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A
Paixão
de Jacobina |
Apresentação
Seis anos depois de O Quatrilho, Fábio Barreto voltou ao Rio Grande do
Sul para revelar mais uma página pouco conhecida da colonização no
Estado, desta vez com foco na imigração alemã: A Paixão de Jacobina,
que tem como personagem principal uma polêmica líder religiosa que
liderou a revolta dos Mucker em 1874.
Cristo-Mulher para alguns, farsante, para outros, a história de Jacobina
chega às telas com Letícia Spiller no papel título e grande elenco
formado por Thiago Lacerda, Alexandre Paternost, Caco Ciocler, Antônio
Calloni, Leon Góes, Felipe Camargo e muitos outros.
Com orçamento de R$ 8 milhões e 500 mil, A Paixão de Jacobina
reconstitui um importante fato histórico que culminou com o massacre da
comunidade Mucker por tropas do Exército Imperial. Para levar essa
história à tela, a produção contou com 156 personagens, 2.500
figurantes e o trabalho de 103 técnicos. As filmagens foram realizadas
nos principais centros da colônia alemã - Vale dos Sinos e Vale do
Taquari onde a história de Jacobina aconteceu.
Baseado no livro Videiras de Cristal do escritor gaúcho Luiz Antonio de
Assis Brasil, A Paixão de Jacobina tem roteiro de Leopoldo Serran,
parceiro habitual do diretor. O roteiro teve colaboração de José Almino
Arraes e Ana Maria Miranda e revisão final de Marcelo Santiago e Fábio
Barreto. As pregações de Jacobina são tiradas da Bíblia - do Novo
Testamento (Salmos, Mateus, Lamentações, Apocalipse e Joel).
Neste seu sexto longa-metragem, Fábio Barreto repetiu também outras
parcerias: com o diretor de fotografia Felix Monti, o diretor de arte
Hélio Eichbauer, a figurinista Diana Eichbauer, o técnico de som
Cristiano Maciel, o montador Mair Tavares. O compositor Jaques Morelenbaum,
assim como fez com O Quatrilho - assina a trilha musical inteiramente
criada para o filme. A Paixão de Jacobina é uma produção L.C. Barreto
e Filmes do Equador, co-produzido pela NGM (Gisele Hiltl) e pela PlayArte
Pictures, com os produtores associados Labocine, Casablanca, Quanta e
Mega.
Como aconteceu com O Quatrilho, A Paixão de Jacobina terá pré-estréia
nacional com exibição hors-concours no Festival de Gramado, no dia 15 de
agosto. No dia 30 de agosto, o filme entra em cartaz no Rio Grande do Sul
e Santa Catarina e, no final de setembro, no Rio de Janeiro e São Paulo.
O filme será acompanhado nos cinemas por um documentário de cinco
minutos, "Heimat", que significa "querência" em
alemão, com dados históricos e culturais sobre a colônia alemã
gaúcha.
Antecedentes Históricos
A imigração alemã para o Rio Grande do Sul teve início em 1824.
Colonos receberam propriedades e fundaram a cidade de São Leopoldo na
região do Vale dos Sinos. Inicialmente, os imigrantes viveram uma
experiência comunitária, com união das famílias em torno da religião
e do trabalho. Com o tempo, alguns colonos prosperaram mais do que outros,
surgindo desigualdades sociais e brigas entre as famílias.
Neste cenário, destacam-se o curandeiro João Jorge Maurer e sua mulher
Jacobina que tinha o hábito de ler a Bíblia em sua comunidade. Portadora
de poderes mediúnicos, incorporava Jesus Cristo e recitava trechos do
Novo Testamento. Em pouco tempo, Jacobina transformou-se em líder de uma
seita dissidente da Igreja Luterana. Ela pregava a cura dos males do corpo
e a salvação da alma através da felicidade, liberdade e igualdade entre
os seres humanos. Seus seguidores renegavam o dinheiro e trabalhavam as
terras de forma comunitária.
Jacobina pregava que no Dia de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa, uma
luz no céu daria o aviso de que o mundo seria consumido por chamas
purificadoras. Rejeitados pela população, Jacobina e seus seguidores
são chamados de Mucker - santo falso. Vários confrontos violentos
ocorreram entre os dois lados.
Entre 28 de junho e 2 de agosto de 1874, tropas do Exército Imperial
atacaram os Mucker. Jacobina e seus seguidores foram dizimados.
Personagens
Jacobina (Letícia Spiller) - Desde criança tem desmaios e mergulha em
sonos profundos. Tem visões e diz que recebe mensagens de Jesus Cristo.
Torna-se líder religiosa pregando passagens da Bíblia. Para seus
seguidores, é Cristo Mulher. Para seus adversários, uma impostora.
Franz (Thiago Lacerda) - Primo de Jacobina e seu grande amor. Chamado para
tentar trazer Jacobina à razão, está junto dela no massacre.
Maurer (Alexandre Paternost) - Curandeiro da região e marido de Jacobina.
Assiste ao crescente domínio da mulher sobre a população.
João Lehn (Caco Ciocler) - Delegado da cidade. Apesar de casado, é
apaixonado pela cunhada de Jacobina, Elizabeth Carolina, com quem mantém
um romance.
Pastor Boeber (Antônio Calloni) - De formação luterana, acompanha
perplexo o crescimento da seita de Jacobina. Transforma-se em seu maior
opositor.
Elizabeth Carolina (Talita Castro) - Mulher de Francisco, irmão de
Jacobina, abandona o marido para aderir à seita dos Mucker.
Francisco (Evandro Soldatelli) - Irmão de Jacobina, tem com ela uma
relação marcada por conflitos.
Maria (Thereza Mascarenhas) - Mãe de Jacobina, acompanha a filha em sua
opção religiosa.
Jacó-Mula (Leon Góes) - O maior adorador de Jacobina. Acostumado a ser
maltratado por suas dificuldades mentais e motoras, vê Jacobina como uma
mãe. É o Anjo de Jacobina, seu braço puro.
Robinson (Felipe Kannemberg) - O Demônio de Jacobina, é também seu
braço violento. Alvo do primeiro milagre, executa os serviços sujos da
seita.
Coronel Genuíno (Felipe Camargo) - Herói da Guerra do Paraguai, vem do
Rio de Janeiro para liderar o exército brasileiro na luta contra os
Mucker e morre.
Nadler (Zé Vitor Castiel) - Comerciante que adere à seita para depois
traí-la. É o Judas de Jacobina.
Dr. Hillebrandt (Werner Schunemann) - Médico de Jacobina, tenta
compreendê-la e antecipa o massacre.
Produtores: Lucy e Luiz Carlos Barreto - L.C. Barreto / Filmes do Equador
A Paixão de Jacobina, sétima produção L.C. Barreto / Filmes do Equador
após a retomada, soma-se a mais de 70 filmes realizados por Lucy e Luiz
Carlos Barreto em mais de quatro décadas de atividade.
Como os mais ativos produtores do país, orquestraram a realização de
obras fundamentais na história do cinema brasileiro, como Assalto Ao Trem
Pagador (Roberto Farias/ 1962), Vidas Secas (Nélson Pereira dos
Santos/1963), O Padre e Moça (Joaquim Pedro de Andrade/1965), Bye-Bye
Brazil (Carlos Diegues/1979), Inocência (Walter Lima Jr./1982), Memórias
do Cárcere (Nelson Pereira dos Santos/1983), entre muitos outros. Dona
Flor e Seus Dois Maridos (Bruno Barreto/1976) permanece como recordista
absoluto de bilheteria no país, com mais 12 milhões de espectadores.
Das seis produções pós-retomada, duas concorreram ao Oscar de melhor
filme estrangeiro: O Quatrilho (Fábio Barreto/1996), sobre a imigração
italiana no Rio Grande do Sul no início do século; e O Que É Isso
Companheiro? (Bruno Barreto /1998), inspirado em best-seller de Fernando
Gabeira, sobre a resistência de estudantes e líderes políticos à
ditadura militar nos anos 60.
As outras quatro produções seguiram a marca Lucy e L.C.Barreto de buscar
novos modelos de produção e diversificação temática, estética e
também geográfica: Bela Donna (Fábio Barreto/ 1998) abordava os
conflitos de uma estrangeira no litoral cearense durante a Segunda Guerra.
Uma Aventura do Zico (Antônio Carlos da Fontoura/1998) trazia o astro do
futebol em uma aventura cheia de efeitos especiais. Bossa Nova (Bruno
Barreto/ 1999) reunia Amy Irving e Antônio Fagundes em comédia
romântica em um Rio de Janeiro como deveria ser. O documentário 2000
Nordestes focalizava o nordestino na virada do século, com direção de
Vicente Amorim e David França Mendes.
