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A Paixão de Jacobina


Apresentação

Seis anos depois de O Quatrilho, Fábio Barreto voltou ao Rio Grande do Sul para revelar mais uma página pouco conhecida da colonização no Estado, desta vez com foco na imigração alemã: A Paixão de Jacobina, que tem como personagem principal uma polêmica líder religiosa que liderou a revolta dos Mucker em 1874.

Cristo-Mulher para alguns, farsante, para outros, a história de Jacobina chega às telas com Letícia Spiller no papel título e grande elenco formado por Thiago Lacerda, Alexandre Paternost, Caco Ciocler, Antônio Calloni, Leon Góes, Felipe Camargo e muitos outros.

Com orçamento de R$ 8 milhões e 500 mil, A Paixão de Jacobina reconstitui um importante fato histórico que culminou com o massacre da comunidade Mucker por tropas do Exército Imperial. Para levar essa história à tela, a produção contou com 156 personagens, 2.500 figurantes e o trabalho de 103 técnicos. As filmagens foram realizadas nos principais centros da colônia alemã - Vale dos Sinos e Vale do Taquari onde a história de Jacobina aconteceu.

Baseado no livro Videiras de Cristal do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, A Paixão de Jacobina tem roteiro de Leopoldo Serran, parceiro habitual do diretor. O roteiro teve colaboração de José Almino Arraes e Ana Maria Miranda e revisão final de Marcelo Santiago e Fábio Barreto. As pregações de Jacobina são tiradas da Bíblia - do Novo Testamento (Salmos, Mateus, Lamentações, Apocalipse e Joel).

Neste seu sexto longa-metragem, Fábio Barreto repetiu também outras parcerias: com o diretor de fotografia Felix Monti, o diretor de arte Hélio Eichbauer, a figurinista Diana Eichbauer, o técnico de som Cristiano Maciel, o montador Mair Tavares. O compositor Jaques Morelenbaum, assim como fez com O Quatrilho - assina a trilha musical inteiramente criada para o filme. A Paixão de Jacobina é uma produção L.C. Barreto e Filmes do Equador, co-produzido pela NGM (Gisele Hiltl) e pela PlayArte Pictures, com os produtores associados Labocine, Casablanca, Quanta e Mega.

Como aconteceu com O Quatrilho, A Paixão de Jacobina terá pré-estréia nacional com exibição hors-concours no Festival de Gramado, no dia 15 de agosto. No dia 30 de agosto, o filme entra em cartaz no Rio Grande do Sul e Santa Catarina e, no final de setembro, no Rio de Janeiro e São Paulo. O filme será acompanhado nos cinemas por um documentário de cinco minutos, "Heimat", que significa "querência" em alemão, com dados históricos e culturais sobre a colônia alemã gaúcha.

Antecedentes Históricos

A imigração alemã para o Rio Grande do Sul teve início em 1824. Colonos receberam propriedades e fundaram a cidade de São Leopoldo na região do Vale dos Sinos. Inicialmente, os imigrantes viveram uma experiência comunitária, com união das famílias em torno da religião e do trabalho. Com o tempo, alguns colonos prosperaram mais do que outros, surgindo desigualdades sociais e brigas entre as famílias.

Neste cenário, destacam-se o curandeiro João Jorge Maurer e sua mulher Jacobina que tinha o hábito de ler a Bíblia em sua comunidade. Portadora de poderes mediúnicos, incorporava Jesus Cristo e recitava trechos do Novo Testamento. Em pouco tempo, Jacobina transformou-se em líder de uma seita dissidente da Igreja Luterana. Ela pregava a cura dos males do corpo e a salvação da alma através da felicidade, liberdade e igualdade entre os seres humanos. Seus seguidores renegavam o dinheiro e trabalhavam as terras de forma comunitária.

Jacobina pregava que no Dia de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa, uma luz no céu daria o aviso de que o mundo seria consumido por chamas purificadoras. Rejeitados pela população, Jacobina e seus seguidores são chamados de Mucker - santo falso. Vários confrontos violentos ocorreram entre os dois lados.

Entre 28 de junho e 2 de agosto de 1874, tropas do Exército Imperial atacaram os Mucker. Jacobina e seus seguidores foram dizimados.

Personagens

Jacobina (Letícia Spiller) - Desde criança tem desmaios e mergulha em sonos profundos. Tem visões e diz que recebe mensagens de Jesus Cristo. Torna-se líder religiosa pregando passagens da Bíblia. Para seus seguidores, é Cristo Mulher. Para seus adversários, uma impostora.

Franz (Thiago Lacerda) - Primo de Jacobina e seu grande amor. Chamado para tentar trazer Jacobina à razão, está junto dela no massacre.

Maurer (Alexandre Paternost) - Curandeiro da região e marido de Jacobina. Assiste ao crescente domínio da mulher sobre a população.

João Lehn (Caco Ciocler) - Delegado da cidade. Apesar de casado, é apaixonado pela cunhada de Jacobina, Elizabeth Carolina, com quem mantém um romance.

Pastor Boeber (Antônio Calloni) - De formação luterana, acompanha perplexo o crescimento da seita de Jacobina. Transforma-se em seu maior opositor.

Elizabeth Carolina (Talita Castro) - Mulher de Francisco, irmão de Jacobina, abandona o marido para aderir à seita dos Mucker.

Francisco (Evandro Soldatelli) - Irmão de Jacobina, tem com ela uma relação marcada por conflitos.

Maria (Thereza Mascarenhas) - Mãe de Jacobina, acompanha a filha em sua opção religiosa.

Jacó-Mula (Leon Góes) - O maior adorador de Jacobina. Acostumado a ser maltratado por suas dificuldades mentais e motoras, vê Jacobina como uma mãe. É o Anjo de Jacobina, seu braço puro.

Robinson (Felipe Kannemberg) - O Demônio de Jacobina, é também seu braço violento. Alvo do primeiro milagre, executa os serviços sujos da seita.

Coronel Genuíno (Felipe Camargo) - Herói da Guerra do Paraguai, vem do Rio de Janeiro para liderar o exército brasileiro na luta contra os Mucker e morre.

Nadler (Zé Vitor Castiel) - Comerciante que adere à seita para depois traí-la. É o Judas de Jacobina.

Dr. Hillebrandt (Werner Schunemann) - Médico de Jacobina, tenta compreendê-la e antecipa o massacre.

Produtores: Lucy e Luiz Carlos Barreto - L.C. Barreto / Filmes do Equador

A Paixão de Jacobina, sétima produção L.C. Barreto / Filmes do Equador após a retomada, soma-se a mais de 70 filmes realizados por Lucy e Luiz Carlos Barreto em mais de quatro décadas de atividade.

Como os mais ativos produtores do país, orquestraram a realização de obras fundamentais na história do cinema brasileiro, como Assalto Ao Trem Pagador (Roberto Farias/ 1962), Vidas Secas (Nélson Pereira dos Santos/1963), O Padre e Moça (Joaquim Pedro de Andrade/1965), Bye-Bye Brazil (Carlos Diegues/1979), Inocência (Walter Lima Jr./1982), Memórias do Cárcere (Nelson Pereira dos Santos/1983), entre muitos outros. Dona Flor e Seus Dois Maridos (Bruno Barreto/1976) permanece como recordista absoluto de bilheteria no país, com mais 12 milhões de espectadores.

