorda das conversas com Mitchell e Phillips sobre os diferentes visuais que cada
membro da banda deveria ter. "Todos eles representam estilos diversos de rock' n'
roll. O guitarrista Jacek era do punk rock; o baterista Schlatko parece pertencer a um
grupo como o Poison; Skszp era gótico e Krzysztof era meio new wave. E há ainda a
empresária Yitzhak, que tem um visual tipo Guns' N' Roses", explica Potter.
A designer de produção Thérèse DePrez criou o visual de filmes
elogiados pela crítica como "Felicidade" e "Um Tiro para Andy
Warhol". Amiga de longa data de Mitchell, foi uma das primeiras a ser convocada.
Assim como Phillips, DePrez é assumidamente uma "Hedhead", tendo assistido à
peça nada menos que sete vezes. E é também uma grande fã de musicais. "Sempre fui
obcecada por musicais, especialmente os de rock como 'Jesus Cristo Superstar' e 'Tommy'. E
'Hedwig - Rock, Amor e Traição' é tão bem escrito, único, é simplesmente o
melhor", declara DePrez.
Para realizar este trabalho, DePrez exercitou toda a sua criatividade: projetou um
restaurante para se fazer passar por cinco, transformou um deprimente trailer num palco de
rock, criou parte do Muro de Berlim, bem como um apertado apartamento na Alemanha
Oriental. O maior estímulo para ela, contudo, era poder trabalhar com Mitchell. "É
fantástico trabalhar com John, ele é muito calmo no set e ao lidar com a equipe. Nos
dirigiu muito bem", brinca a designer.
Mitchell é o primeiro a dizer que no mundo do cinema ele e Trask são dois privilegiados.
Não apenas reuniram colaboradores que gostavam tanto de Hedwig quanto eles, como também
puderam se manter fiéis à sua visão do projeto a cada passo. Ele comenta: "Foi
muito divertido e muito difícil ao mesmo tempo, mas conseguimos fazer tudo do nosso
jeito, o que é bem raro. Não fomos obrigados a escalar determinado ator ou a checar cada
decisão ligada à criação com o pessoal do orçamento. Havia uma relação de
confiança e realmente me senti privilegiado".
Na verdade, não havia outra maneira de se realizar o filme. Ninguém conhece Hedwig
melhor que John Cameron Mitchell e nem as músicas tão bem quanto Stephen Trask. Neste
empreendimento criativo, não poderia haver duas caras-metades melhores do que Mitchell e
Trask para se unir e levar às telas do cinema esta indescritível odisséia musical punk
rock neo-glam.
SOBRE O ELENCO
John Cameron Mitchell (Hedwig/Diretor/Roteirista) - Mitchell estreou
como Hedwig, personagem criado por ele e por Stephen Trask, em Nova Iorque, num local
chamado Squeezebox, um bar de drag queens. Depois de alguns anos, "Hedwig - Rock,
Amor e Traição" foi montada no circuito off-Broadway, sendo aclamada pela crítica,
assim como a atuação de Mitchell, que recebeu os prêmios OBIE Award, New York Magazine
Award, Drama League Award e Outer Critics Circle Award for Outstanding Off-Broadway
Musical.
John Cameron Mitchell não era, então, um novato no teatro, nem tampouco em premiações,
já que havia recebido vários prêmios por suas performances em espetáculos teatrais.
Ele ainda adaptou e dirigiu Kingdom of Earth, de Tenessee Williams, para o New York`s
Drama Department Theatre Company, companhia teatral da qual foi um dos fundadores.
Stephen Trask (Skszp/Compositor) - Trask faz sua estréia no
cinema com este filme, no papel de Skszp. Ele era um dos membros originais do famoso
Squeezebox de Nova Iorque, onde cuidava da direção musical, e onde se apresentou
juntamente com Debbie Harry, Lene Lovitch, Hole, Green Day, Joey Ramone, além de várias
drag queens.