O próximo projeto L.C. Barreto/Filmes do Equador terá novamente o
Nordeste como cenário: O Caminho das Nuvens, com direção de Vicente
Amorim, inspirado em fato real: uma família viaja do Nordeste ao Rio de
bicicleta.
Depoimentos
Lucy Barreto: "A Paixão de Jacobina aborda uma preocupação muito
atual de busca de sentido e resgata uma página da história do país
pouco conhecida".
"Neste início de século vivemos momentos muito inquietantes e não
só no Brasil. E em tempos de incerteza, proliferam seitas e crendices, o
fanatismo aflora, a identidade de grupos é posta em questão. Depois da
tragédia de 11 de setembro, esta questão ficou ainda mais evidente - e a
história de atos extremos se repetiu.
Em fases de turbulências, há uma perda de identidade e de auto-estima na
medida em que mitos são destruídos, rituais deixam de ser obedecidas,
referências são abandonadas. Não raro, nesses momentos de grande
insegurança, surgem líderes religiosos e gurus que exercem sua
influência sobre comunidades, como aconteceu com Antônio Conselheiro, em
Canudos, no final do século XIX. A influência também pode ocorrer em
círculos de poder, como aconteceu na Rússia czarista, com Rasputin, e
com a Rainha Juliana, da Holanda, durante a Segunda Guerra. Jacobina foi
líder de uma seita religiosa no Rio Grande do Sul e morreu em 1874.
Sempre nos preocupamos em diversificar a produção e, por todos esses
motivos, me pareceu que Fábio escolheu o momento certo para realizar A
Paixão de Jacobina. Como pregadora, ela estava próxima a Spinoza, com um
discurso hedonista de liberdade e felicidade. Ela diz para a cunhada
Elizabeth Carolina, que abandona o marido, que seja livre e seja feliz. Em
seus sermões bíblicos pregava que as pessoas não deviam ficar ansiosas
pelo que comem, bebem ou pelas roupas que vestem - tópicos muito atuais
nesses tempos de globalização e consumismo desenfreado. A
globalização, aparentemente, nivela tudo, mas os desfavorecidos são
excluídos do processo. Na pequena comunidade de Jacobina, tudo era de
todos. É importante ressaltar que as pregações de Jacobina no filme
são retiradas de passagens do Novo Testamento - Salmos, Mateus,
Lamentações, Apocalipses. A pregação da árvore, por exemplo, reproduz
exatamente trechos do capítulo X do livro de Mateus.
Jacobina chegou ao cinema com o conceito de grande produção, um filme de
época, e seguiu o mesmo caminho de O Quatrilho, no sentido de contar com
grande apoio das comunidades do Vale dos Sinos e Vale do Taquari, onde
filmamos. Acompanhei de perto a elaboração do roteiro, que passou por
diversas adaptações. Um dado importante da produção foi a integração
de um grande número de atores gaúchos - excelentes. Por coincidência,
Fábio já tinha dados cursos de interpretação no Rio Grande do Sul, e
vários de seus alunos participaram do filme.
A Paixão de Jacobina aborda uma preocupação muito atual de busca de
sentido, e resgata uma página da história do país pouco conhecida. O
filme narra a história de uma mulher que segue o seu destino, subverte a
ordem, combate a pobreza enorme com palavras de liberdade e ameaça a
burguesia local. Uma personagem alemã que pregava a sensualidade e
praticava o ósculo - suave beijo na boca como sinal de paz - com seus
seguidores. Com Jacobina, as igrejas se esvaziam, a comunidade se revolta.
Na nossa experiência, sabemos que além de fazer um bom filme, ele tem
que acontecer na hora certa. Tenho certeza de que A Paixão de Jacobina
foi feito e será lançado da melhor maneira possível".
Luiz Carlos Barreto: Embora A Paixão de Jacobina tenha um grande
interesse regional, o filme não visa apenas o público do Sul. O tema da
fé e o confronto com os poderosos é universal.
"A Paixão de Jacobina nasceu no dia da primeira exibição de O
Quatrilho no Festival de Gramado em 1995, quando o empresário Horst
Volker, fundador da fábrica Ortopé deu o livro Videiras de Cristal a
Fábio e disse: "Agora você tem que fazer um filme sobre os
alemães". Fábio leu o livro e ficou apaixonado. E nós ficamos
entusiasmados pela possibilidade de revelar novamente, através do cinema,
aspectos desconhecidos da história do país.O episódio dos Mucker tem o
mesmo significado de Canudos sem a conotação política. Jacobina
professava um discurso de cunho mais religioso e social, transformou-se em
líder religiosa e dos excluídos e assustou a comunidade conservadora.
Por que produzir e a quem pode interessar o projeto. Todo filme nasce
dessas duas perguntas. Embora A Paixão de Jacobina tenha um grande
interesse regional, o filme não visa apenas ao público do Sul. O tema da
fé e o confronto com os poderosos é universal.
A questão seguinte é descobrir a maneira de fazer. A opção por um
filme histórico exigia uma preparação consistente. Levamos dois anos de
pesquisa para chegar a uma rigorosa reconstituição de época - de fatos
históricos a costumes, figurinos, objetos - há mais de 3000 objetos de
cena e foram feitas 2000 roupas, incluindo as fardas dos soldados do
Exército Imperial. Foram também reconstituídos canhões que atiravam.
O roteiro passou por várias adaptações, pois lida com um fato polêmico
ainda vivo no Sul do País, onde Jacobina continua tema de cantigas,
brincadeiras e tabus. As famílias Maurer e Mentz têm descendentes e
formam um novo casal: o marido é descendente dos Mentz, o lado de
Jacobina, e a mulher dos Maurer (do marido João Jorge). O prefeito da
cidade de Lajeado é tataraneto de um Mucker. Embora a maioria tenha sido
dizimada, alguns seguidores se salvaram, escondendo-se em cavernas, como
acontece no Afeganistão.
A concepção artística foi extremamente cuidada e contou com amplo
levantamento iconográfico. Para a direção de fotografia, chamamos Felix
Monti, profissional de grande cultura e profundo conhecedor de pintura
clássica italiana e alemã, com experiência em produções
internacionais de grande porte, como Gringo Viejo, com Jane Fonda e
Gregory Peck. Hélio Eichbauer, um dos cenógrafos mais importantes do
país, assina a direção de arte, e Diana Eichbauer, os figurinos.
O custo de A Paixão de Jacobina - cerca de R$ 8.500.000 - pode ser
considerado alto para o Brasil, mas é certamente baixo para os valores de
produção que estão na tela e que sem dúvida custariam de US$ 30 a 40
milhões nos Estados Unidos. O acabamento envolveu uma grande quantidade
de efeitos especiais, como os meteoros e as visões de Jacobina. O filme
apresenta de 12 a 15 minutos de efeitos digitais especiais que encarecem
muito a produção.
Embora exista a tendência do cinema aproveitar uma música já existente,
optamos pela criação de uma trilha original para ser usada como
intervenção musical em função da linguagem - uma música de caráter
narrativo. Posso dizer, sem medo de errar, que Jaques Morelenbaum criou
uma das melhores trilhas sonoras já produzidas para um filme brasileiro.
Com A Paixão de Jacobina seguimos o caminho de O Quatrilho e voltamos ao
Rio Grande do Sul, que talvez seja o estado com o melhor projeto de
política pública cultural. Seu núcleo de produção cinematográfica
vem gerando produtos importantes e constitui um pólo ativo e contínuo.
Enquanto no Rio de Janeiro o limite de captação através do ICMS é de
R$ 450 mil, no Rio Grande do Sul é R$ 1.500.000. Esta diferença mostra a
intenção política de colocar recursos à disposição do mercado e não
é regionalista. Nos associamos à produtora gaúcha NGM de Gisele Hiltl
para completar o quadro financeiro através de aportes significativos.
Contamos também com uma expressiva contribuição das comunidades e cerca
de 50% dos patrocínios foram captados na região.
O Rio Grande do Sul é um terreno fértil para o cinema e deu uma grande
solidez e estabilidade à produção que ocupou 550 pessoas na mão de
obra, entre artesãos, artistas, costureiras, carpinteiros, pintores, e
contou com 2.500 figurantes. O planejamento rigoroso permitiu economizar
uma semana de filmagens - das oito previstas para sete - o que é raro.
Pretendemos fazer outros filmes na região, entre elas uma adaptação de
O Exército de um Homem Só, de Moacyr Scliar, e histórias de Luis
Fernando Veríssimo.
