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Lara |
Há quase 30 anos Odete Lara se afastou dos palcos,
telas, holofotes e do mundo em que vivia. A chamada Deusa Loura do cinema
brasileiro - então no auge de sua carreira - decidiu trocar a agitação
vazia do star system, que a angustiava, pela tranqüilidade de uma vida
contemplativa, inspirada nos ensinamentos do budismo, nas montanhas do
Estado do Rio.
Ao longo destas últimas décadas, o mito Odete Lara manteve-se
praticamente inalterado, alimentado por suas muitas e sempre relembradas
histórias (verdadeiras ou inventadas), seus livros, a reprise dos filmes
que protagonizou e reaparições esporádicas.
Odete Lara foi muito mais que um símbolo sexual. E que símbolo sexual
ela foi! Muito mais que um corpo escultural que incendiava o imaginário
nacional, Odete Lara foi uma atriz de enorme talento que transitou com
desenvoltura e competência pelo teatro, televisão, música e cinema.
Tornou-se musa inspiradora dos grandes autores e diretores do teatro e do
cinema, num momento único em que a cultura e a produção artística
nacional conheceram, em meados do século passado, um desenvolvimento sem
paralelos.
Em Lara, Ana Maria Magalhães coloca Odete Lara novamente na tela. Mas
desta vez, o brilho da estrela tem uma cor diferente. É ela quem está
retratada na tela. É sua intensa, rica e tumultuada história que os
fotogramas vão mostrando com três atrizes representando a estrela nas
diferentes fases de sua vida.
Num dos períodos mais conturbados de nossa história, tendo a cultura
nacional, o desenvolvimentismo e a luta contra a repressão política como
paisagem de fundo, Lara lança um olhar sensível e amoroso sobre a vida
desesperada e sofrida da lindíssima filha de imigrantes italianos,
nascida em São Paulo, que teve de superar muitos traumas, entre eles o
suicídio dos pais, voltar as costas para a fama e o sucesso para
finalmente encontrar o que sempre almejou. A paz.
O Brasil de Odete Lara
Odete Lara fez 21 anos no início dos anos 50, no momento em que o Brasil
iniciava um acelerado processo de industrialização, modernização e
transformações sociais que iriam mudar a cara do país. O país deixava
de ser predominantemente rural e se urbanizava. A eleição do mineiro
Juscelino Kubistchek como presidente abriu novas perspectivas. A
implantação da indústria automobilística, além de criar milhares de
novos empregos, contribuiu para a formação de um operariado moderno e
reivindicativo. A transferência da capital do Rio para Brasília
revitalizou o centro do país criando novas oportunidades.
Todas essas transformações tiveram uma profunda repercussão na vida
cultural. A chegada da televisão criou novos hábitos de lazer, consumo e
possibilitou aos brasileiros ampliar sua visão do mundo através de um
maior acesso a informações. O cinema passou por um inédito processo de
revitalização com a criação, em São Paulo, da Companhia
Cinematográfica Vera Cruz, uma ambiciosa tentativa de implantar no país
uma moderna indústria cinematográfica baseada no sistema de estúdios
roliudiano, mas com mão de obra especializada trazida da Europa.
Técnicos notáveis de 25 nacionalidades diferentes chegaram a trabalhar
em São Bernardo, sede da Vera Cruz.
O reconhecimento internacional do trabalho da Vera Cruz veio em 1953,
quando O Cangaceiro, de Lima Barreto, ganhou a Palma de Ouro no Festival
de Cannes. Para muitos especialistas, O Cangaceiro abriu um novo e rico
caminho para o cinema popular que iria servir de referência para Glauber
Rocha.
Mas a revolução cultural não parou por aí. Industriais paulistas
financiaram a abertura do Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MASP, e a
criação do Teatro Brasileiro de Comédia. Eleito presidente, JK assumiu
o poder em 1955. O Brasil viveu então um período de democracia plena. O
Cinema Novo e a Bossa Nova explodiram não apenas no país, mas também no
exterior. A arquitetura e o paisagismo brasileiros conheceram um período
de grandes conquistas. Com o projeto e a construção de Brasília, Oscar
Niemeyer, Lucio Costa e Burle Max ganharam a admiração mundial. A
efervescência cultural atingiu também as artes plásticas e a
literatura. O movimento estudantil se organizou e implantou em todo o
país e surgiu o Centro Popular de Cultura (CPC), embrião onde se
desenvolveriam muitos talentos que iriam marcar a história desta
geração.