Durante cinco anos Trask fez apresentações com sua banda Cheater, que originou o The
Angry Inch na montagem off-Broadway e tocou as músicas na gravação original.
Entre os anos de 1993 e 1998, Trask se apresentou em espetáculos de dança com a The
Corner Store Dance Company.
Por seu trabalho em "Hedwig - Rock, Amor e Traição" recebeu diversos prêmios:
um OBIE Award, The Outer Critics Circle Award for Outstanding off-Broadway Musical, um New
York Magazine Award em 1998, indicações ao Drama Desk por Outstanding Music, Outstanding
Lyrics e Outstanding New Musical, uma indicação ao Grammy por Best Score for Film or
Stage.
Atualmente, encontra-se produzindo um cd para o grupo de rock Nancy Boy.
Andrea Martin (Phyllis Stein) - Martin iniciou sua carreira em
Toronto, no Canadá. Estrelou a bem-sucedida série de TV "SCTV", que lhe rendeu
dois Emmy de Best Writing for a Comedy Series, bem como um Emmy de Melhor Atriz. Também
já foi agraciada com três indicações ao prêmio American Comedy na categoria Melhor
Atriz num Especial, por diversas participações em especiais de TV a cabo, incluindo o
seu próprio, "Andrea Martin, Together Again", que também ganhou uma
indicação ao prêmio CableAce. Atuou em inúmeras outras séries de televisão.
Uma veterana dos palcos, recebeu um Tony, um prêmio Drama Desk e um Theatre World Award
por seu desempenho em "My Favorite Year". Seu show solo "Nude, Nude,
Totally Nude", apresentado em Nova Iorque, Montreal, Toronto e Los Angeles lhe deu
uma indicação ao prêmio Drama Desk. Recentemente, atuou na famosa peça "Os
Monólogos da Vagina", com Alanis Morrissette e Shirley Knight.
A atriz emprestou sua voz para personagens de desenhos animados, como "Os
Simpsons", "Anastasia", "Os Anjinhos", dentre outros.
No cinema, acaba de filmar "All Over the Guy", e pode ser vista nos filmes
"Mera Coincidência", "Bogus - Meu Amigo Secreto", "Stepping Out
- O Despertar do Sucesso", "Os Loucos Casais da Califórnia", "Clube
Paraíso" e "Cannibal Girls", tendo recebido por este último o prêmio que
considera ser o mais importante de sua carreira, o de Melhor Atriz do International Horror
Film Festival.
Rob Campbell (Krzysztof) - Respeitado ator de teatro de Nova
Iorque, participou de filmes como "Meninos não Choram", estrelado por Hilary
Swank e Chloe Sevigny, "As Bruxas de Salem", com Daniel Day Lewis e Winona
Ryder, "Ethan Frome - Um Amor para Sempre", "As Estrelas de
Henrietta", "Os Imperdoáveis", "Snow Days" e "The
Photographer".
Na televisão, além de filmes, estrelou algumas séries e fez participações especiais
em séries como "Sex and the City".
Michael Aronov (Schlatko) - A maior parte de sua carreira foi
desenvolvida no teatro. Seus créditos no cinema incluem "Delicious Love",
"Drifting" e "Construindo um Cara Certinho", com John Malkovich.
Recentemente, fez participações em seriados de sucesso como "Spin City" e
"Law and Order: SVU".
Theodore Liscinski (Jacek) - O filme "Hedwig - Rock, Amor e
Traição" marca sua estréia no cinema. Liscinski havia atuado no papel de Krzysztof
na montagem teatral.
Natural de New Jersey, durante seis anos fez parte do grupo Mars Need Women, excursionando
com a banda, que gravou um cd em 1996, pela Warner Bros. Records. Desfeito o grupo, partiu
para Nova Iorque em busca da fama.