Das seis produções pós-retomada, duas concorreram ao Oscar de melhor filme estrangeiro: O Quatrilho (Fábio Barreto/1996), sobre a imigração italiana no Rio Grande do Sul no início do século; e O Que É Isso Companheiro? (Bruno Barreto /1998), inspirado em best-seller de Fernando Gabeira, sobre a resistência de estudantes e líderes políticos à ditadura militar nos anos 60.

As outras quatro produções seguiram a marca Lucy e L.C.Barreto de buscar novos modelos de produção e diversificação temática, estética e também geográfica: Bela Donna (Fábio Barreto/ 1998) abordava os conflitos de uma estrangeira no litoral cearense durante a Segunda Guerra. Uma Aventura do Zico (Antônio Carlos da Fontoura/1998) trazia o astro do futebol em uma aventura cheia de efeitos especiais. Bossa Nova (Bruno Barreto/ 1999) reunia Amy Irving e Antônio Fagundes em comédia romântica em um Rio de Janeiro como deveria ser. O documentário 2000 Nordestes focalizava o nordestino na virada do século, com direção de Vicente Amorim e David França Mendes.

O próximo projeto L.C. Barreto/Filmes do Equador terá novamente o Nordeste como cenário: O Caminho das Nuvens, com direção de Vicente Amorim, inspirado em fato real: uma família viaja do Nordeste ao Rio de bicicleta.

Depoimentos

Lucy Barreto: "A Paixão de Jacobina aborda uma preocupação muito atual de busca de sentido e resgata uma página da história do país pouco conhecida".

"Neste início de século vivemos momentos muito inquietantes e não só no Brasil. E em tempos de incerteza, proliferam seitas e crendices, o fanatismo aflora, a identidade de grupos é posta em questão. Depois da tragédia de 11 de setembro, esta questão ficou ainda mais evidente - e a história de atos extremos se repetiu.

Em fases de turbulências, há uma perda de identidade e de auto-estima na medida em que mitos são destruídos, rituais deixam de ser obedecidas, referências são abandonadas. Não raro, nesses momentos de grande insegurança, surgem líderes religiosos e gurus que exercem sua influência sobre comunidades, como aconteceu com Antônio Conselheiro, em Canudos, no final do século XIX. A influência também pode ocorrer em círculos de poder, como aconteceu na Rússia czarista, com Rasputin, e com a Rainha Juliana, da Holanda, durante a Segunda Guerra. Jacobina foi líder de uma seita religiosa no Rio Grande do Sul e morreu em 1874.

Sempre nos preocupamos em diversificar a produção e, por todos esses motivos, me pareceu que Fábio escolheu o momento certo para realizar A Paixão de Jacobina. Como pregadora, ela estava próxima a Spinoza, com um discurso hedonista de liberdade e felicidade. Ela diz para a cunhada Elizabeth Carolina, que abandona o marido, que seja livre e seja feliz. Em seus sermões bíblicos pregava que as pessoas não deviam ficar ansiosas pelo que comem, bebem ou pelas roupas que vestem - tópicos muito atuais nesses tempos de globalização e consumismo desenfreado. A globalização, aparentemente, nivela tudo, mas os desfavorecidos são excluídos do processo. Na pequena comunidade de Jacobina, tudo era de todos. É importante ressaltar que as pregações de Jacobina no filme são retiradas de passagens do Novo Testamento - Salmos, Mateus, Lamentações, Apocalipses. A pregação da árvore, por exemplo, reproduz exatamente trechos do capítulo X do livro de Mateus.

Jacobina chegou ao cinema com o conceito de grande produção, um filme de época, e seguiu o mesmo caminho de O Quatrilho, no sentido de contar com grande apoio das comunidades do Vale dos Sinos e Vale do Taquari, onde filmamos. Acompanhei de perto a elaboração do roteiro, que passou por diversas adaptações. Um dado importante da produção foi a integração de um grande número de atores gaúchos - excelentes. Por coincidência, Fábio já tinha dados cursos de interpretação no Rio Grande do Sul, e vários de seus alunos participaram do filme.

A Paixão de Jacobina aborda uma preocupação muito atual de busca de sentido, e resgata uma página da história do país pouco conhecida. O filme narra a história de uma mulher que segue o seu destino, subverte a ordem, combate a pobreza enorme com palavras de liberdade e ameaça a burguesia local. Uma personagem alemã que pregava a sensualidade e praticava o ósculo - suave beijo na boca como sinal de paz - com seus seguidores. Com Jacobina, as igrejas se esvaziam, a comunidade se revolta.

Na nossa experiência, sabemos que além de fazer um bom filme, ele tem que acontecer na hora certa. Tenho certeza de que A Paixão de Jacobina foi feito e será lançado da melhor maneira possível".

Luiz Carlos Barreto: Embora A Paixão de Jacobina tenha um grande interesse regional, o filme não visa apenas o público do Sul. O tema da fé e o confronto com os poderosos é universal.

"A Paixão de Jacobina nasceu no dia da primeira exibição de O Quatrilho no Festival de Gramado em 1995, quando o empresário Horst Volker, fundador da fábrica Ortopé deu o livro Videiras de Cristal a Fábio e disse: "Agora você tem que fazer um filme sobre os alemães". Fábio leu o livro e ficou apaixonado. E nós ficamos entusiasmados pela possibilidade de revelar novamente, através do cinema, aspectos desconhecidos da história do país.O episódio dos Mucker tem o mesmo significado de Canudos sem a conotação política. Jacobina professava um discurso de cunho mais religioso e social, transformou-se em líder religiosa e dos excluídos e assustou a comunidade conservadora.

Por que produzir e a quem pode interessar o projeto. Todo filme nasce dessas duas perguntas. Embora A Paixão de Jacobina tenha um grande interesse regional, o filme não visa apenas ao público do Sul. O tema da fé e o confronto com os poderosos é universal.

A questão seguinte é descobrir a maneira de fazer. A opção por um filme histórico exigia uma preparação consistente. Levamos dois anos de pesquisa para chegar a uma rigorosa reconstituição de época - de fatos históricos a costumes, figurinos, objetos - há mais de 3000 objetos de cena e foram feitas 2000 roupas, incluindo as fardas dos soldados do Exército Imperial. Foram também reconstituídos canhões que atiravam.

O roteiro passou por várias adaptações, pois lida com um fato polêmico ainda vivo no Sul do País, onde Jacobina continua tema de cantigas, brincadeiras e tabus. As famílias Maurer e Mentz têm descendentes e formam um novo casal: o marido é descendente dos Mentz, o lado de Jacobina, e a mulher dos Maurer (do marido João Jorge). O prefeito da cidade de Lajeado é tataraneto de um Mucker. Embora a maioria tenha sido dizimada, alguns seguidores se salvaram, escondendo-se em cavernas, como acontece no Afeganistão.

A concepção artística foi extremamente cuidada e contou com amplo levantamento iconográfico. Para a direção de fotografia, chamamos Felix Monti, profissional de grande cultura e profundo conhecedor de pintura clássica italiana e alemã, com experiência em produções internacionais de grande porte, como Gringo Viejo, com Jane Fonda e Gregory Peck. Hélio Eichbauer, um dos cenógrafos mais importantes do país, assina a direção de arte, e Diana Eichbauer, os figurinos.