O lançamento seguirá o modelo de O Quatrilho, com pré-estréia no
Festival de Gramado e estréia no Rio Grande do Sul no final de agosto. Um
mês depois, o filme chegará ao Rio de Janeiro e São Paulo. Estamos
estudando um acordo de comercialização para a Europa através da
distribuidora Filmverlag de Wim Wenders, e com diferentes distribuidores
americanos que acreditam no potencial externo do filme para a América
Latina e Estados Unidos.
Como produtores estamos cumprindo nosso papel visando à realização de
filmes com diversidade na temática, no estilo e na concepção, com uma
abordagem de mercado. Lutamos por uma linha de produção de qualidade
artística sem jamais perder de vista a conquista e o crescimento do
mercado brasileiro. A melhor política que se pode ter na concorrência
com o produto internacional é a conquista do mercado interno".
Gisele Hiltl - Co-produção:
"Como todo filme de época, ele só imprime a verdade quando a
comunidade entra em cena, com os mais diversos tipos de apoio".
Depois da experiência como diretora de produção de O Quatrilho, Gisele
Hiltl atuou na linha de frente de Anahy de las Misiones, de Sérgio Silva,
e na terceira fase da filmagem de Tiradentes (Oswaldo Caldeira). Elaborou
também dois novos projetos com Sérgio Silva: A Noite de São João,
inspirado em Senhorita Julia de Strindberg, já filmado, e Clamor da
Juventude, em preparação. Nesse meio tempo, repetiu a parceria com
Fábio Barreto e transformou-se em produtora associada de A Paixão de
Jacobina através da empresa NGM.
Gisele lembra que o envolvimento com Jacobina começou em Paris, na
pré-estréia de Bela Donna, dirigido por Fábio Barreto em 1998.
"Estávamos voltando de Budapest, onde ele apresentou O Quatrilho e
eu Anahy de las Misiones. Ele me falou sobre Jacobina com o entusiasmo que
costuma devotar a fortes personagens femininas. Não foi preciso muito
para me convencer a repetir a parceria tão bem sucedida. No meio do
processo, porém, passei de produtora executiva a produtora associada. Foi
um trabalho atípico, pois Jacobina é a primeira co-produção entre o
Rio Grande do Sul e um outro Estado a utilizar a Lei de Incentivo do
Estado, que somou cerca de R$ 1.500.000 do total da produção".
A experiência da busca de locações para O Quatrilho foi repetida. As
filmagens tiveram dois núcleos principais: no Vale dos Sinos, foi filmado
o Morro do Ferrabraz em Sapiranga e também as cidades de Novo Hamburgo,
São Leopoldo e Parobé, onde se encontra a figueira magnífica de 400
anos. No Vale do Taquari, o parque histórico de Lajeado foi transformado
em cidade cenográfica.
Diante do peso histórico do tema para a comunidade, Gisele Hiltl
esclarece: "Nosso desafio é apresentar uma versão com o cuidado de
resgatar a personagem feminina e o seu empenho naquela época para que a
comunidade julgue por si mesma". E acrescenta: "O filme não
toma partido o que não invalida o evidente encantamento de Fábio pela
personagem".
Quanto ao significado de uma produção do porte de Jacobina para o Rio
Grande do Sul, Gisele observa: "O Sul vem se revelando um pólo de
cinema, não como indústria, mas como fazedor de filmes. Temos uma
tradição de fazer cinema e de prover recursos humanos mas não dispomos
de recursos técnicos. E há uma consciência do poder público para
desenvolver a atividade e imprimir uma qualidade distinta à produção. O
sucesso de O Quatrilho, além de funcionar como atração turística e
veículo histórico e cultural, também se deu na bilheteria - pois o Sul
foi responsável por cerca de 40% dos ingressos vendidos em todo o
país".
E conclui: "Embora Jacobina seja um produto diferente de O Quatrilho,
estamos seguindo o mesmo caminho. O filme tem um forte componente
cultural, pois retrata um fato histórico de uma comunidade que teve e tem
importante participação econômica e social no estado. E como todo filme
de época, ele só imprime a verdade quando a comunidade entra em cena,
com os mais diversos tipos de apoio, como aconteceu. Foi graças à
participação espontânea de uma diretora do Museu de Venâncio Aires que
nos mostrou uma coleção de oito vestidos pretos de noiva - um deles
estava tão velho que só tinha a parte de cima - que a figurinista Diana
Eichbauer criou o vestido de noiva na cor negra - uma tradição na época
da região".
Maria da Salete - Produção Executiva
Foi como secretária de produção de Amor Bandido de Bruno Barreto que
Maria da Salete estreou no cinema. Desde então, já assinou a produção
executiva de mais de 20 longas, entre eles Inocência (Walter Lima Jr.),
Memórias do Cárcere (Nelson Pereira dos Santos), Menino do Rio (Antonio
Calmon), Bye-bye Brasil (Cacá Diegues). Na fase da retomada, somou ao seu
currículo os filmes Bela Donna (Fábio Barreto), O Que é Isso
Companheiro? (Bruno Barreto), Uma Aventura de Zico (Antonio Carlos da
Fontoura) e Bossa Nova (Bruno Barreto).
A Paixão de Jacobina marca a quarta parceria de Maria da Salete com
Fábio Barreto, pois além de Bela Donna, participou também da produção
de Índia, a Filha do Sol, primeiro longa do diretor em 1982, e de O Rei
do Rio (1985).
Maria da Salete será também a produtora delegada de O Caminho das
Nuvens, a próxima realização de L.C. Barreto / Filmes do Equador.
"Em 26 anos como produtora, A Paixão de Jacobina foi o filme que me
deu mais prazer. Fábio é um diretor muito doce e conseguiu reunir não
só uma equipe de excelentes profissionais como também muito entrosada -
o que é raro.
Embora A Paixão de Jacobina seja um filme relativamente grande - uma
produção de época com 56 atores e 2.500 figurantes - o trabalho fluiu
com grande tranqüilidade. Tivemos uma ótima equipe de fotografia e um
diretor de arte que trabalhou todo o tempo ao lado da produção.
O resultado do nosso esforço está na tela e tenho certeza de que
Jacobina aparenta um custo muito mais alto do que o efetivo - e a
diferença se deve à integração entre a produção executiva e toda a
equipe técnica e elenco. Todo mundo queria fazer o mesmo filme -
inclusive o Fábio e ninguém se comportou como estrela.
A produção executiva depende de inúmeras negociações com o diretor, o
que pode provocar pressão e tensão. Muitas vezes, se tem que dizer não,
que eu procurava compensar com a valorização de outros elementos. E
Fábio sempre esteve aberto às trocas propostas.
Tivemos um grave contratempo quando chuvas torrenciais em Lajeado levaram
à decretação do estado de calamidade pública na região. Mudamos a
cronologia das filmagens e conseguimos não perder um minuto sequer do
prazo previsto. O filme foi muito bem planejado e fomos recebidos de
braços abertos por todo o Rio Grande do Sul. Mesmo com temporais,
concluímos as filmagens uma semana antes do previsto - acho que por
proteção de Jacobina.
Tive oito semanas para a preparação da produção executiva - não foi
muito tempo - mas eu fiz e fiquei feliz. Não quero cair no lugar comum de
falar de custos. No caso de Jacobina quero falar do prazer do trabalho
realizado.
De um modo geral, a produtora executiva é a megera de um filme, mas em
Jacobina fui amadíssima, queridíssima, abraçadíssima. Foi muito
bom."
Entrevista: Fábio Barreto
Mulheres fortes fora dos grandes centros urbanos e adaptações
literárias têm sido a principal inspiração do diretor Fábio Barreto.
Foi assim desde o seu longa de estréia em 1981, Índia, a Filha do Sol,
adaptação de romance de Bernardo Élis. Apenas o filme seguinte - O Rei
do Rio (1984) a partir de peça de Dias Gomes, tinha um cenário urbano
como pano de fundo. Seguiram-se Luzia Homem (1987), inspirado em livro de
Domingos Olímpio, O Quatrilho (1995) baseado em romance de José Clemente
Pozenato, e Bela Donna (1998), a partir de Riacho Doce, de José Lins do
Rego. Apesar de representarem contextos históricos e sociais e também
regiões do país diversificadas, esses filmes têm como marca mulheres no
comando de suas vidas e também uma profunda ligação com suas épocas e
ambientes.
Com O Quatrilho, Fábio Barreto dirigiu um dos grandes sucessos da
retomada - 1 milhão 200 mil espectadores - e concorreu ao Oscar de melhor
filme estrangeiro. A idéia de narrar a história de Jacobina e a guerra
dos Mucker foi também um dos desdobramentos do sucesso obtido ao narrar a
saga da colônia italiana gaúcha no início do século.