Um político populista, Jânio Quadros, foi eleito para suceder JK. Antes
de completar um ano no poder Jânio renunciou, deixando o país mergulhado
numa grave crise. Os militares resistiram em aceitar que o
vice-presidente, João Goulart, o Jango, fosse empossado no lugar de
Jânio, como determinava a Constituição. Uma solução emergencial - o
parlamentarismo - foi encontrada, mas posteriormente um plebiscito popular
devolveu plenos poderes a Jango. Inconformados, os militares não
respeitaram a vontade do povo e derrubaram Jango, em 1964, com um golpe
militar. Durante 21 anos o país viveria um período sombrio, submetido a
uma ditadura militar.
Odete Lara
Odete nasceu no dia 17 de abril de 1929, no bairro da Bela Vista, em São
Paulo, filha única de imigrantes do norte da Itália. Seu pai, Giuseppe
Bertoluzzi, era originário de Belluno. Sua mãe, Virgínia Righi, cometeu
suicídio quando Odete tinha apenas seis anos. A menina foi então
internada num orfanato de freiras e depois levada para a casa da madrinha.
Odete se apegou fortemente ao pai, seu único referencial afetivo. Mas
vitimado por uma tuberculose, Giuseppe foi obrigado a ficar afastado da
filha. Agravando ainda mais o drama familiar, Giuseppe também se matou
quando Odete tinha 18 anos, deixando a filha sozinha, desamparada e
desesperada. Nesta época, Odete já trabalhava para se manter. Seu
primeiro emprego foi como secretária e datilógrafa.
Incentivada por uma amiga, Odete fez um curso de modelo no Museu de Arte
Moderna de São Paulo e participou do primeiro desfile da história da
moda brasileira realizado no próprio MASP. A beleza de Odete deslumbrou o
poderoso Pietro Maria Bardi, fundador e diretor do MASP, que a indicou
para a então recém-inaugurada TV-Tupi de Assis Chateaubriand. As portas
da televisão se abriram para Odete. Começou trabalhando como
garota-propaganda, mas logo seu talento atraiu as atenções e ela foi
chamada a participar de uma versão televisiva de Luz de Gás, com Tônia
Carrero e Paulo Autran. Ele fez ainda Branca Neve e os sete anões, onde
interpretou a Rainha Má.
A partir daí sua carreira deslanchou. Ela se tornou estrela do Programa
de Vanguarda, uma das maiores atrações da TV-Tupi. Na TV participou de
novelas de sucesso como As bruxas, A volta de Beto Rockefeller e Em busca
da felicidade. Era inevitável: a beleza e o talento de Odete acabaram a
levando para os palcos do teatro e sua estréia se deu em grande estilo.
Ela foi contratada pelo mais importante grupo teatral em atividade no
país, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e estreou na peça Santa
Marta Fabril S/A dirigida pelo grande Adolfo Celi.
O próximo passo só poderia mesmo ser o cinema. Abílio Pereira de
Almeida, autor de Santa Marta, a convidou para participar de seu primeiro
filme, O gato de madame, ao lado de Mazzaropi.
O talento de Odete extrapolava televisão, teatro e cinema. No horizonte
surgiu um novo campo de atividade: a música. Ao lado de Vinicius de
Moraes, ela estreou como cantora no show Skindô, que foi registrado em
disco.
Televisão, teatro, cinema e música. O talento múltiplo de Odete Lara
passeia com brilhantismo por diversos tipos de manifestação artística.