O custo de A Paixão de Jacobina - cerca de R$ 8.500.000 - pode ser considerado alto para o Brasil, mas é certamente baixo para os valores de produção que estão na tela e que sem dúvida custariam de US$ 30 a 40 milhões nos Estados Unidos. O acabamento envolveu uma grande quantidade de efeitos especiais, como os meteoros e as visões de Jacobina. O filme apresenta de 12 a 15 minutos de efeitos digitais especiais que encarecem muito a produção.

Embora exista a tendência do cinema aproveitar uma música já existente, optamos pela criação de uma trilha original para ser usada como intervenção musical em função da linguagem - uma música de caráter narrativo. Posso dizer, sem medo de errar, que Jaques Morelenbaum criou uma das melhores trilhas sonoras já produzidas para um filme brasileiro.

Com A Paixão de Jacobina seguimos o caminho de O Quatrilho e voltamos ao Rio Grande do Sul, que talvez seja o estado com o melhor projeto de política pública cultural. Seu núcleo de produção cinematográfica vem gerando produtos importantes e constitui um pólo ativo e contínuo. Enquanto no Rio de Janeiro o limite de captação através do ICMS é de R$ 450 mil, no Rio Grande do Sul é R$ 1.500.000. Esta diferença mostra a intenção política de colocar recursos à disposição do mercado e não é regionalista. Nos associamos à produtora gaúcha NGM de Gisele Hiltl para completar o quadro financeiro através de aportes significativos. Contamos também com uma expressiva contribuição das comunidades e cerca de 50% dos patrocínios foram captados na região.

O Rio Grande do Sul é um terreno fértil para o cinema e deu uma grande solidez e estabilidade à produção que ocupou 550 pessoas na mão de obra, entre artesãos, artistas, costureiras, carpinteiros, pintores, e contou com 2.500 figurantes. O planejamento rigoroso permitiu economizar uma semana de filmagens - das oito previstas para sete - o que é raro. Pretendemos fazer outros filmes na região, entre elas uma adaptação de O Exército de um Homem Só, de Moacyr Scliar, e histórias de Luis Fernando Veríssimo.

O lançamento seguirá o modelo de O Quatrilho, com pré-estréia no Festival de Gramado e estréia no Rio Grande do Sul no final de agosto. Um mês depois, o filme chegará ao Rio de Janeiro e São Paulo. Estamos estudando um acordo de comercialização para a Europa através da distribuidora Filmverlag de Wim Wenders, e com diferentes distribuidores americanos que acreditam no potencial externo do filme para a América Latina e Estados Unidos.

Como produtores estamos cumprindo nosso papel visando à realização de filmes com diversidade na temática, no estilo e na concepção, com uma abordagem de mercado. Lutamos por uma linha de produção de qualidade artística sem jamais perder de vista a conquista e o crescimento do mercado brasileiro. A melhor política que se pode ter na concorrência com o produto internacional é a conquista do mercado interno".

Gisele Hiltl - Co-produção:

"Como todo filme de época, ele só imprime a verdade quando a comunidade entra em cena, com os mais diversos tipos de apoio".

Depois da experiência como diretora de produção de O Quatrilho, Gisele Hiltl atuou na linha de frente de Anahy de las Misiones, de Sérgio Silva, e na terceira fase da filmagem de Tiradentes (Oswaldo Caldeira). Elaborou também dois novos projetos com Sérgio Silva: A Noite de São João, inspirado em Senhorita Julia de Strindberg, já filmado, e Clamor da Juventude, em preparação. Nesse meio tempo, repetiu a parceria com Fábio Barreto e transformou-se em produtora associada de A Paixão de Jacobina através da empresa NGM.

Gisele lembra que o envolvimento com Jacobina começou em Paris, na pré-estréia de Bela Donna, dirigido por Fábio Barreto em 1998. "Estávamos voltando de Budapest, onde ele apresentou O Quatrilho e eu Anahy de las Misiones. Ele me falou sobre Jacobina com o entusiasmo que costuma devotar a fortes personagens femininas. Não foi preciso muito para me convencer a repetir a parceria tão bem sucedida. No meio do processo, porém, passei de produtora executiva a produtora associada. Foi um trabalho atípico, pois Jacobina é a primeira co-produção entre o Rio Grande do Sul e um outro Estado a utilizar a Lei de Incentivo do Estado, que somou cerca de R$ 1.500.000 do total da produção".

A experiência da busca de locações para O Quatrilho foi repetida. As filmagens tiveram dois núcleos principais: no Vale dos Sinos, foi filmado o Morro do Ferrabraz em Sapiranga e também as cidades de Novo Hamburgo, São Leopoldo e Parobé, onde se encontra a figueira magnífica de 400 anos. No Vale do Taquari, o parque histórico de Lajeado foi transformado em cidade cenográfica.

Diante do peso histórico do tema para a comunidade, Gisele Hiltl esclarece: "Nosso desafio é apresentar uma versão com o cuidado de resgatar a personagem feminina e o seu empenho naquela época para que a comunidade julgue por si mesma". E acrescenta: "O filme não toma partido o que não invalida o evidente encantamento de Fábio pela personagem".

Quanto ao significado de uma produção do porte de Jacobina para o Rio Grande do Sul, Gisele observa: "O Sul vem se revelando um pólo de cinema, não como indústria, mas como fazedor de filmes. Temos uma tradição de fazer cinema e de prover recursos humanos mas não dispomos de recursos técnicos. E há uma consciência do poder público para desenvolver a atividade e imprimir uma qualidade distinta à produção. O sucesso de O Quatrilho, além de funcionar como atração turística e veículo histórico e cultural, também se deu na bilheteria - pois o Sul foi responsável por cerca de 40% dos ingressos vendidos em todo o país".

E conclui: "Embora Jacobina seja um produto diferente de O Quatrilho, estamos seguindo o mesmo caminho. O filme tem um forte componente cultural, pois retrata um fato histórico de uma comunidade que teve e tem importante participação econômica e social no estado. E como todo filme de época, ele só imprime a verdade quando a comunidade entra em cena, com os mais diversos tipos de apoio, como aconteceu. Foi graças à participação espontânea de uma diretora do Museu de Venâncio Aires que nos mostrou uma coleção de oito vestidos pretos de noiva - um deles estava tão velho que só tinha a parte de cima - que a figurinista Diana Eichbauer criou o vestido de noiva na cor negra - uma tradição na época da região".

Maria da Salete - Produção Executiva

Foi como secretária de produção de Amor Bandido de Bruno Barreto que Maria da Salete estreou no cinema. Desde então, já assinou a produção executiva de mais de 20 longas, entre eles Inocência (Walter Lima Jr.), Memórias do Cárcere (Nelson Pereira dos Santos), Menino do Rio (Antonio Calmon), Bye-bye Brasil (Cacá Diegues). Na fase da retomada, somou ao seu currículo os filmes Bela Donna (Fábio Barreto), O Que é Isso Companheiro? (Bruno Barreto), Uma Aventura de Zico (Antonio Carlos da Fontoura) e Bossa Nova (Bruno Barreto).