Filho dos produtores Lucy e Luiz Carlos Barreto e irmão de Bruno, Fábio
desenvolveu várias atividades ligadas à produção até chegar à
direção. Foi assistente de produção de Dona Flor e Seus Dois Maridos
(Bruno Barreto) e de Ajuricaba, de Oswaldo Caldeira, e assistente de
direção de Gente Fina é Outra Coisa (Antônio Calmon), Amor Bandido
(Bruno Barreto) e Bye-Bye Brasil (Cacá Diegues). Foi ainda diretor de
produção de Prova de Fogo (Marco Altberg) e produtor de O Beijo no
Asfalto (Bruno Barreto), e produtor executivo de O Quinto Macaco,
produção americana filmada no Brasil, com direção de Eric Rochat e Ben
Kingsley no elenco. Dirigiu dois curtas - A História de José e Maria,
prêmio de direção no Festival de Brasília de 1977, e Mané Garrincha
em 1978.
É também diretor de TV e professor de cursos de cinema.
Qual a origem de Jacobina?
Em 1995, após a exibição de O Quatrilho em Gramado, Horst Volker, dono
das indústrias Ortopé e um dos fundadores do Festival de Gramado,
convidou a equipe do filme para um almoço. Na ocasião, ele me deu o
livro Videiras de Cristal, de Luiz Antonio de Assis Brasil e disse:
"Você fez um filme sobre os imigrantes italianos no Rio Grande do
Sul. Espero que você faça agora um filme sobre a colônia alemã. Esse
livro que acaba de sair conta essa história". Li e fiquei fascinado
pela personagem e impactado pela tragédia de um grupo de pessoas que se
reuniram para viver uma utopia. A comunidade de Jacobina era uma mistura
de movimento sem-terra com modelo socialista e filosofia hippie.
Foi este entusiasmo que levou à realização do filme?
Há vários motivos para dirigir um filme e cada filme que faço
corresponde a um momento de transformação pessoal. Nesse sentido, tenho
a expectativa de que os filmes que dirijo intervenham na minha vida para
melhor, me enriqueçam como forma de auto-conhecimento. A personagem de
Jacobina, de forma ampla, reflete uma divisão comum a todos - entre
espírito e carne, e toca em um problema fundamental que é a culpa.
Jacobina é um bicho selvagem e mesmo com o casamento não controla esse
"bicho", o desejo que a atormenta. E se ela não conseguir
controlar, administrar esse bicho, que lhe gera muita culpa, pode acabar
destruindo a sua vida. Ela abandonou o sexo, mas não o erotismo,
praticava o ósculo e era profundamente sedutora. A forma que encontrou
para administrar esse bicho interior foi através da renúncia à carne.
Uma renúncia fortemente marcada pela entrega religiosa.
Sem dúvida. Ao se despir diante da imagem de Cristo e se oferecer a ele,
Jacobina encontrou uma forma de controlar esses impulsos, o que no fundo
é um paradoxo. As religiões existem porque as pessoas sabem que sozinhas
não resistirão à tentação. Precisam de ajuda para não pecar, para
não se sentirem culpadas. E sozinhas, não conseguem. Acho que Jacobina
concentra contradições não resolvidas da maior parte das pessoas que
são a dualidade entre o desejo e a culpa, o sagrado e o profano. E achei
que a investigação desses temas me ajudaria a mergulhar no meu
inconsciente, me conhecer melhor.
Do livro às filmagens transcorreram mais de cinco anos.
Depois de O Quatrilho quis filmar Bela Donna, mas desde 1998 estou
envolvido com A Paixão de Jacobina. Passei o ano de 1999 trabalhando com
José Almino Arraes, escritor, poeta, historiador e sociólogo, criando o
argumento. Depois, desenvolvi o roteiro com a escritora Ana Maria Miranda,
e finalmente, Leopoldo Serran, meu parceiro habitual, deu o tratamento
final. Aliás, em Jacobina várias parcerias continuam - com o fotógrafo
Felix Monti, Cristiano Maciel (som direto) e com o diretor de arte Hélio
Eichbauer. Não faço filmes sem eles - trabalhamos por música.
Um dos principais elementos de Jacobina é o fanatismo religioso. Como
você quis abordar esse tema?
O fanatismo religioso é um tema contemporâneo. E durante as filmagens
aconteceu uma coisa surreal. Começamos a filmar em setembro de 2001. No
dia 11 de setembro, Felix Monti atendeu o celular e nos contou, rindo e
meio incrédulo, que Nova York estava sob um bombardeio. E estávamos
justamente filmando uma cena em que Jacobina anunciava o fim do mundo para
seus fiéis - e nós também estávamos no fim do mundo, no interior do
Rio Grande do Sul. Para combater aquela mulher e sua seita em meados do
século XIX, o governo ameaçado com o crescimento da seita e o poder de
Jacobina mandou tropas do exército e canhões da Guerra do Paraguai para
exterminar os Mucker. O filme aborda várias manifestações de fanatismo
e as reações que provoca.
Jacobina se via como Cristo-Mulher e deixou uma imagem polêmica: santa,
mártir, para alguns, louca, fanática, herege, promíscua, para outros.
Qual a posição do filme?
Até hoje, Jacobina divide muito as opiniões no Sul. O filme parte de uma
grande pesquisa, é fiel aos fatos históricos, um dos episódios mais
marcantes da colonização alemã no estado. Eu quis mostrar Jacobina sem
julgá-la, mas propiciando o máximo de elementos para que, após o filme,
cada espectador faça seu próprio julgamento. Na realidade, Jacobina
começou a ter desmaios aos 13 anos. Apresentava longas ausências e
também poderes paranormais. Dizia-se que teria poderes mediúnicos e
incorporava Jesus Cristo, por isso reproduzia trechos do Novo Testamento
em suas falas. Isso é fato. Em termos médicos, ela seria considerada
hoje uma psicótica histérica. Como cineasta, não quis impor o meu
julgamento. Pessoalmente, não acredito que personagens sejam apenas do
bem ou do mal - e acredito no perdão. Os Mucker agrupavam 500 pessoas e
na primeira batalha 150 morreram combatidos por 150 soldados. Na segunda
batalha, 300 homens trucidaram os 150 Mucker restantes. Não sobrou quase
ninguém.
Como se armou a produção de Jacobina - uma produção de grande porte,
com centenas de figurantes e cenas de batalha?
Houve um minucioso trabalho de preparação. Como tenho muita experiência
com produção, sei que a coisa mais importante e difícil para o diretor
é tempo. Ou seja, ele tem que ter tudo no lugar para otimizar o tempo.
Por isso, os meus três últimos filmes - O Quatrilho, Bela Donna e A
Paixão de Jacobina foram concluídos antes do prazo. Apesar de Jacobina
ter uma produção complexa, filmei o tempo todo com duas câmeras, o que
agiliza muito as filmagens. Conseguimos baixar a previsão de oito para
sete semanas de filmagem. A partir de agora, só trabalho com duas
câmeras.
E quanto às locações?
A logística de produção contou com duas bases: no Vale dos Sinos -
Igrejinha, Sapiranga, Novo Hamburgo e São Leopoldo - para onde foram
parte dos 40 mil alemães na leva imigratória de 1824. Outra parte foi
para o Vale do Taquari, e em Lajeado filmamos na cidade cenográfica.
Todas as filmagens foram muito preparadas a partir de um storyboard
minucioso. Esse planejamento propiciou uma experiência em que tudo fluiu
extremamente bem. Aliás, eu diria que quando filmo, me proponho uma
experiência de vida prazerosa - e dos meus seis filmes, apenas um - O Rei
do Rio - teve cenário urbano. Eu me definiria como diretor de época
agropastoril - não é à toa que quase fui fazer agronomia.
Como foi a escolha de Letícia Spiller?
Fizemos leituras do roteiro com várias atrizes. Eu já admirava Letícia
Spiller, e ela foi simplesmente magistral na leitura. Brinco dizendo que
lá do alto Jacobina disse "é ela". Letícia se dedicou muito
ao papel e foi um prazer trabalhar com ela. Tenho certeza de que com
Jacobina, ela será alçada ao primeiro time de atrizes.
De que forma você trabalhou com o elenco?
Neste filme, usei pela primeira vez duas ensaiadoras, Dora Pellegrino,
minha ex-mulher e atriz, e a diretora de teatro que trabalhou na Alemanha,
Nehle Franke (Divinas Palavras, Roberto Zucco). Queria os atores quentes
quando a câmera começasse a rodar, e enquanto esperavam, ensaiavam.