Sua beleza conquistou um número crescente de admiradores e logo ela
atingiu o status de grande estrela. No teatro, depois de sua estréia no
TBC, atuou nos grandes sucessos do Teatro Maria Della Costa como Moral em
concordata, que confirmou a dimensão de todo o seu talento, A casa de
Bernarda Alba, Rosa Tatuada, Hora da Fantasia e Casal 20. Odete iria
protagonizar ainda outras peças importantes que marcaram a história do
teatro brasileiro como Society em baby doll, Liberdade, Liberdade e Se
correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Na música, além do show Skindô com Vinicius de Moraes, ela faria ainda
Eles e Ela com Sérgio Mendes, Meu refrão, com Chico Buarque e Quem samba
fica, com Sidnei Miller. A trajetória musical de Odete Lara ficaria
perpetuada em dois discos: Vinicius e Odete e Contrastes.
Odete Lara atuou em 32 filmes ao longo de sua carreira. Trabalhou em obras
que se tornaram clássicos e foi dirigida pelos maiores nomes do cinema
brasileiro, entre eles, Glauber Rocha, Cacá Diegues, Nelson Pereira dos
Santos, Bruno Barreto, Antonio Carlos Fontoura, Walter Hugo Khoury, Carlos
Hugo Cristensen, Carlos Manga, Alberto Salvá e David Neves. Ela se tornou
a musa maior do Cinema Novo.
Se profissionalmente a vida de Odete Lara foi marcada por sucessos e
aplausos, sua história pessoal é uma sucessão de tumultos, desencontros
e fracassos amorosos que a colocaram à beira do precipício. No auge da
maturidade e do sucesso profissional decidiu abandonar tudo. Converteu-se
ao budismo e partiu para um auto-exílio num sítio nas montanhas do Rio
de Janeiro. Publicou três livros autobiográficos, Eu nua, Minha jornada
interior e Meus passos na busca da paz, além de traduzir várias obras
sobre o budismo.
Raramente Odete Lara deixa o seu refúgio. Somente em ocasiões especiais.
Ela fez algumas participações especiais em novelas da Globo como Pátria
minha e O dono do mundo. Fora disso, costuma participar de palestras,
cursos e encontros budistas e esporadicamente viaja para o exterior para
retiros e prática de meditação, sempre a serviço do budismo.
Realizadores
Ana Maria Magalhães (Diretora) - Ana Maria Magalhães, 52 anos, nasceu no
Rio de Janeiro. Seu primeiro trabalho de atriz no cinema foi um pequeno
papel num filme francês quando tinha 15 anos. Logo em seguida foi estudar
teatro no Conservatório Nacional. Nos dois anos seguintes trabalhou em
vários filmes, entre eles Garota de Ipanema, de Leon Hirszman, participou
de laboratórios de teatro e estreou profissionalmente no Grupo Oficina,
um dos mais importantes e revolucionários grupos teatrais do país.
Em 1970 foi protagonista de Como era gostoso o meu francês, de Nelson
Pereira dos Santos, um clássico do cinema brasileiro. Ana Maria atuou em
25 longas-metragens, tendo trabalhado com os mais importantes diretores
brasileiros. Ao longo dos anos 70, entre outros filmes, atuou em Quando o
carnaval chegar, de Cacá Diegues, Lúcio Flávio, o passageiro da agonia,
de Hector Babenco, A idade da Terra, de Glauber Rocha, Uirá - Um índio
em busca de Deus, de Gustavo Dahl, Paranóia, de Antônio Calmon e Os sete
gatinhos, de Neville d'Almeida.
Neste período participou também de algumas novelas na Rede Globo de
Televisão, entre elas o mega-sucesso Gabriela, inspirada no livro de
Jorge Amado e dirigida por Walter Avancini, e Saramandaia, de Dias Gomes.
Participou também nos especiais Sarapalha, de Guimarães Rosa, dirigido
por Roberto Santos e Quincas Berro d'Água, de Jorge Amado.
No início dos anos 80, logo depois de realizar um média em 16mm, dirigiu
um documentário sobre Leila Diniz que se tornou o primeiro vídeo com
produção independente a ser exibido pela televisão brasileira.