A Paixão de Jacobina marca a quarta parceria de Maria da Salete com Fábio Barreto, pois além de Bela Donna, participou também da produção de Índia, a Filha do Sol, primeiro longa do diretor em 1982, e de O Rei do Rio (1985).

Maria da Salete será também a produtora delegada de O Caminho das Nuvens, a próxima realização de L.C. Barreto / Filmes do Equador.

"Em 26 anos como produtora, A Paixão de Jacobina foi o filme que me deu mais prazer. Fábio é um diretor muito doce e conseguiu reunir não só uma equipe de excelentes profissionais como também muito entrosada - o que é raro.

Embora A Paixão de Jacobina seja um filme relativamente grande - uma produção de época com 56 atores e 2.500 figurantes - o trabalho fluiu com grande tranqüilidade. Tivemos uma ótima equipe de fotografia e um diretor de arte que trabalhou todo o tempo ao lado da produção.

O resultado do nosso esforço está na tela e tenho certeza de que Jacobina aparenta um custo muito mais alto do que o efetivo - e a diferença se deve à integração entre a produção executiva e toda a equipe técnica e elenco. Todo mundo queria fazer o mesmo filme - inclusive o Fábio e ninguém se comportou como estrela.

A produção executiva depende de inúmeras negociações com o diretor, o que pode provocar pressão e tensão. Muitas vezes, se tem que dizer não, que eu procurava compensar com a valorização de outros elementos. E Fábio sempre esteve aberto às trocas propostas.

Tivemos um grave contratempo quando chuvas torrenciais em Lajeado levaram à decretação do estado de calamidade pública na região. Mudamos a cronologia das filmagens e conseguimos não perder um minuto sequer do prazo previsto. O filme foi muito bem planejado e fomos recebidos de braços abertos por todo o Rio Grande do Sul. Mesmo com temporais, concluímos as filmagens uma semana antes do previsto - acho que por proteção de Jacobina.

Tive oito semanas para a preparação da produção executiva - não foi muito tempo - mas eu fiz e fiquei feliz. Não quero cair no lugar comum de falar de custos. No caso de Jacobina quero falar do prazer do trabalho realizado.

De um modo geral, a produtora executiva é a megera de um filme, mas em Jacobina fui amadíssima, queridíssima, abraçadíssima. Foi muito bom."

Entrevista: Fábio Barreto

Mulheres fortes fora dos grandes centros urbanos e adaptações literárias têm sido a principal inspiração do diretor Fábio Barreto. Foi assim desde o seu longa de estréia em 1981, Índia, a Filha do Sol, adaptação de romance de Bernardo Élis. Apenas o filme seguinte - O Rei do Rio (1984) a partir de peça de Dias Gomes, tinha um cenário urbano como pano de fundo. Seguiram-se Luzia Homem (1987), inspirado em livro de Domingos Olímpio, O Quatrilho (1995) baseado em romance de José Clemente Pozenato, e Bela Donna (1998), a partir de Riacho Doce, de José Lins do Rego. Apesar de representarem contextos históricos e sociais e também regiões do país diversificadas, esses filmes têm como marca mulheres no comando de suas vidas e também uma profunda ligação com suas épocas e ambientes.

Com O Quatrilho, Fábio Barreto dirigiu um dos grandes sucessos da retomada - 1 milhão 200 mil espectadores - e concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro. A idéia de narrar a história de Jacobina e a guerra dos Mucker foi também um dos desdobramentos do sucesso obtido ao narrar a saga da colônia italiana gaúcha no início do século.

Filho dos produtores Lucy e Luiz Carlos Barreto e irmão de Bruno, Fábio desenvolveu várias atividades ligadas à produção até chegar à direção. Foi assistente de produção de Dona Flor e Seus Dois Maridos (Bruno Barreto) e de Ajuricaba, de Oswaldo Caldeira, e assistente de direção de Gente Fina é Outra Coisa (Antônio Calmon), Amor Bandido (Bruno Barreto) e Bye-Bye Brasil (Cacá Diegues). Foi ainda diretor de produção de Prova de Fogo (Marco Altberg) e produtor de O Beijo no Asfalto (Bruno Barreto), e produtor executivo de O Quinto Macaco, produção americana filmada no Brasil, com direção de Eric Rochat e Ben Kingsley no elenco. Dirigiu dois curtas - A História de José e Maria, prêmio de direção no Festival de Brasília de 1977, e Mané Garrincha em 1978.

É também diretor de TV e professor de cursos de cinema.

Qual a origem de Jacobina?
Em 1995, após a exibição de O Quatrilho em Gramado, Horst Volker, dono das indústrias Ortopé e um dos fundadores do Festival de Gramado, convidou a equipe do filme para um almoço. Na ocasião, ele me deu o livro Videiras de Cristal, de Luiz Antonio de Assis Brasil e disse: "Você fez um filme sobre os imigrantes italianos no Rio Grande do Sul. Espero que você faça agora um filme sobre a colônia alemã. Esse livro que acaba de sair conta essa história". Li e fiquei fascinado pela personagem e impactado pela tragédia de um grupo de pessoas que se reuniram para viver uma utopia. A comunidade de Jacobina era uma mistura de movimento sem-terra com modelo socialista e filosofia hippie.

Foi este entusiasmo que levou à realização do filme?
Há vários motivos para dirigir um filme e cada filme que faço corresponde a um momento de transformação pessoal. Nesse sentido, tenho a expectativa de que os filmes que dirijo intervenham na minha vida para melhor, me enriqueçam como forma de auto-conhecimento. A personagem de Jacobina, de forma ampla, reflete uma divisão comum a todos - entre espírito e carne, e toca em um problema fundamental que é a culpa. Jacobina é um bicho selvagem e mesmo com o casamento não controla esse "bicho", o desejo que a atormenta. E se ela não conseguir controlar, administrar esse bicho, que lhe gera muita culpa, pode acabar destruindo a sua vida. Ela abandonou o sexo, mas não o erotismo, praticava o ósculo e era profundamente sedutora. A forma que encontrou para administrar esse bicho interior foi através da renúncia à carne.

Uma renúncia fortemente marcada pela entrega religiosa.
Sem dúvida. Ao se despir diante da imagem de Cristo e se oferecer a ele, Jacobina encontrou uma forma de controlar esses impulsos, o que no fundo é um paradoxo. As religiões existem porque as pessoas sabem que sozinhas não resistirão à tentação. Precisam de ajuda para não pecar, para não se sentirem culpadas. E sozinhas, não conseguem. Acho que Jacobina concentra contradições não resolvidas da maior parte das pessoas que são a dualidade entre o desejo e a culpa, o sagrado e o profano. E achei que a investigação desses temas me ajudaria a mergulhar no meu inconsciente, me conhecer melhor.

Do livro às filmagens transcorreram mais de cinco anos.
Depois de O Quatrilho quis filmar Bela Donna, mas desde 1998 estou envolvido com A Paixão de Jacobina. Passei o ano de 1999 trabalhando com José Almino Arraes, escritor, poeta, historiador e sociólogo, criando o argumento. Depois, desenvolvi o roteiro com a escritora Ana Maria Miranda, e finalmente, Leopoldo Serran, meu parceiro habitual, deu o tratamento final. Aliás, em Jacobina várias parcerias continuam - com o fotógrafo Felix Monti, Cristiano Maciel (som direto) e com o diretor de arte Hélio Eichbauer. Não faço filmes sem eles - trabalhamos por música.