Michael Pitt (Tommy Gnosis) - Tendo feito sua estréia como ator
nos palcos, Pitt participou de filmes como "Encontrando Forrester", de Gus Van
Sant, "Entrando na Maior Fria" e "Chulettas".
Na televisão, participou dos seriados de sucesso "Lei e Ordem" e "Dawson`s
Creek".
Alberta Watson (Mãe de Hansel) - Na televisão, Watson é a
personagem Madeline da famosa série cult "La Femme Nikita".
Na tela grande, ela participou de dois filmes classificados entre os Melhores Filmes
Independentes da década de 90 pela Entertainment Weekly, "Spanking the Monkey"
e "O Doce Amanhã".
Em breve, Alberta Watson poderá ser vista em três filmes ainda inéditos,
"Tart", com Melanie Griffiths, "Deeply", com Kirsten Dunst e Lynn
Redgrave, e "Desire", com Graham Greene e Zachary Bennett.
Entre seus créditos estão "Hackers - Piratas de Computador", com Angelina
Jolie e Jonny Lee Miller, "Life Before This", "The Girl Next Door" e
"Shoemaker".
A atriz também atuou em filmes exibidos na televisão, bem como em seriados como
"Lei e Ordem".
Maurice Dean Wint (Luther) - O ator esteve em filmes como
"Cubo", filme de estréia de Vincenzo Natali, "Rude", de Clement Virgo
e "Charm".
Na televisão, participou de alguns filmes, bem como de algumas séries, tais como
"PSI Factor" e "The Outer Limits".
Participou, ainda, de inúmeras montagens teatrais, tendo recebido uma indicação ao Dora
Award.
SOBRE OS REALIZADORES
John Cameron Mitchel (Roteirista/Diretor) - V. "Sobre o
elenco".
Stephen Trask (Compositor) - V. "Sobre o elenco".
Christine Vachon (Produtora) - Vachon produziu o controvertido
filme de Todd Haines "Poison", que ganhou o Grand Jury Prize do Festival de
Sundance em 1991, assim como também o primeiro filme de Tom Kalin, "Swoon".
Seus créditos incluem "A Salvo", com Julianne Moore, "Postcards from
America", "Stonewall" e "Um Tiro para Andy Warhol".
No ano de 1996, Vachon e Pamela Koffler se uniram para formar a Killer Films, e desde
então a companhia produziu uma série de filmes de sucesso, como é o caso de
"Meninos Não Choram", estrelado por Hilary Swank, que arrebatou um Oscar e um
Globo de Ouro por sua atuação, e por Chloe Sevigny, que recebeu uma indicação ao Globo
de Ouro, bem como uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.
Dentre os filmes produzidos pela Killer Films, pode-se citar "Velvet Goldmine",
com Ewan McGregor e Christian Bale, e "Felicidade", com Lara Flynn Boyle,
ganhador do prestiado prêmio Fipresci Critics no Festival de Cannes, em 1998.
Em 1994, Vachon recebeu um Frameline Award por Outstanding Achievement in Lesbian and Gay
Media e, em 1996, o prestigiado Muse Award por Outstanding Vision and Achievement do New
York Women in Film and Television. Mais recentemente, em 1999, ganhou um Gotham Award do
IFP como produtora.
Pamela Koffler (Produtora) - Co-presidente da Killer Films desde
a sua formação em 1996, os primeiros projetos do selo Killer Films que produziu foram
"Mente Paranóica", de Cindy Sherman, com Jeanne Tripplehorn e Molly Ringwald, e
"Divididos pela Morte", de Bruce Wagner, com Rosanna Arquette e Andrew McCarthy.
Mais recentemente, produziu "Crime + Punishment in Suburbia", de Rob Schmidt.
Koffler foi responsável pela produção executiva de "Meninos Não Choram", e
de "Velvet Goldmine", que deu ao diretor Todd Haines um Special Jury Award for
Artistic Contribution no Festival de Cannes.