A visão inovadora que Ana Maria Magalhães imprimiu aos curtas que
dirigiu contribuiu para a renovação do gênero e o sucesso obtido
contribuiu para despertar a curiosidade do mercado externo para a
produção nacional. Entre seus trabalhos no gênero destacam-se O bebê,
exibido com bastante sucesso na Europa e no Brasil, e Les enfants de la
samba (Mangueira do Amanhã), exibido no Canal Plus de Paris e premiado
com Menção Honrosa (Margarida de Prata) pela Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB).
Final call, um dos capítulos do longa Erotique, uma co-produção
americana, chinesa, alemã e brasileira, foi seu último trabalho antes de
Lara.
Ana Maria recebeu vários prêmios como atriz: entre eles o de revelação
de atriz da Associação Paulista dos Críticos de Arte (1972), Melhor
atriz do Festival de Cinema de Gramado (1975) e Premio Especial do Júri
do Festival de Gramado (1980). Como diretora foi premiada na Jornada de
Curta Metragem de Salvador com o melhor filme experimental com Assaltaram
a gramática (84), melhor direção no I Festival Nacional de Caxambu (84)
com Assaltaram a gramática, melhor direção no II Festival Nacional de
Caxambu (85) com Spray Jet, prêmio do Conselho Nacional dos Direitos da
Mulher (87) com o vídeo Já que ninguém me tira pra dançar, prêmio
especial do júri do Festival de Brasília com O bebê e Margarida de
Prata da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) com Mangueira
do Amanhã
Entrevista Ana Maria Magalhães
Como surgiu o projeto de filmar a vida de Odete Lara?
Eu li a autobiografia de Odete em 1975, quando foi lançada, e fiquei
muito impressionada. Eu me identifiquei muito com ela como mulher e atriz,
com a trajetória e o sofrimento dela. Através de Odete descobri que não
era apenas eu que sofria e que existiam pessoas que sofriam mais do que
eu. Ele se expunha muito no livro. Fiquei deslumbrada, mas aquilo ficou
contido no meu inconsciente. Passaram-se muitos anos, eu tive um acidente
muito sério, quase morri. Eu tinha nesta época o projeto de fazer uma
comédia, mas mudei. Decidi que tinha de fazer um filme sobre a
ressurreição. Um dia depois de ter me recuperado fui jantar com o
Antônio Calmon, um grande e querido amigo, e ele foi incisivo:
"você tem que fazer Odete", disse.
Você achou no acidente que iria morrer?
Eu fui atropelada na calçada. Foi muito grave. Eu achei que iria morrer
pelos sintomas: um clarão e uma retrospectiva muito rápida de toda a
minha vida. Me lembrei do Livro tibetano dos mortos que tinha lido com 19
anos, por coincidência um presente do Calmon. Eu me lembrei de duas
recomendações básicas do livro: não ter medo e se desprender
totalmente dos seres que você deixa na Terra. Eu tenho três filhos e
dois estavam comigo. O que fazer? Eu me disse que não podia ter medo e
não tive. Aí pensei nas crianças e lembrei que tinha de me desprender e
disse para Deus: "tudo bem, a partir de agora você vai cuidar porque
eu já estou indo". Quando pensei isto acordei no meio daquela
confusão toda. Meu objetivo passou a ser chegar no Miguel Couto com as
crianças. Este acidente me deixou seis meses de cama, me fez repensar
muitas coisas, redimensionar a vida e muitos valores. Mudou muita coisa.
Inclusive o projeto do filme.
A comédia foi esquecida?
Me parecia que tudo que eu havia passado tinha muito a ver com a leitura
do livro da Odete. A coincidência é que na manhã seguinte do jantar com
o Calmon encontrei com Odete num banco. Eu não a via tinha mais de dez
anos. Conversei com ela sobre o filme. Ela ficou meio assustada, achou
interessante, mas certamente não acreditou que o filme iria sair. Nesta
época eu estava começando a produção do Erotique e achava que seria um
bom exercício para fazer um longa depois. Eu expliquei que só iria me
ocupar do filme sobre ela depois de terminar o que estava fazendo.
Aí começou a tocar o Lara?