Um dos principais elementos de Jacobina é o fanatismo religioso. Como você quis abordar esse tema?
O fanatismo religioso é um tema contemporâneo. E durante as filmagens aconteceu uma coisa surreal. Começamos a filmar em setembro de 2001. No dia 11 de setembro, Felix Monti atendeu o celular e nos contou, rindo e meio incrédulo, que Nova York estava sob um bombardeio. E estávamos justamente filmando uma cena em que Jacobina anunciava o fim do mundo para seus fiéis - e nós também estávamos no fim do mundo, no interior do Rio Grande do Sul. Para combater aquela mulher e sua seita em meados do século XIX, o governo ameaçado com o crescimento da seita e o poder de Jacobina mandou tropas do exército e canhões da Guerra do Paraguai para exterminar os Mucker. O filme aborda várias manifestações de fanatismo e as reações que provoca.

Jacobina se via como Cristo-Mulher e deixou uma imagem polêmica: santa, mártir, para alguns, louca, fanática, herege, promíscua, para outros. Qual a posição do filme?
Até hoje, Jacobina divide muito as opiniões no Sul. O filme parte de uma grande pesquisa, é fiel aos fatos históricos, um dos episódios mais marcantes da colonização alemã no estado. Eu quis mostrar Jacobina sem julgá-la, mas propiciando o máximo de elementos para que, após o filme, cada espectador faça seu próprio julgamento. Na realidade, Jacobina começou a ter desmaios aos 13 anos. Apresentava longas ausências e também poderes paranormais. Dizia-se que teria poderes mediúnicos e incorporava Jesus Cristo, por isso reproduzia trechos do Novo Testamento em suas falas. Isso é fato. Em termos médicos, ela seria considerada hoje uma psicótica histérica. Como cineasta, não quis impor o meu julgamento. Pessoalmente, não acredito que personagens sejam apenas do bem ou do mal - e acredito no perdão. Os Mucker agrupavam 500 pessoas e na primeira batalha 150 morreram combatidos por 150 soldados. Na segunda batalha, 300 homens trucidaram os 150 Mucker restantes. Não sobrou quase ninguém.

Como se armou a produção de Jacobina - uma produção de grande porte, com centenas de figurantes e cenas de batalha?
Houve um minucioso trabalho de preparação. Como tenho muita experiência com produção, sei que a coisa mais importante e difícil para o diretor é tempo. Ou seja, ele tem que ter tudo no lugar para otimizar o tempo. Por isso, os meus três últimos filmes - O Quatrilho, Bela Donna e A Paixão de Jacobina foram concluídos antes do prazo. Apesar de Jacobina ter uma produção complexa, filmei o tempo todo com duas câmeras, o que agiliza muito as filmagens. Conseguimos baixar a previsão de oito para sete semanas de filmagem. A partir de agora, só trabalho com duas câmeras.

E quanto às locações?
A logística de produção contou com duas bases: no Vale dos Sinos - Igrejinha, Sapiranga, Novo Hamburgo e São Leopoldo - para onde foram parte dos 40 mil alemães na leva imigratória de 1824. Outra parte foi para o Vale do Taquari, e em Lajeado filmamos na cidade cenográfica. Todas as filmagens foram muito preparadas a partir de um storyboard minucioso. Esse planejamento propiciou uma experiência em que tudo fluiu extremamente bem. Aliás, eu diria que quando filmo, me proponho uma experiência de vida prazerosa - e dos meus seis filmes, apenas um - O Rei do Rio - teve cenário urbano. Eu me definiria como diretor de época agropastoril - não é à toa que quase fui fazer agronomia.

Como foi a escolha de Letícia Spiller?
Fizemos leituras do roteiro com várias atrizes. Eu já admirava Letícia Spiller, e ela foi simplesmente magistral na leitura. Brinco dizendo que lá do alto Jacobina disse "é ela". Letícia se dedicou muito ao papel e foi um prazer trabalhar com ela. Tenho certeza de que com Jacobina, ela será alçada ao primeiro time de atrizes.

De que forma você trabalhou com o elenco?
Neste filme, usei pela primeira vez duas ensaiadoras, Dora Pellegrino, minha ex-mulher e atriz, e a diretora de teatro que trabalhou na Alemanha, Nehle Franke (Divinas Palavras, Roberto Zucco). Queria os atores quentes quando a câmera começasse a rodar, e enquanto esperavam, ensaiavam. Tivemos também uma fonoaudióloga, Ana Frota, para tirar qualquer sotaque dos atores. Devo dizer que fiquei muito satisfeito com todo o elenco: Talita Castro, paulista, filha do ator Everton Castro, fez Bicho de Sete Cabeças e tem um potencial enorme, Thereza Mascarenhas, que faz a mãe, morou um tempo fora e apresentou um ótimo rendimento. No filme, não há um protagonista masculino mais importante, pois Jacobina atua como eixo catalisador e vive cercada de homens: seu antagonista é Pastor Boeber, que Antônio Calloni interpreta magnificamente; Thiago Lacerda, a primeira paixão de Jacobina, tem uma star quality para estourar no cenário internacional. Conheço Alexandre Paternost, que interpreta o marido, desde O Quatrilho e está cada vez melhor. As interpretações são bem diversificadas - Caco Ciocler como o delegado está excelente, e Leon Góes tem um trabalho de composição excepcional como Jacó Mula.

Às vésperas do lançamento, como você define A Paixão de Jacobina?
Um épico bíblico na época da globalização que tem como um dos principais pontos a afirmação das identidades individuais e nacionais. Para mim, A Paixão de Jacobina é um libelo antiglobalização pela liberdade de expressão e contra o terrorismo econômico que provoca a reação dos fanáticos.

Qual seria a ligação de Jacobina com seus filmes anteriores?
Um tema recorrente nos meus filmes é a luta do indivíduo para ser livre. Para isso, ele deve transgredir a ordem e as leis. E muitas vezes, esses comportamentos transgressores modificam instituições arcaicas, permitindo um avanço social e uma visão de mundo mais progressista. Acho que a luta de pessoas fiéis a si mesmas está presente em todos meus filmes, da Amazônia ao Rio Grande do Sul, por mais diferentes que sejam os contextos, as épocas e motivações dos personagens- o que vale para Índia, Luzia Homem, Bela Donna, as mulheres de O Quatrilho e, sem dúvida, A Paixão de Jacobina.