Katie Roumel (Produtora) - Atualmente, Roumel coordena as
produções da Killer Films e acaba de produzir "Series 7", de Daniel Minahan.
Desde que se juntou à Killer, a empresa produziu filmes como "Crime + Punishment in
Suburbia" e "Meninos Não Choram".
Katie Roumel conheceu Christine Vachon e Pamela Koffler quando trabalhava como assistente
de casting do filme "Kids".
Frank DeMarco (Diretor de fotografia) - Seus créditos incluem
"Sunburn", de Nelson Hume, filme ganhador do Audience Award no International
Film Fleadh, em Nova Iorque, no ano passado, e do segundo lugar na categoria Best First
Feature do Galway International Film Festival, em 1999. Também cuidou da fotografia de
"Bury the Evidence", de Greg Di Felice, que arrebatou o Best Cinematography
Award no No Dance Film Festival. DeMarco recebeu uma indicação ao Independent Spirit
Award de 1998, na categoria Best Cinematography.
Ao longo de sua carreira, DeMarco filmou uma série de documentários premiados,
comerciais e videoclipes. Recebeu um Emmy pela série da PBS "Innovation" e um
Telly Award pela campanha do Daily News, "No More Schmutz".
Thérèse DePrez (Designer de produção) - DePrez cuidou do
visual de alguns dos mais badalados e controvertidos filmes independentes dos últimos
cinco anos. Já havia trabalhado com Christine Vachon, da Killer Films, em seis filmes,
dentre eles "Um Tiro para Andy Warhol" e "Felicidade".
Entre seus créditos estão "Alta Fidelidade", com John Cusak, "O Verão de
Sam", de Spike Lee, com Mira Sorvino, "O Suspeito da Rua Arlington",
"Uma Chance para Ser Feliz", "A Chave da Liberdade" e "Vivendo no
Abandono".
Por seu trabalho em "Indo Até o Fim", recebeu um Special Jury Award for
Production Design no Festival de Sundance, em 1997, um prêmio de Best Art Direction do
Gijon International Film Festival por "Um Tiro para Andy Warhol", em 1998, bem
como um prêmio na categoria Outstanding Achievement for Production Design, do Theater
Crafts International, no ano de 1996.
Arianne Phillips (Figurinista) - Reconhecida como uma das
melhores em sua área, já vestiu muitas estrelas de Hollywood, podendo-se citar Angelina
Jolie e Winona Ryder, em "Garota Interrompida", Mira Sorvino em "Assassinos
Substitutos", Courtney Love, Woody Harrelson e Edward Norton em "O Povo Contra
Larry Flynt".
Phillips é atualmente a personal stylist de Madonna e Courtney Love. Iniciou sua carreira
cuidando do figurino de videoclipes, tendo trabalhado com Madonna, Lenny Kravitz,
Aerosmith, Garbage, Smashing Pumpkins, R.E.M., INXS, Iggy Pop e muitos outros.
Mike Potter (Maquiagem/perucas) - Potter criou o visual de
Hedwig em 1995, trabalhando juntamente com John Cameron Mitchell para criar a maquiagem e
os peculiares penteados da personagem, exibidos em todas as apresentações da peça em
Nova Iorque, Los Angeles, Boston e Londres.
Andrew Marcus (Editor) - Marcus foi o editor e o diretor de
segunda unidade de "Psicopata Americano", estrelado por Christian Bale e William
Dafoe, bem como de "Retorno a Howards End", com Vanessa Redgrave e Helena Bonham
Carter, "Os Amores de Picasso", com Anthony Hopkins, "Frankenstein de Mary
Shelley", com Robert DeNiro, "Muito Barulho por Nada", com Emma Thompson e
Denzel Washington e muitos outros.
Emily Hubley (Seqüências de animação) - Hubley faz filmes de
animação desde 1980, tendo recebido um Fellowship do New Jersey State Council on the
Arts em 2000.
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