Quando acabei o Erotique fui batalhar o filme da Odete. Só que aí
começou uma via-crucis para fazer o roteiro porque é muito difícil
fazer uma biografia no cinema. Muito penoso.
Que parâmetros usou para construir o roteiro?
Primeiro eu fiz um roteiro todo errado. Enorme. Tudo errado. Eu não
pretendia fazer o roteiro sozinha, mas acabei fazendo. Um problema é que
no Brasil existe uma grande carência de roteiristas. Além disto, a
televisão absorve os escritores existentes e os vicia a escreverem para a
televisão. A tendência é o roteirista viciado pela televisão repetir
num filme a mesma coisa muitas vezes. E de não agregar o sentimento. De
escrever a cenas sem que o sentimento as conduza. As coisas ficam muito
frias, muito esquemáticas. Atualmente existe uma dominação da fórmula
americana de roteiro. Andaram importando uns professores americanos de
roteiro para o Brasil e existe uma predominância daquela fórmula que vem
desde os anos 40 ensinando como o filme dever ser feito. Está todo mundo
aplicando esta fórmula. Resumindo, eu não consegui fazer um roteiro. Eu
conversava, explicava e quando o roteirista trazia de volta não era nada
daquilo que eu queria.
O que você queria do roteiro?
Eu queria passar uma idéia de que você pode descer aos infernos e se for
verdadeiro consegue escapar. O que você não pode fazer é fingir que
não está acontecendo nada. E foi o que Odete fez. Ela desceu aos
infernos, reconheceu, admitiu, encarou e saiu. Esta é a idéia de
ressurreição que me inspirou e que eu queria no filme.
E o filme transmite esta idéia da ressurreição?
Eu acho que o filme tem muito de um determinado humanismo. Não o que
conhecemos nos anos 50/60 que não é recuperável e não pode mais
ocorrer neste mundo mediático, mas um novo humanismo inspirado na maneira
como o homem se dimensiona e relaciona hoje no universo. É isto que me
moveu a fazer o filme e neste sentido achava que poderia funcionar.É
muito difícil passar isto para um roteirista ou para um autor porque eles
não tem a mesma crença que você. Porque o que estou sentindo não é o
que eles sentem. E, como já falei, eles tendem a ser racionais e
esquemáticos. Foi um roteiro atrás do outro jogado no lixo. Foram meses
de impasse.
E como você chegou a um roteiro que lhe agradasse?
Primeiro eu decidi procurar uma mulher. Fui procurando por gênero porque
intuí que já melhoraria muito. Pelo outro lado não iria sair nada
mesmo. Aí encontrei uma mulher bacana, interessante, mas o roteiro não
funcionou. Ela foi muito importante neste processo porque me deu muita
força. Foi comigo aos mosteiros zen-budistas. De início, eu pensava em
colocar o budismo no filme, mas aos poucos fui chegando a forma final e
percebi que não dava para colocar a Bossa Nova nem o budismo. Acho que
não cabiam e também o filme não era uma lição de vida ou de
auto-ajuda. Eu contratei um produtor de São Paulo para ser uma espécie
de conselheiro porque estava com muita dificuldade de botar o filme em
pé. Este produtor, que é um profissional competente, leu o roteiro e
disse que eu não podia filmar como estava e que não tinha jeito. Ele
disse ainda que iria me recomendar uma roteirista e indicou a Rita Buzzar.
A Rita é uma pessoa maravilhosa e nós ficamos amigas. Ela teve um saque
do filme, fez logo uma escaleta e eu intuí que era por ali. Nós
começamos a trabalhar juntas e ela me disse que normalmente os diretores
não participam tanto do roteiro como eu fiz e me pediu para assinar junto
com ela.
Você se preocupou muito com a época histórica que é o pano de fundo da
vida de Lara. Como você fez esta costura?