Quais as suas expectativas com o filme? Repetir o percurso vitorioso de O Quatrilho no país e chegar ao Oscar?
Não espero nada e não crio expectativas. O filme já valeu pelo processo, e qualquer resultado é lucro. Seguiremos o mesmo caminho de O Quatrilho, que teve de 30% a 40% de sua bilheteria no Sul, região que normalmente responde por 10% do público. Eu gostaria de ter de novo a oportunidade de representar o Brasil no Oscar. Sei que há muitos bons filmes a caminho, mas no ano que concorri, fiquei entre os cinco indicados. O Quatrilho era mais terno, mais amoroso, e Jacobina fala de violência, fanatismo, guerra - e a heroína morre no final. Mas é mais vigoroso, e pode bater no coração do espectador e fazer pensar e emocionar. E apesar de ser de época, seu tema não poderia ser mais atual: excluídos sociais se reúnem, ficam mais fortes, ameaçam e são massacrados pelo status quo.
Letícia Spiller / Jacobina

Letícia Spiller foi gerada em São Leopoldo, nasceu em junho e teve seis irmãos - exatamente como Jacobina. Essas coincidências, no entanto, não esgotam os vários níveis de identificação que a atriz estabeleceu com a personagem. "Eu defendo Jacobina", assegura, enfática, a bela atriz que chegou ao papel através de várias linhas que se cruzaram e que tiveram como resultado uma total entrega da atriz à personagem.

Ter encarnado Jacobina é certamente uma prova do amadurecimento artístico de Letícia Spiller, que começou como Paquita, no show da Xuxa, e atingiu grande popularidade em trabalhos na tv como Despedida de Solteiro, O Rei do Gado, Zazá, Suave Veneno, Esplendor, Quatro Por Quatro.

Estreou no cinema com o curta O Pulso, de José Pedro Goulart, seguido dos longas Oriundi, de Ricardo Bravo, e Villa-Lobos, Uma Vida de Paixão, de Zelito Viana. No teatro, fez O Falcão e O Imperador, baseada em texto de Nikos Kazantzakis.

Como Jacobina apareceu em sua vida?
Quando eu estava fazendo Oriundi, em Curitiba, um produtor local me deu o livro Videiras de Cristal que estava sendo lançado. Disse que o Fábio Barreto estava preparando um filme inspirado no livro e foi enfático: "Quero que você leia". Li e fiquei apaixonada. Jacobina viveu em um contexto social muito importante. Era uma mulher que lutava pela liberdade, não apenas a dela, mas de todas as pessoas. Uma visionária, cuja história iria repercutir muito depois. O filme é o reflexo desse grito de Jacobina, e se surge agora, não é à toa.

E como você chegou ao papel?
Por várias coincidências. Pouco tempo depois de ler Videiras de Cristal comecei a preparar a peça O Falcão e O Imperador, de Nikos Kazantzakis, outro visionário. E as duas coisas se juntaram em uma época em que a minha vida estava mudando e tudo foi se encaminhando para uma filosofia de vida em que eu acredito. Por outra coincidência, O Falcão e O Imperador estreou em Porto Alegre, justamente quando o Fábio estava realizando testes para Jacobina. Disseram que ele tinha pensado em mim, mas mudado de idéia porque eu tinha raspado a cabeça. Acabei fazendo o teste, ele foi ver a peça e me disse: Jacobina já está pronta. De fato, a peça, pelos textos filosóficos e religiosos, bíblicos e budistas, funcionou como um laboratório para o filme.

Quer dizer que você já chegou ao papel aquecida?
Do ponto de vista emocional acho que sim, pois Jacobina tinha muito a ver com o texto do teatro. A aproximação da personagem teve várias fases. Comecei gravando o canto, e depois comecei a me preparar nos ensaios com a Nehle Franke e a Dora Pellegrino, que me passaram exercícios de aquecimento muito rápidos do corpo e dos reflexos, começando pela parte vocal. O resultado é que passei o tempo todo concentrada, o que combina com o meu temperamento: não consigo ficar no set sem esta concentração total , o que aconteceu desde o meu primeiro filme, O Pulso, que por outra coincidência era com Werner Schunemann, que faz o médico de Jacobina. Mas em O Pulso, a médica era eu...

E qual o maior desafio do papel?
Eu queria defender a Jacobina!

Mais que o Fábio?
Acho que tanto quanto o Fábio. O filme é do diretor e o ator é apenas uma cor desse quadro. A minha preocupação foi dar o máximo, me entregar. Quando você está apaixonado, a coisa toma posse da gente. Como aconteceu na peça. Embora cinema e teatro sejam diferentes, eu fazia uma oração para me colocar totalmente disponível para o papel, para viver intensamente aquele momento.

E como foi interpretar uma personagem feminina tão forte cercada de tantos personagens masculinos?
Pois é, ela foi uma líder em uma época em que uma mulher com poder era inconcebível. Muitos homens se renderam a Jacobina que tinha um poder de persuasão muito grande. Ela se dava, olhava, zelava pelos pobres. Era tomada por esse desejo de doação como uma missão.

Pelo seu entusiasmo com a personagem, você também vê a sua interpretação de Jacobina como uma missão?
Eu acredito na Jacobina. Há várias versões para o seu comportamento e eu li muitos livros - contra e favor -, estudei documentos históricos e conversei muito com o Fábio. Tomei partido dela.

E como foi a entrega à personagem?
Muito prazerosa embora difícil. Aliás, para mim nada é fácil. Sempre acho que poderia ter sido melhor e nunca estou tranqüila.

Quais as cenas mais difíceis?
As cenas de pregação, com texto do Evangelho - eram difíceis de interpretar porque não são do cotidiano. Jacobina pregava de uma forma muito apaixonada e imperativa. O discurso que faz em cima da árvore, por exemplo, - quando diz "não vim trazer a paz, mas a espada", é do Evangelho Segundo Mateus. Aliás, todas as suas pregações são tiradas da Bíblia. Também era difícil representar a Jacobina jovem, quando ela ainda não tinha o poder que a marcaria. A cena final, com fogo, exigiu uma atenção redobrada - afinal, o fogo era real, as coisas desabavam. Já para as cenas em que Jacobina tem visões, usei o instinto e acho que o trabalho com Nehle e Dora foi fundamental. No todo, adorei trabalhar com o Fábio, viramos amigos. Além de ótimo diretor ele trabalha para unir a equipe, o que cria um clima ótimo. E aconteceu uma coisa incrível. Filmamos a cena em que Jacobina anuncia o final dos tempos e diz que "desta vez não virá pela água, mas pelo fogo", exatamente no dia 11 de setembro. Fiz a cena sem saber o que tinha acontecido, e depois fiquei meio lesada.

O que ficou de Jacobina para você?
Ela era uma idealista e falava muito do momento presente. Ela não tem medo da morte, porque para ela, a vida na verdade só começaria quando morresse. Acho que Jacobina conta a história de um grito que ecoa. E ela sabia que ia deixar um grito de liberdade que não ia ser imediato, mas para os que viriam. Jacobina ajudava os pobres que não tinham condições de ir à Igreja. E cuidou daqueles que na época eram os excluídos, os sem terra de hoje. Ela abraçou essa gente, ofereceu um lar, medicava e curava com remédios naturais. Eu acho que os Mucker foram massacrados pela Igreja e pelas entidades políticas. Com seu grito de liberdade, Jacobina deixou uma semente: ela traz uma mensagem contemporânea para tempos tão conturbados.

Atores / Depoimentos

Thiago Lacerda / Franz

Depois de um pequeno papel em Malhação, participou de Hilda Furacão, Pecado Capital, e da minissérie Aquarela do Brasil até explodir como galã nacional como Matheu em Terra Nostra. A Paixão de Jacobina marca a sua estréia no cinema.