Tivemos também uma fonoaudióloga, Ana Frota, para tirar qualquer sotaque
dos atores. Devo dizer que fiquei muito satisfeito com todo o elenco:
Talita Castro, paulista, filha do ator Everton Castro, fez Bicho de Sete
Cabeças e tem um potencial enorme, Thereza Mascarenhas, que faz a mãe,
morou um tempo fora e apresentou um ótimo rendimento. No filme, não há
um protagonista masculino mais importante, pois Jacobina atua como eixo
catalisador e vive cercada de homens: seu antagonista é Pastor Boeber,
que Antônio Calloni interpreta magnificamente; Thiago Lacerda, a primeira
paixão de Jacobina, tem uma star quality para estourar no cenário
internacional. Conheço Alexandre Paternost, que interpreta o marido,
desde O Quatrilho e está cada vez melhor. As interpretações são bem
diversificadas - Caco Ciocler como o delegado está excelente, e Leon
Góes tem um trabalho de composição excepcional como Jacó Mula.
Às vésperas do lançamento, como você define A Paixão de Jacobina?
Um épico bíblico na época da globalização que tem como um dos
principais pontos a afirmação das identidades individuais e nacionais.
Para mim, A Paixão de Jacobina é um libelo antiglobalização pela
liberdade de expressão e contra o terrorismo econômico que provoca a
reação dos fanáticos.
Qual seria a ligação de Jacobina com seus filmes anteriores?
Um tema recorrente nos meus filmes é a luta do indivíduo para ser livre.
Para isso, ele deve transgredir a ordem e as leis. E muitas vezes, esses
comportamentos transgressores modificam instituições arcaicas,
permitindo um avanço social e uma visão de mundo mais progressista. Acho
que a luta de pessoas fiéis a si mesmas está presente em todos meus
filmes, da Amazônia ao Rio Grande do Sul, por mais diferentes que sejam
os contextos, as épocas e motivações dos personagens- o que vale para
Índia, Luzia Homem, Bela Donna, as mulheres de O Quatrilho e, sem
dúvida, A Paixão de Jacobina.
Quais as suas expectativas com o filme? Repetir o percurso vitorioso de O
Quatrilho no país e chegar ao Oscar?
Não espero nada e não crio expectativas. O filme já valeu pelo
processo, e qualquer resultado é lucro. Seguiremos o mesmo caminho de O
Quatrilho, que teve de 30% a 40% de sua bilheteria no Sul, região que
normalmente responde por 10% do público. Eu gostaria de ter de novo a
oportunidade de representar o Brasil no Oscar. Sei que há muitos bons
filmes a caminho, mas no ano que concorri, fiquei entre os cinco
indicados. O Quatrilho era mais terno, mais amoroso, e Jacobina fala de
violência, fanatismo, guerra - e a heroína morre no final. Mas é mais
vigoroso, e pode bater no coração do espectador e fazer pensar e
emocionar. E apesar de ser de época, seu tema não poderia ser mais
atual: excluídos sociais se reúnem, ficam mais fortes, ameaçam e são
massacrados pelo status quo.
Letícia Spiller / Jacobina
Letícia Spiller foi gerada em São Leopoldo, nasceu em junho e teve seis
irmãos - exatamente como Jacobina. Essas coincidências, no entanto, não
esgotam os vários níveis de identificação que a atriz estabeleceu com
a personagem. "Eu defendo Jacobina", assegura, enfática, a bela
atriz que chegou ao papel através de várias linhas que se cruzaram e que
tiveram como resultado uma total entrega da atriz à personagem.
Ter encarnado Jacobina é certamente uma prova do amadurecimento
artístico de Letícia Spiller, que começou como Paquita, no show da
Xuxa, e atingiu grande popularidade em trabalhos na tv como Despedida de
Solteiro, O Rei do Gado, Zazá, Suave Veneno, Esplendor, Quatro Por
Quatro.
Estreou no cinema com o curta O Pulso, de José Pedro Goulart, seguido dos
longas Oriundi, de Ricardo Bravo, e Villa-Lobos, Uma Vida de Paixão, de
Zelito Viana. No teatro, fez O Falcão e O Imperador, baseada em texto de
Nikos Kazantzakis.
Como Jacobina apareceu em sua vida?
Quando eu estava fazendo Oriundi, em Curitiba, um produtor local me deu o
livro Videiras de Cristal que estava sendo lançado. Disse que o Fábio
Barreto estava preparando um filme inspirado no livro e foi enfático:
"Quero que você leia". Li e fiquei apaixonada. Jacobina viveu
em um contexto social muito importante. Era uma mulher que lutava pela
liberdade, não apenas a dela, mas de todas as pessoas. Uma visionária,
cuja história iria repercutir muito depois. O filme é o reflexo desse
grito de Jacobina, e se surge agora, não é à toa.
E como você chegou ao papel?
Por várias coincidências. Pouco tempo depois de ler Videiras de Cristal
comecei a preparar a peça O Falcão e O Imperador, de Nikos Kazantzakis,
outro visionário. E as duas coisas se juntaram em uma época em que a
minha vida estava mudando e tudo foi se encaminhando para uma filosofia de
vida em que eu acredito. Por outra coincidência, O Falcão e O Imperador
estreou em Porto Alegre, justamente quando o Fábio estava realizando
testes para Jacobina. Disseram que ele tinha pensado em mim, mas mudado de
idéia porque eu tinha raspado a cabeça. Acabei fazendo o teste, ele foi
ver a peça e me disse: Jacobina já está pronta. De fato, a peça, pelos
textos filosóficos e religiosos, bíblicos e budistas, funcionou como um
laboratório para o filme.
Quer dizer que você já chegou ao papel aquecida?
Do ponto de vista emocional acho que sim, pois Jacobina tinha muito a ver
com o texto do teatro. A aproximação da personagem teve várias fases.
Comecei gravando o canto, e depois comecei a me preparar nos ensaios com a
Nehle Franke e a Dora Pellegrino, que me passaram exercícios de
aquecimento muito rápidos do corpo e dos reflexos, começando pela parte
vocal. O resultado é que passei o tempo todo concentrada, o que combina
com o meu temperamento: não consigo ficar no set sem esta concentração
total , o que aconteceu desde o meu primeiro filme, O Pulso, que por outra
coincidência era com Werner Schunemann, que faz o médico de Jacobina.
Mas em O Pulso, a médica era eu...
E qual o maior desafio do papel?
Eu queria defender a Jacobina!
Mais que o Fábio?
Acho que tanto quanto o Fábio. O filme é do diretor e o ator é apenas
uma cor desse quadro. A minha preocupação foi dar o máximo, me
entregar. Quando você está apaixonado, a coisa toma posse da gente. Como
aconteceu na peça. Embora cinema e teatro sejam diferentes, eu fazia uma
oração para me colocar totalmente disponível para o papel, para viver
intensamente aquele momento.
E como foi interpretar uma personagem feminina tão forte cercada de
tantos personagens masculinos?
Pois é, ela foi uma líder em uma época em que uma mulher com poder era
inconcebível. Muitos homens se renderam a Jacobina que tinha um poder de
persuasão muito grande. Ela se dava, olhava, zelava pelos pobres. Era
tomada por esse desejo de doação como uma missão.
Pelo seu entusiasmo com a personagem, você também vê a sua
interpretação de Jacobina como uma missão?
Eu acredito na Jacobina. Há várias versões para o seu comportamento e
eu li muitos livros - contra e favor -, estudei documentos históricos e
conversei muito com o Fábio. Tomei partido dela.
E como foi a entrega à personagem?
Muito prazerosa embora difícil. Aliás, para mim nada é fácil. Sempre
acho que poderia ter sido melhor e nunca estou tranqüila.
Quais as cenas mais difíceis?
As cenas de pregação, com texto do Evangelho - eram difíceis de
interpretar porque não são do cotidiano. Jacobina pregava de uma forma
muito apaixonada e imperativa. O discurso que faz em cima da árvore, por
exemplo, - quando diz "não vim trazer a paz, mas a espada", é
do Evangelho Segundo Mateus. Aliás, todas as suas pregações são
tiradas da Bíblia. Também era difícil representar a Jacobina jovem,
quando ela ainda não tinha o poder que a marcaria. A cena final, com
fogo, exigiu uma atenção redobrada - afinal, o fogo era real, as coisas
desabavam. Já para as cenas em que Jacobina tem visões, usei o instinto
e acho que o trabalho com Nehle e Dora foi fundamental. No todo, adorei
trabalhar com o Fábio, viramos amigos. Além de ótimo diretor ele
trabalha para unir a equipe, o que cria um clima ótimo. E aconteceu uma
coisa incrível. Filmamos a cena em que Jacobina anuncia o final dos
tempos e diz que "desta vez não virá pela água, mas pelo
fogo", exatamente no dia 11 de setembro. Fiz a cena sem saber o que
tinha acontecido, e depois fiquei meio lesada.
O que ficou de Jacobina para você?