O pano de fundo histórico é uma parte fundamental do livro e pelo qual
eu tinha um fascínio todo especial. Parte do fascínio que tinha para
fazer este filme vinha daí. Eu tive uma formação posterior a da Odete,
eu nasci em 1950, e minha formação foi muito cultural. Eu comecei a
estudar teatro com 16 anos. Naquela época realmente se estudava teatro,
história da arte, do teatro, etc. Eu sempre fui fascinada pela cultura
brasileira: a história do TBC, da Vera Cruz e a Odete passou por tudo
isto. A coisa da censura, por exemplo, é algo que eu também vivenciei.
É coisa da minha juventude e eu achava importante botar isto no filme.
Como costurar? Isto tinha que fazer parte da vida dela e não ser uma
explicação. Como explicação iria perder a importância. É como sai na
televisão. O importante era mostrar como e porque a censura interferiu na
vida dela. No caso, como o tempo presente era os anos 60, tinha o gancho
do personagem masculino que era um militante.
Você juntou as relações amorosas mais importantes de Odete em um único
personagem chamado Guima?
É. Não nomear e criar um personagem me deu muito mais liberdade de
criação e de imaginar coisas que seriam impossíveis em alguém real.
Está liberdade era fundamental para mim. De certa maneira eu tinha de
esquecer que a Odete existia, abstrair sua existência, para poder fazer o
filme. Como fazer os diálogos de não fosse assim? Mas mesmo a parte de
ficção é baseada nos livros e na vida dela. Eu e a Rita criamos uma
representação do que achávamos o que seria o conflito dela a partir do
que está nos livros. A realidade do filme é bem mais suave do que a dos
livros. Nos livros a barra é muito mais pesada. Tem muito mais
sofrimento. O que busquei colocar no filme foi o que captei e considerei
de importante, de essencial, na personalidade de Odete. É claro que é
uma leitura minha.
E esta essência você encontrou nos livros e também em entrevistas com
Odete?
Eu tive muitas conversas com ela. Odete é uma mulher fechada, misteriosa.
Era fascinante vê-la se movimentando fisicamente enquanto eu vivia ela no
plano intelectual o tempo todo. Ela é uma pessoa lânguida, faz muita
yoga então é muito flexível fisicamente. Seu gestual é atraente e
elegante. E nas conversas percebi que ela tinha uma consciência muito
maior do que a que apresenta nos livros. Ela é uma mulher muito vivida e
com uma experiência incrível.
Pedro Farkas (Diretor de Fotografia) - é um dos mais experientes e
premiados fotógrafos do cinema brasileiro. Como diretor de fotografia
trabalhou em quase uma centena de longas e curtas metragens. Entre eles se
encontram alguns sucessos do cinema brasileiro como Copo de Cólera, A
ostra e o vento, Ele, o boto, Boca de Ouro, Marvada carne, Inocência, Ed
Mort, etc. Realizou diversos clips musicais de sucesso com Milton
Nascimento, Paulo Miklos, Chico Buarque, Titãs e Roberto e Chico.
Trabalhou também em Brincando nos campos do senhor, de Hector Babenco, e
Quilombo, de Cacá Diegues e assinou a fotografia de incontáveis filmes
institucionais e comerciais. Farkas conquistou diversos prêmios, entre
eles o de melhor fotografia de longa metragem em 97 e 98 da Associação
Paulista de Críticos de Arte, seis Kikitos em diversos festivais de
Gramado, além de prêmios na Jornada Brasileira de Curta Metragem,
Festival de Brasília, Festival de Florianópolis, Festival de Pernambuco.
José Guerra (Diretor de Fotografia) - começou a se interessar por
fotografia aos 15 anos de idade, quando fez um curso na ABAF. Aos 19 anos
começou a trabalhar como assistente de câmera. Estudou no Canadá e fez
trabalhos para a National Geographic. Em Nova York fez um estágio com
Haskell Wexler, fotógrafo de Amargo Regresso, Quem tem medo de Virginia
Wolf, Estranho no Ninho, etc. Foi cinegrafista na TVE e operador de
câmera no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Trabalhou com todos os grandes
diretores do cinema nacional, entre eles Nelson Pereira dos Santos e
Walter Salles. Fez a fotografia de Outras Estórias, de Pedro Bial, e
Memorial de Maria Moura, de Leilane Fernandes, Lo que busca es amor, de
Sandra Gugliota, e Duas vezes com Helena, de Mauro Farias. José Guerra
foi indicado e recebeu vários prêmios de fotografia.