"Sempre quis fazer cinema e, por vários motivos, A Paixão de Jacobina foi uma estréia muito especial: não só descobri uma outra linguagem como tive a oportunidade de trabalhar com Fábio Barreto e com a Letícia. Com o cinema, descobri um novo espaço para atuar - mais amplo e com um ritmo diferente da TV, e com mais oportunidades de trabalhar as cenas.

Tenho grande fascínio por personagens de época, e Franz é um personagem bem definido e sustentado por um ótimo roteiro. Eu o vejo como um rapaz extremamente forte e de criação rígida que se apaixona perdidamente pela prima (Jacobina). A princípio, os dois são ligados por um grande desejos sexual mas, com o tempo, este sentimento se transforma. O filme aborda com muita inteligência questões sociais, religiosas e históricas e tenho certeza de que tem todos os elementos para tocar fundo o espectador".

Alexandre Paternost / Maurer

Com A Paixão de Jacobina, Alexandre Paternost tem sua segunda parceria com Fábio Barreto, depois de O Quatrilho, em que interpretava Ângelo, o marido abandonado da trama. Paulista, de formação teatral, atuou em várias peças em São Paulo: Concílio do Amor e A Vida É Sonho, com direção de Gabriel Villela, Fragmentos de Um Discurso Amoroso e Pantaleão e as Visitadores, com direção de Ulysses Cruz, entre muitas outras. Estreou no cinema com Perfume de Gardênia, de Guilherme de Almeida Prado, seguido de A Causa Secreta, de Sérgio Bianchi, O Cangaceiro, de Aníbal Massaini, O Dono do Mar, de Odorico Mendes, e Concerto Campestre, de Henrique de Freitas Lima.

"Com Jacobina voltei a filmar com Fábio e com praticamente toda a equipe de O Quatrilho. Desde que ouvi falar no projeto fiquei interessado. Jorge Maurer é um curandeiro que tem seu espaço e seus clientes. Quando encontra Jacobina, tenta ajudá-la e casam-se. Ele acompanha toda a transformação de Jacobina, e embora seja anulado por ela como marido, ele continua com seu trabalho com dignidade. É um personagem que fica em segundo plano depois que ela conquista seus fiéis, mas preserva a dignidade de um médico. Mesmo depois que perde o título de marido, ele continua apoiando Jacobina, que é dividida por todos os homens e ele se transforma em mais um integrante da seita Acho essa atitude bonita, principalmente para a época em que a história se passa".

João Lehn / Caco Ciocler

Paulista, começou no teatro amador aos 10 anos. Elogiado por sua versatilidade, esteve nas novelas Um Anjo Caiu do Céu, A Muralha, O Rei do Gado, O Amor está no Ar e na peça Êxtase, de Caio Blat.

Estreou no cinema com O Xangô de Baker Street, de Miguel Faria Jr, seguido de Bicho de Sete Cabeças (Laís Bodansky), Minha Vida Em Suas Mãos (José Antônio Garcia), Avassaladoras (Mara Mourão) e também Lara (Ana Maria Magalhães) e Desmundo, de Alain Fresnot.

"No início da história, o delegado João Lehn era uma espécie de guarda de quarteirão de uma cidadezinha pacata. Exercia sua autoridade, era casado e tinha um caso de amor secreto com Elizabeth Carolina, cunhada de Jacobina. No entanto, quando o conflito eclode, ele revela a sua ambigüidade. Ele fica dividido entre mandar destruir a aldeia de Jacobina e sua paixão por Elizabeth. Quando deve tomar uma posição, seus conflitos humanos aparecem. Tentei criar um personagem que tenta ser autoritário enquanto está "tudo bem", mas se desmonta justamente por causa dos conflitos que vive. Ao final do filme, acho que ele é um personagem bem mais humano do que no início".

Antônio Calloni / Pastor Boeber

De formação teatral, participou das companhias Célia Helena e do CPT de Antunes Filho, em São Paulo. Entre seus trabalhos na TV, destacam-se Os Maias, O Dono do Mundo, Terra Nostra, Era Uma Vez, Zazá, e o marcante papel de Mohamed em O Clone. Atuou nos filmes Outras Estórias (Pedro Bial), 16060 (Diogo Mainardi) Policarpo Quaresma, Herói do Brasil (Paulo Thiago) e nos curtas Lápide, de Paulo Morelli, e Happy Hour, de Dodô Brandão. É autor do livro Os Infantes de Dezembro.

"Pastor Boeber é um personagem fantástico, o grande antagonista de Jacobina. Tive a preocupação de matizar suas reações, não mostrá-lo de uma forma maniqueísta. Ele tenta convencer Jacobina a permanecer na Igreja e tem suas razões para combater a seita. No início, ele tenta resolver a situação através da palavra, mas quando não consegue, acaba tomando uma decisão drástica, juntamente com o delegado João Lehn. Fiz o personagem com muito cuidado para humanizá-lo e não apresentá-lo simplesmente como o vilão da história. Não diria que fui inspirado, mas fiquei muito impressionado com a atuação de Anthony Hopkins como pastor de um filme que nem sei o nome. Um padre da região me deu um livro sobre os pastores protestantes que também ajudou na criação do personagem."

Felipe Camargo / Coronel Genuíno

Consagrado como um jovem apaixonado em Anos Dourados, transformou-se em dos mais populares atores de TV. Entre seus trabalhos estão as novelas e seriados Um Anjo Caiu do Céu, Andando nas Nuvens, Corpo Dourado, A Idade da Loba, Pátria Minha, Despedida de Solteiro, O Sexo dos Anjos, Mandala, Roda de Fogo. No cinema, atuou em Urubus e Papagaios e A Maldição de Sanpaku, de José Joffily, O Dia da Caça, de Alberto Graça, e no média metragem Maria da Graça, ainda inédito.

"A Paixão de Jacobina foi meu primeiro trabalho de época - até então, só tinha retrocedido aos anos 50. Para representar este personagem histórico, herói da guerra do Paraguai, segui basicamente a intuição que a situação pedia - além de aprender a montar a cavalo com uma certa elegância. Como veterano de uma guerra marcada por muitas chacinas, ele chegou de forma arrogante e prepotente para combater os Mucker. E ficou surpreso de ver a reação de uma seita comandada por uma mulher. Quando ele se prepara para um segundo ataque, morre, preservando os mesmos traços de arrogância e prepotência. Embora seja um personagem de efeito, foi preparado com muito cuidado e foi ótimo de fazer".

Leon Góes / Jacó Mula

Nascido em Natal, Leon Góes é um dos atores mais talentosos de sua geração. Através de várias parcerias com o irmão, o inovador diretor de teatro Moacyr Góes, o ator vem brindando o público com atuações primorosas. Em 1988 recebeu o prêmio Mambembe de ator revelação por Baal, e dois anos depois um Molière por Escola de Bufões. Atuou também nas peças Livro de Jó, Fausto, Romeu e Julieta, Gigante da Montanha, Epifanias, Trilogia Tebana, e, mais recentemente Bispo Jesus do Rosário, a via sacra dos contrários, Bonitinha, mas Ordinária, O Doente Imaginário e uma versão de Pinóquio para adultos. Sua próxima peça será Chico Doido de Caicó. No cinema, fez Veja Esta Canção e Tieta do Agreste, de Carlos Diegues. Atuou na novela Laços de Família.