Ela era uma idealista e falava muito do momento presente. Ela não tem
medo da morte, porque para ela, a vida na verdade só começaria quando
morresse. Acho que Jacobina conta a história de um grito que ecoa. E ela
sabia que ia deixar um grito de liberdade que não ia ser imediato, mas
para os que viriam. Jacobina ajudava os pobres que não tinham condições
de ir à Igreja. E cuidou daqueles que na época eram os excluídos, os
sem terra de hoje. Ela abraçou essa gente, ofereceu um lar, medicava e
curava com remédios naturais. Eu acho que os Mucker foram massacrados
pela Igreja e pelas entidades políticas. Com seu grito de liberdade,
Jacobina deixou uma semente: ela traz uma mensagem contemporânea para
tempos tão conturbados.
Atores / Depoimentos
Thiago Lacerda / Franz
Depois de um pequeno papel em Malhação, participou de Hilda Furacão,
Pecado Capital, e da minissérie Aquarela do Brasil até explodir como
galã nacional como Matheu em Terra Nostra. A Paixão de Jacobina marca a
sua estréia no cinema.
"Sempre quis fazer cinema e, por vários motivos, A Paixão de
Jacobina foi uma estréia muito especial: não só descobri uma outra
linguagem como tive a oportunidade de trabalhar com Fábio Barreto e com a
Letícia. Com o cinema, descobri um novo espaço para atuar - mais amplo e
com um ritmo diferente da TV, e com mais oportunidades de trabalhar as
cenas.
Tenho grande fascínio por personagens de época, e Franz é um personagem
bem definido e sustentado por um ótimo roteiro. Eu o vejo como um rapaz
extremamente forte e de criação rígida que se apaixona perdidamente
pela prima (Jacobina). A princípio, os dois são ligados por um grande
desejos sexual mas, com o tempo, este sentimento se transforma. O filme
aborda com muita inteligência questões sociais, religiosas e históricas
e tenho certeza de que tem todos os elementos para tocar fundo o
espectador".
Alexandre Paternost / Maurer
Com A Paixão de Jacobina, Alexandre Paternost tem sua segunda parceria
com Fábio Barreto, depois de O Quatrilho, em que interpretava Ângelo, o
marido abandonado da trama. Paulista, de formação teatral, atuou em
várias peças em São Paulo: Concílio do Amor e A Vida É Sonho, com
direção de Gabriel Villela, Fragmentos de Um Discurso Amoroso e
Pantaleão e as Visitadores, com direção de Ulysses Cruz, entre muitas
outras. Estreou no cinema com Perfume de Gardênia, de Guilherme de
Almeida Prado, seguido de A Causa Secreta, de Sérgio Bianchi, O
Cangaceiro, de Aníbal Massaini, O Dono do Mar, de Odorico Mendes, e
Concerto Campestre, de Henrique de Freitas Lima.
"Com Jacobina voltei a filmar com Fábio e com praticamente toda a
equipe de O Quatrilho. Desde que ouvi falar no projeto fiquei interessado.
Jorge Maurer é um curandeiro que tem seu espaço e seus clientes. Quando
encontra Jacobina, tenta ajudá-la e casam-se. Ele acompanha toda a
transformação de Jacobina, e embora seja anulado por ela como marido,
ele continua com seu trabalho com dignidade. É um personagem que fica em
segundo plano depois que ela conquista seus fiéis, mas preserva a
dignidade de um médico. Mesmo depois que perde o título de marido, ele
continua apoiando Jacobina, que é dividida por todos os homens e ele se
transforma em mais um integrante da seita Acho essa atitude bonita,
principalmente para a época em que a história se passa".
João Lehn / Caco Ciocler
Paulista, começou no teatro amador aos 10 anos. Elogiado por sua
versatilidade, esteve nas novelas Um Anjo Caiu do Céu, A Muralha, O Rei
do Gado, O Amor está no Ar e na peça Êxtase, de Caio Blat.
Estreou no cinema com O Xangô de Baker Street, de Miguel Faria Jr,
seguido de Bicho de Sete Cabeças (Laís Bodansky), Minha Vida Em Suas
Mãos (José Antônio Garcia), Avassaladoras (Mara Mourão) e também Lara
(Ana Maria Magalhães) e Desmundo, de Alain Fresnot.
"No início da história, o delegado João Lehn era uma espécie de
guarda de quarteirão de uma cidadezinha pacata. Exercia sua autoridade,
era casado e tinha um caso de amor secreto com Elizabeth Carolina, cunhada
de Jacobina. No entanto, quando o conflito eclode, ele revela a sua
ambigüidade. Ele fica dividido entre mandar destruir a aldeia de Jacobina
e sua paixão por Elizabeth. Quando deve tomar uma posição, seus
conflitos humanos aparecem. Tentei criar um personagem que tenta ser
autoritário enquanto está "tudo bem", mas se desmonta
justamente por causa dos conflitos que vive. Ao final do filme, acho que
ele é um personagem bem mais humano do que no início".
Antônio Calloni / Pastor Boeber
De formação teatral, participou das companhias Célia Helena e do CPT de
Antunes Filho, em São Paulo. Entre seus trabalhos na TV, destacam-se Os
Maias, O Dono do Mundo, Terra Nostra, Era Uma Vez, Zazá, e o marcante
papel de Mohamed em O Clone. Atuou nos filmes Outras Estórias (Pedro Bial),
16060 (Diogo Mainardi) Policarpo Quaresma, Herói do Brasil (Paulo Thiago)
e nos curtas Lápide, de Paulo Morelli, e Happy Hour, de Dodô Brandão.
É autor do livro Os Infantes de Dezembro.
"Pastor Boeber é um personagem fantástico, o grande antagonista de
Jacobina. Tive a preocupação de matizar suas reações, não mostrá-lo
de uma forma maniqueísta. Ele tenta convencer Jacobina a permanecer na
Igreja e tem suas razões para combater a seita. No início, ele tenta
resolver a situação através da palavra, mas quando não consegue, acaba
tomando uma decisão drástica, juntamente com o delegado João Lehn. Fiz
o personagem com muito cuidado para humanizá-lo e não apresentá-lo
simplesmente como o vilão da história. Não diria que fui inspirado, mas
fiquei muito impressionado com a atuação de Anthony Hopkins como pastor
de um filme que nem sei o nome. Um padre da região me deu um livro sobre
os pastores protestantes que também ajudou na criação do
personagem."
Felipe Camargo / Coronel Genuíno
Consagrado como um jovem apaixonado em Anos Dourados, transformou-se em
dos mais populares atores de TV. Entre seus trabalhos estão as novelas e
seriados Um Anjo Caiu do Céu, Andando nas Nuvens, Corpo Dourado, A Idade
da Loba, Pátria Minha, Despedida de Solteiro, O Sexo dos Anjos, Mandala,
Roda de Fogo. No cinema, atuou em Urubus e Papagaios e A Maldição de
Sanpaku, de José Joffily, O Dia da Caça, de Alberto Graça, e no média
metragem Maria da Graça, ainda inédito.
"A Paixão de Jacobina foi meu primeiro trabalho de época - até
então, só tinha retrocedido aos anos 50. Para representar este
personagem histórico, herói da guerra do Paraguai, segui basicamente a
intuição que a situação pedia - além de aprender a montar a cavalo
com uma certa elegância. Como veterano de uma guerra marcada por muitas
chacinas, ele chegou de forma arrogante e prepotente para combater os
Mucker. E ficou surpreso de ver a reação de uma seita comandada por uma
mulher. Quando ele se prepara para um segundo ataque, morre, preservando
os mesmos traços de arrogância e prepotência. Embora seja um personagem
de efeito, foi preparado com muito cuidado e foi ótimo de fazer".
Leon Góes / Jacó Mula
Nascido em Natal, Leon Góes é um dos atores mais talentosos de sua
geração. Através de várias parcerias com o irmão, o inovador diretor
de teatro Moacyr Góes, o ator vem brindando o público com atuações
primorosas. Em 1988 recebeu o prêmio Mambembe de ator revelação por
Baal, e dois anos depois um Molière por Escola de Bufões. Atuou também
nas peças Livro de Jó, Fausto, Romeu e Julieta, Gigante da Montanha,
Epifanias, Trilogia Tebana, e, mais recentemente Bispo Jesus do Rosário,
a via sacra dos contrários, Bonitinha, mas Ordinária, O Doente
Imaginário e uma versão de Pinóquio para adultos. Sua próxima peça
será Chico Doido de Caicó. No cinema, fez Veja Esta Canção e Tieta do
Agreste, de Carlos Diegues. Atuou na novela Laços de Família.