Dori Caymmi (Música) é o diretor musical de Lara. Ele já tem
experiência no gênero, tendo feito a trilha sonora de Bella Dona com Tom
Jobim e Quincy Jones. Como arranjador, Dori concorreu ao Grammy com A
pantera cor de rosa, de Henri Mancini, uma assumida influência musical.
Em Lara, Caymmi fez os arranjos de Meditação e Só louco, dividiu com
Chico Buarque a canção original Fora de Hora e compôs a trilha sonora.
Fora de Hora foi a primeira parceria entre Chico e Dori. Chico interrompeu
o auto-exílio voluntário a que geralmente se submete quando está
escrevendo um livro para colocar letra na música de Dori. A expectativa
era grande na equipe de Lara e houve uma grande alegria e alívio quando
um bem humorado Chico Buarque telefonou para Ana Maria e anunciou:
"nasceu e é uma menina". Mais uma canção no feminino de Chico
É a seguinte a letra de Fora de Hora:
Fora de hora o meu coração
Pega a pensar no seu
Será que ele também
De mim não se esqueceu
Será que embora um bom coração
Deseja mal ao meu
Será que diz que nem
Sequer me conheceu
Quando é tempo de serenar
Quando é hora de recolher
Por que vai e vem
Na gente um bem
Querer
Quando já nem balança o mar
Quando nem uma luz se vê
Nem um dia além
Da noite sem
Você
Agora mora o meu coração
Sozinho como quer
Sem outra dor senão
A dor de ser mulher
E estar à sua mão
Quando você vier
Rita Buzzar (Roteiro) - co-autora do roteiro de Lara junto com a diretora
Ana Maria Magalhães. Rita tem um mestrado em cinema na Universidade de
São Paulo e dirigiu curtas e documentários. Escreveu Una noche completa
e Clase de canto, capítulos da série Amores Impossibles, coordenada por
Gabriel García Márquez para a televisão. Participou de um workshop de
roteiro do Sundance Institut em Cuba. Entre os roteiros escritos para o
cinema e a televisão por Rita estão Rosa dos Rumos, Ana Raio e Zé
Trovão, Maria dos Prazeres, Clandestino e Maralto. Trabalhou na SBT e é
co-roteirista de Cronicamente Inviável filme dirigido por Sergio Bianchi.
Roteirizou e está produzindo o filme Olga baseado no best-seller do
jornalista Fernando Moraes.
João Paulo Carvalho (Edição) - Um dos requisitados editores da
televisão brasileira com larga experiência profissional. Participou da
maioria dos projetos dirigidos por Daniel Filho na Rede Globo e assinou a
edição de seriados e curtas que entraram para a história da TV
brasileira como Malu Mulher, Ciranda, Cirandinha, Armação Ilimitada,
Programa legal, Plantão de polícia, Tom Jobim Especial, Som Brasil,
Roberto Carlos especial, Mangueira do amanhã, Chico Anísio Show, Rock in
Rio, Tina Turner Especial e TV Pirata.
Entre as novelas editadas por João Paulo Carvalho estão Passo dos
ventos, Rosa Rebelde, Véu de noive, Irmão coragem, O cafona, Cavalo de
aço, Bandeira 2, Selva de Pedra e Dancing Days. Foi o editor de clips de
Ivan Lins, Gilberto Gil, Rita Lee, Milton Nascimento, Sting, Chico
Buarque, Tim Maia, Legião Urbana e Marina. Ele editou também dezenas de
comerciais.