"Jacó Mula foi tão bom de fazer, que foi quase como fazer teatro. E
na verdade, a preparação do personagem foi teatral, com ensaios e
laboratórios, pesquisa e acompanhamento de Nehle Franke e Dora
Pellegrino. Acho que o pulo do gato do Fábio neste filme foi colocar
diretor de teatro para trabalhar com o elenco. Tive tempo e meios de
trabalhar o personagem. Jacó Mula tem uma certa inocência, tudo para ele
é literal, não existe metáfora Quando ele diz que Jacobina só tem
alma, é verdade, ele não enxerga o corpo. Ele é pura sensibilidade e
totalmente devoto à Jacobina, que chama de Mãe. A repetição das
palavras de Jacó Mula surgiu nos ensaios, e no começo eu fiquei
temeroso, será que podia desrespeitar o roteiro? Tive medo de fazer uma
coisa piegas, mas tenho total confiança no Fábio, que foi muito
generoso. Até porque quando ele me chamou para fazer um teste para O
Quatrilho eu disse, "não faço teste", e hoje morro de vergonha
dessa bobagem. Fiz o teste para Jacó com 39 graus de febre - e acho que
foi bom, o personagem é meio febril. Ele é de uma ingenuidade total. Uma
criança que não cresceu".
Felipe Kannemberg / Robinson
Nascido em Novo Hamburgo, filho de pastor luterano, Felipe Kannemberg
cresceu ouvindo a história dos Mucker e opiniões conflitantes sobre
Jacobina. Ele estava no Festival de Gramado quando Horst Volker sugeriu a
Fábio Barreto um filme sobre a colonização alemã no Rio Grande do Sul,
ocasião em que conheceu Marcelo Santiago, assistente de Fábio em O
Quatrilho e A Paixão de Jacobina. Desde então, lembra, "fazia
visitas a Marcelo de olho no filme - foi perseguição mesmo". Com
uma participação no longa Louco por Cinema, de André Oliveira, e
assistente de produção de Cronicamente Inviável, de Sérgio Bianchi,
Felipe tinha certeza de que um filme sobre Jacobina deveria ter um papel
para ele. E mais: seu tataravô, também pastor luterano, tem textos
citados no livro Videiras de Cristal, origem do filme. Felipe acha que
além da insistência junto a Marcelo Santiago, a sua atuação como um
alemão na minissérie Aquarela do Brasil colaborou para que interpretasse
Robinson, o cão de guarda de Jacobina.
"Robinson é um veterano da Guerra do Paraguai e representa também o
primeiro milagre de Jacobina. Ele volta da guerra ferido na perna, e sua
última esperança era ser curado por Maurer. Mas é Jacobina quem lhe
propicia uma nova vida. Robinson transforma-se então em seu cão de
guarda e passará a comandar todas as atrocidades da seita. É um
personagem contraditório porque soma fidelidade canina e violência que
ele trouxe da Guerra do Paraguai. E se Jacó Mula é a mão boa de
Jacobina, Robinson será sua mão pesada. Enquanto Jacó Mula, com amor
dá a outra face, Robinson faz qualquer coisa "por amor", até
mesmo matar.
Como cresci ouvindo várias versões sobre Jacobina, e no Sul, as
opiniões continuam divididas, acho interessante ver como novas
discussões surgiram a partir do filme. Os alemães têm muitos tabus, mas
com as filmagens, voltou-se a falar no assunto e hoje ele é debatido sem
medo. Para mim, Jacobina era uma alma boa que acolhia quem estava
precisando de ajuda, a atitude mais próxima de Cristo que pode
haver".
Werner Schunemann / Dr. Hillebrandt
Diretor e ator, faz parte da geração super-8 que renovou o cinema
gaúcho nos anos 80.
Dirigiu o longas Coisa na roda (1981), em super-8, e depois, em 35 mm Me
Beija (1983) e O Mentiroso (1987). Como ator, trabalhou no premiado curta
O Pulso, ao lado de Letícia Spiller, no longa Tolerância, e ganhou o
prêmio de melhor ator em Brasília em 2001 por Netto Perde a Sua Alma.
Presidente em segunda gestão da Fundacine (Fundação Cinema RS) está
finalizando o longa O Mar Doce.
Antes de pensar em fazer cinema, Werner Schunemann decidiu estudar
história inspirado justamente pela história de Jacobina e dos Mucker,
que ouvia desde criança em Novo Hamburgo, onde nasceu.
"Eu era fascinado pela história dos Mucker - li todos os livros,
ensaios, monografias. E um dos aspectos que mais me impressionava era como
o assunto era tabu na colônia alemã, uma mancha negra entre os
descendentes - porque todos tinham a mão suja, ou porque fizeram ou
porque foram coniventes. E o que mais me impactava era a idéia de que
haviam sido massacrados. Aos 12 anos li Os Sertões, e pensei que 25 anos
antes tinha acontecido uma coisa semelhante no Sul, só que não houve um
Euclides da Cunha para fazer um relato de importância literária. Os
relatos existentes, na maioria escritos por padres, eram preconceituosos e
parciais. Por tudo isso tive grande orgulho em interpretar o Dr.
Hillebrandt, que foi uma grande liderança da colônia alemã. Era muito
instruído e atuava como interlocutor junto aos poderes públicos
representando os interesses dos recém-chegados. Hoje, ele é nome de rua
em São Leopoldo, Novo Hamburgo, Porto Alegre. Ele tinha uma relação
paternal com os membros da comunidade, que confiavam nele e no seu sentido
de justiça.
O médico tem um grande envolvimento com Jacobina através de uma
abordagem humana e a defende na Santa Casa. Não a achava louca, e sim que
podia sofrer pressões demais e por isso se refugiava em um comportamento
esquisito. Sempre foi um aliado de Jacobina e apóia a presença do
exército como um mal necessário. Ele quer evitar o massacre e dá
várias pistas do que vai acontecer. Gostei de fazer um filme que o Fábio
tratou de maneira carinhosa - a história real é muito mais sangrenta. Eu
quis ter com o personagem o mesmo respeito que Fábio estava tendo com o
assunto.
Acho que nenhum filme vai esgotar o assunto e o maior mérito de Jacobina
é trazer o assunto para a sala de visita dos descendentes de
alemães".
Hélio Eichbauer / Direção de Arte
Um dos mais renomados cenógrafos do país - com criações históricas no
palco, entre elas a de O Rei da Vela, em 1967 - desenvolveu também um
importante trabalho no cinema. Entre seus filmes como diretor de arte
estão Tudo Bem (Arnaldo Jabor), O Dragão da Maldade Contra o Santo
Guerreiro (Glauber Rocha), O Homem do Pau Brasil (Joaquim Pedro de
Andrade), Gabriela (Bruno Barreto), Kuarup (Ruy Guerra). Jacobina marca a
segunda parceria com Fabio Barreto, depois de Bela Donna. Desta vez,
Eichbauer trocou a paisagem solar das praias nordestinas pelas planícies
de clima temperado do interior gaúcho. E retrocedeu a meados do século
XIX para ambientar a história de Jacobina e seus seguidores até o
confronto com forças do Exército Imperial.
Hélio Eichbauer sintetiza em uma palavra o conceito de direção de arte
adotado em Jacobina: autenticidade. E explica: "As locações em
Sapiranga, Novo Hamburgo, São Leopoldo e Lajeado eram de fato os locais
onde os fatos históricos ocorreram. Os móveis e objetos das casas
também são de época, generosamente cedidos pelos museus de
colonização da região. Nossa intenção foi imprimir o máximo de
autenticidade dentro do espírito de sobriedade da colônia alemã da
época."
Durante um ano, Eichbauer realizou intensa pesquisa iconográfica e
acompanhou a escolha das locações. "É difícil filmar o século
XIX no Brasil, porque a maioria das cidades foi muito mexida e alterada.
As regiões rurais, no entanto, estão mais preservadas, com suas fazendas
de época e pequenas cidades". Ele assinala também que os móveis e
objetos utilizados, simples e rústicos, eram feitos pelos fazendeiros e
artesãos que vieram na leva imigratória e também estão preservados nos
museus. "Os únicos enfeites das paredes eram panos com temas
bíblicos bordados pelas mulheres ".
Eichbauaer observa que mesmo quando a locação não era original, se
buscou a autenticidade: as cenas da rua de Sapiranga foram filmadas no
Parque dos Imigrantes de Lajeado, construído a partir de casas originais
desmontadas e remontadas para este espaço histórico. A estação de trem
de São Leopoldo, justamente inaugurada para trazer as tropas para
combater Jacobina, também foi filmada. A única criação cenográfica
foi a construção de um galpão transformado em templo e cenário do
grande incêndio - acompanhado por muitos bombeiros. "Não tinha como
botar fogo em um cenário original", brinca.
Parte das armas dos soldados que combatem Jacobina também era original:
"Espadas, garruchas e fuzis vieram de museus. Apenas as armas que
atiravam foram criadas pelo departamento de efeitos especiais, assim como
os quatro canhões, réplicas exatas dos que se encontram em museus,
remanescentes da Guerra do Paraguai".
Diana Eichbauer / Figurinos
Criadora de figurinos para ópera e teatro, e irmã de Hélio Eichbauer,
tem entre seus trabalhos para cinema Inocência (Walter Lima Jr), O Homem
do Pau Brasil (Joaquim Pedro de Andrade), Gabriela (Bruno Barreto), e mais
recentemente Eu não conhecia Tururu, de Florinda Bolkan. Repete com
Fábio Barreto a parceria de Bela Donna.
Em trabalho desenvolvido junto à direção de arte, Diana pesquisou boa
parte dos figurinos em fotografias e livros cedidos por historiadores
gaúchos e no Museu Histórico do Rio de Janeiro. E não buscava apenas
"os modelos", mas também o procedimento, a forma de fazer.
"A opção pelo estilo alemão, bem fechado foi inspirada em uma
tapeçaria alemã do século XIX", revela.
Nessa opção, as cores claras foram banidas dos figurinos:
"Predominam o verde escuro, o cinza, o preto, o marrom escuro e o
azul marinho das fardas dos soldados. O tom escuro correspondia ao
comportamento rígido da colônia alemã somado ao fanatismo religioso.
Nesse contexto, não havia espaço para tons vivos como vermelho ou
amarelo", explica. Diz também que a opção da noiva vestir preto é
rigorosamente verdadeira: "Descobrimos em museus da região que as
noivas se casavam assim".
Para vestir atores e os 2.500 figurantes foram executadas cerca de 2 mil
peças de roupa e montado um ateliê com um contra mestre, seis
costureiras, um assistente e duas camareiras: O trabalho foi dividido em
núcleos - a colônia Jacobina, as ruas de Porto Alegre, a cidade de
Sapiranga, e ainda o núcleo do Exército. "Apenas as 100 fardas dos
soldados foram feitas no Rio e são réplicas exatas das que foram usadas
na Guerra do Paraguai - da lã militar aos cintos ", ressalva Diana.
E conclui: "Foi um trabalho duro, mas muito interessante, e acho que
o resultado transmite exatamente o que Fábio pensou. Fomos fiéis à
época e à carga dramática do episódio".
Felix Monti / Diretor de Fotografia
Nascido na Argentina, Felix Monti traz no currículo a direção de
fotografia de importantes produções de seu país, como A História
Oficial (Oscar de melhor filme estrangeiro em 1985), de Luiz Puenzo, com
quem trabalhou novamente em Gringo Viejo (com Jane Fonda e Gregory Peck) e
A Peste, com Robert Duval e William Hurt. Para o diretor Fernando Solanas
fotografou Tangos, o Exílio de Gardel, Sur e A Viagem. Entre seus outros
filmes, destaca-se também De Amor e de Sombras, de Betty Kaplan, baseado
em livro de Isabel Allende e estrelado por Antonio Banderas.
Entre 1966 e 1970 Felix Monti viveu no Brasil e trabalhou em publicidade
no Rio e São Paulo. No entanto, sua ligação com o cinema brasileiro
começou com o convite para assinar a fotografia de O Quatrilho, indicado
para o Oscar de melhor filme estrangeiro, assim como seu trabalho
seguinte, O Que é Isso Companheiro?. A parceria com o país continuou com
Bela Donna, Eu Não Conhecia Tururu (Florinda Bolkan), O Auto da
Compadecida (Guel Arraes) e A Partilha (Daniel Filho).
"Quando cheguei para filmar O Quatrilho, não lembro porque, viajei
do aeroporto à locação em uma ambulância - eu estava saudável e cheio
de força. Desta vez, não havia ambulância na chegada, mas eu não me
sentia bem. Comecei a trabalhar graças à ajuda de Lucy e Luiz Carlos.
Sem esse apoio, eu não conseguiria.
A Paixão de Jacobina, como O Quatrilho, conta a história de imigrantes.
Uma história de culturas que se cruzam, de passados que não se
desprendem e que se misturam no novo mundo. Esses alemães trouxeram
consigo tudo de sua terra. Construíram suas casas como eram as casas que
deixaram, plantaram as hortas como eram as suas hortas. Nesta
transposição, encontravam-se também suas crenças. Velhas recordações
esquecidas de uma primeira época do cristianismo na chegada às tribos
germânicas. Os apóstatas, os Mucker. Tudo isso nos provoca um clima.
Inclinei-me então pelo romantismo sombrio do pintor alemão Gaspar
Friedrich (1774-1840). No entanto, a realidade na qual Jacobina cresce é
uma época marcada pelo terror e pela vergonha da guerra da Tríplice
Aliança. E neste mundo, foram os quadros de guerra de Candido Lopéz que
me assinalaram um caminho. A imagem foi tomando forma nesta união de
Friedrich e a ingenuidade de Lopez, acompanhando Hélio Eichbauer em seu
projeto de direção de arte.
Pude observar Letícia Spiller ir se fundindo com Jacobina. Dia a dia,
Letícia entrava neste mundo cheio de forças terríveis, cheia de
energia. Incansável, sem um casaco, no meio da chuva e do barro. Seu
trabalho é admirável.
Fábio usou duas posições de câmera simultâneas para filmar os
diálogos. Assim, os atores puderam contracenar e desenvolver toda a cena
sem cortes, o que enriquece a interpretação: os atores se olham nos
olhos. Quando se usa apenas uma câmera, o ator fala para o olho de vidro
da lente. Para a imagem, não é fácil obter a luz ideal ou a posição
da câmera nos dois ângulos. Creio que este é um ponto a ser discutido -
onde e quando é importante perder algo para ganhar algo. O cinema
americano trabalha com duas câmeras, como fez Robert Duvall no filme que
dirigiu e que terminei pouco antes de começar Jacobina.
Embora a minha relação com o cinema brasileiro tenha começado com O
Quatrilho, na verdade a minha relação com "os Barretos"
começou muito antes de nos conhecermos, quando vi Vidas Secas. A luz de
Luiz Carlos é a protagonista daquela história e aquela história é
aquela luz que com as imagens de Gabriel Figueroa estão entre os momentos
mais altos de nossa fotografia.
Desde que Luiz Carlos me convidou para O Quatrilho, nossa relação vem se
aprofundando e Fábio é realmente o diretor de quem me sinto mais
próximo".
Mair Tavares - Montador
Um dos mais experientes montadores do cinema brasileiro, apresenta um
currículo diversificado, que abrange vários gêneros e estilos, do
cinema underground a grandes produções. Entre seus muitos trabalhos,
destacam-se: O Anjo Nasceu e A Família do Barulho (Júlio Bressane), Xica
da Silva, Chuvas de Verão, Bye-Bye Brasil, Quilombo, Veja Esta Canção e
Tieta do Agreste (Cacá Diegues), A Lira do Delírio e Ele, o Boto (Walter
Lima Jr.), Eu Te Amo e Eu Sei que Vou Te Amar (Arnaldo Jabor), Ópera do
Malandro, A Bela Palomeira, Quarup e Estorvo (Ruy Guerra).
Com O Quatrilho, ao lado de Karen Harley, Mair Tavares foi pioneiro no
país na edição de imagens com tecnologia Macintosh através do programa
Avid.
A Paixão de Jacobina marca a sua segunda parceria com o diretor Fábio
Barreto.
Jaques Morelenbaum - Trilha Sonora
Como compositor, arranjador, diretor musical, violoncelista e produtor
musical, Jaques Morelenbaum tem uma extensa lista de parceiros e
colaboradores. Durante dez anos, acompanhou Tom Jobim em turnês
internacionais com a Banda Nova e após a morte do compositor continua a
divulgar a obra do grande mestre com o quarteto Jobim/Morelenbaum.
Ao longo dos anos, Jaques Morelenbaum estabeleceu inúmeras parcerias e
criou arranjos marcantes para artistas como Egberto Gismonti, Caetano
Veloso, Chico Buarque, Gal Costa, Danielle Mercury, Marisa Monte,
Carlinhos Brown, entre muitos outros. Entre seus parceiros internacionais
destaca-se o trabalho desenvolvido com o pianista japonês Ryuchi Sakamoto
desde meados dos anos 90.
Para o cinema, compôs as trilhas sonoras de O Quatrilho, Tieta do Agreste
(com Caetano Veloso) e Central do Brasil (com Antônio Pinto).
A Paixão de Jacobina marca a sua segunda parceria com o diretor Fábio
Barreto.
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