Clóvis Bueno (Diretor de Arte) - é o responsável pela direção de arte
de Lara. Um dos mais importantes profissionais do teatro e cinema
brasileiros, Clóvis possui uma extraordinária experiência não apenas
como diretor de arte, mas também como ator, diretor, cenarista e
figurinista. Como ator participou de importantes montagens teatrais, entre
elas Terror e miséria do III Reich, Os fuzis da senhora Carr, O berço do
herói, O pagador de promessas e O santo milagroso. Assinou a direção de
Eles não usam black-tie, Fale baixo senão eu grito, Jorginho, o machão,
A última peça, Thanatos e Eu gosto de mamãe. Foi diretor de arte de
Feliz ano velho, Doida demais, Moças de fino trato, Brincando nos campos
do senhor, Lamarca, Menino maluquinho, o filme, A ostra e o vento, As
meninas, Jenipapo, etc. No teatro fez a cenografia e figurinos de Jorge,
um brasileiro, Mistério do colégio Brasil, Saravá, excelência, Verde
que te quero verde, Receita de Vinicius, Navalha na carne, Noites brancas,
Cinto acusador, Fala baixo, senão eu grito, Jorginho, o machão, O Santo
inquérito, a última peça, Eu gosto de mamãe, O quarteto, Gente fina é
outra coisa, O amigo da onça, O ferreiro e a morte e L'aide memoire. Já
no cinema fez a cenografia, figurinos ou os dois de Anuska, manequim e
mulher, Luz, cama, ação, O pai do povo, O cortiço, O escolhido de
Yemanjá, O torturador, O seqüestro, Pixote, a lei do mais fraco, Os
três palhaços, Fruto do amor, Viagem ao céu do boca, Índia, Aventuras
de um Paraíba., O beijo da mulher aranha, A cor do seu destino, A
floresta das esmeraldas, Águia na cabeça e A hora da estrela. Ele é o
responsável pela impressionante favela cenográfica de Orfeu, filme de
Cacá Diegues. Junto com a mulher, Vera Hambúrguer, fez o cenário de
Castelo Rá-Tim-Bum- O filme. Em Lara, Bueno recriou em estúdio o famoso
Nick Bar, um ponto de encontro histórico do pessoal do teatro e que
funcionava anexo ao TBC, na fase áurea dos anos 50 quando Odete, dirigida
por Adolfo Celli, emplacava um sucesso atrás do outro.
Elenco
Christine Fernandes: foi protagonista de Duas vezes com Helena e teve
participações em Amores possíveis e Xangô de Baker Street. Atuou em
novelas e fez algumas peças no teatro infantil.
Caco Ciocler: Cursou a Escola de Arte Dramática (EAD) de 1992 a 1995. Fez
vários trabalhos no teatro, entre eles, Camila Becker, Píramo e Tisbe
(ganhou o Prêmio Mambembe como ator coadjuvante). Na televisão atuou em
Esplendor, A muralha, O amor está no ar, O rei do gado (prêmio APCA como
ator revelação. No cinema protagonizou Minha vida em suas mãos, Bicho
de sete cabeças e O xangô de Baker Street.
Gilberto Gawronski: Idealizou, dirigiu e atuou, entre outras peças, em
Uma história de borboletas, Toda donzela tem um pai que é uma fera,
Piquenique no front, Dama da noite, Na solidão dos campos de algodão,
Pop by Gawronski (prêmio Sharp de melhor direção), sempre como diretor
artístico da Cia Art in Obra. Foi premiado com cinco prêmios de melhor
ator em festivais nacionais e estrangeiros com o filme Dama da noite.
Maria Manoella: jovem atriz de 21 anos, trabalhava em São Paulo como
bar-woman no Ritz da Alameda Franca. Ela faz Odete Lara da adolescência
até os 30 anos. Maria veio do teatro, da escola de interpretação de
Célia Helena. Ela soube através de uma amiga que Ana Maria procurava
alguém para fazer o papel de Odete Lara. Ligou para a diretora, marcou um
almoço e acabou contratada. Manoella pesquisou tudo que encontrou sobre a
vida de Odete, leu os livros, viu os filmes disponíveis e apesar das
diferenças entregou-se ao papel e incorporou a tumultuada personagem de
Odete Lara.
Tuca Andrada: tem grande experiência no teatro. Trabalhou no Beijo da
mulher aranha. Fez também o papel de Garrincha em peça produzida por
Elza Soares.
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