"Jacó Mula foi tão bom de fazer, que foi quase como fazer teatro. E na verdade, a preparação do personagem foi teatral, com ensaios e laboratórios, pesquisa e acompanhamento de Nehle Franke e Dora Pellegrino. Acho que o pulo do gato do Fábio neste filme foi colocar diretor de teatro para trabalhar com o elenco. Tive tempo e meios de trabalhar o personagem. Jacó Mula tem uma certa inocência, tudo para ele é literal, não existe metáfora Quando ele diz que Jacobina só tem alma, é verdade, ele não enxerga o corpo. Ele é pura sensibilidade e totalmente devoto à Jacobina, que chama de Mãe. A repetição das palavras de Jacó Mula surgiu nos ensaios, e no começo eu fiquei temeroso, será que podia desrespeitar o roteiro? Tive medo de fazer uma coisa piegas, mas tenho total confiança no Fábio, que foi muito generoso. Até porque quando ele me chamou para fazer um teste para O Quatrilho eu disse, "não faço teste", e hoje morro de vergonha dessa bobagem. Fiz o teste para Jacó com 39 graus de febre - e acho que foi bom, o personagem é meio febril. Ele é de uma ingenuidade total. Uma criança que não cresceu".

Felipe Kannemberg / Robinson

Nascido em Novo Hamburgo, filho de pastor luterano, Felipe Kannemberg cresceu ouvindo a história dos Mucker e opiniões conflitantes sobre Jacobina. Ele estava no Festival de Gramado quando Horst Volker sugeriu a Fábio Barreto um filme sobre a colonização alemã no Rio Grande do Sul, ocasião em que conheceu Marcelo Santiago, assistente de Fábio em O Quatrilho e A Paixão de Jacobina. Desde então, lembra, "fazia visitas a Marcelo de olho no filme - foi perseguição mesmo". Com uma participação no longa Louco por Cinema, de André Oliveira, e assistente de produção de Cronicamente Inviável, de Sérgio Bianchi, Felipe tinha certeza de que um filme sobre Jacobina deveria ter um papel para ele. E mais: seu tataravô, também pastor luterano, tem textos citados no livro Videiras de Cristal, origem do filme. Felipe acha que além da insistência junto a Marcelo Santiago, a sua atuação como um alemão na minissérie Aquarela do Brasil colaborou para que interpretasse Robinson, o cão de guarda de Jacobina.

"Robinson é um veterano da Guerra do Paraguai e representa também o primeiro milagre de Jacobina. Ele volta da guerra ferido na perna, e sua última esperança era ser curado por Maurer. Mas é Jacobina quem lhe propicia uma nova vida. Robinson transforma-se então em seu cão de guarda e passará a comandar todas as atrocidades da seita. É um personagem contraditório porque soma fidelidade canina e violência que ele trouxe da Guerra do Paraguai. E se Jacó Mula é a mão boa de Jacobina, Robinson será sua mão pesada. Enquanto Jacó Mula, com amor dá a outra face, Robinson faz qualquer coisa "por amor", até mesmo matar.

Como cresci ouvindo várias versões sobre Jacobina, e no Sul, as opiniões continuam divididas, acho interessante ver como novas discussões surgiram a partir do filme. Os alemães têm muitos tabus, mas com as filmagens, voltou-se a falar no assunto e hoje ele é debatido sem medo. Para mim, Jacobina era uma alma boa que acolhia quem estava precisando de ajuda, a atitude mais próxima de Cristo que pode haver".

Werner Schunemann / Dr. Hillebrandt

Diretor e ator, faz parte da geração super-8 que renovou o cinema gaúcho nos anos 80.

Dirigiu o longas Coisa na roda (1981), em super-8, e depois, em 35 mm Me Beija (1983) e O Mentiroso (1987). Como ator, trabalhou no premiado curta O Pulso, ao lado de Letícia Spiller, no longa Tolerância, e ganhou o prêmio de melhor ator em Brasília em 2001 por Netto Perde a Sua Alma. Presidente em segunda gestão da Fundacine (Fundação Cinema RS) está finalizando o longa O Mar Doce.

Antes de pensar em fazer cinema, Werner Schunemann decidiu estudar história inspirado justamente pela história de Jacobina e dos Mucker, que ouvia desde criança em Novo Hamburgo, onde nasceu.

"Eu era fascinado pela história dos Mucker - li todos os livros, ensaios, monografias. E um dos aspectos que mais me impressionava era como o assunto era tabu na colônia alemã, uma mancha negra entre os descendentes - porque todos tinham a mão suja, ou porque fizeram ou porque foram coniventes. E o que mais me impactava era a idéia de que haviam sido massacrados. Aos 12 anos li Os Sertões, e pensei que 25 anos antes tinha acontecido uma coisa semelhante no Sul, só que não houve um Euclides da Cunha para fazer um relato de importância literária. Os relatos existentes, na maioria escritos por padres, eram preconceituosos e parciais. Por tudo isso tive grande orgulho em interpretar o Dr. Hillebrandt, que foi uma grande liderança da colônia alemã. Era muito instruído e atuava como interlocutor junto aos poderes públicos representando os interesses dos recém-chegados. Hoje, ele é nome de rua em São Leopoldo, Novo Hamburgo, Porto Alegre. Ele tinha uma relação paternal com os membros da comunidade, que confiavam nele e no seu sentido de justiça.

O médico tem um grande envolvimento com Jacobina através de uma abordagem humana e a defende na Santa Casa. Não a achava louca, e sim que podia sofrer pressões demais e por isso se refugiava em um comportamento esquisito. Sempre foi um aliado de Jacobina e apóia a presença do exército como um mal necessário. Ele quer evitar o massacre e dá várias pistas do que vai acontecer. Gostei de fazer um filme que o Fábio tratou de maneira carinhosa - a história real é muito mais sangrenta. Eu quis ter com o personagem o mesmo respeito que Fábio estava tendo com o assunto.

Acho que nenhum filme vai esgotar o assunto e o maior mérito de Jacobina é trazer o assunto para a sala de visita dos descendentes de alemães".

Hélio Eichbauer / Direção de Arte

Um dos mais renomados cenógrafos do país - com criações históricas no palco, entre elas a de O Rei da Vela, em 1967 - desenvolveu também um importante trabalho no cinema. Entre seus filmes como diretor de arte estão Tudo Bem (Arnaldo Jabor), O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (Glauber Rocha), O Homem do Pau Brasil (Joaquim Pedro de Andrade), Gabriela (Bruno Barreto), Kuarup (Ruy Guerra). Jacobina marca a segunda parceria com Fabio Barreto, depois de Bela Donna. Desta vez, Eichbauer trocou a paisagem solar das praias nordestinas pelas planícies de clima temperado do interior gaúcho. E retrocedeu a meados do século XIX para ambientar a história de Jacobina e seus seguidores até o confronto com forças do Exército Imperial.

Hélio Eichbauer sintetiza em uma palavra o conceito de direção de arte adotado em Jacobina: autenticidade. E explica: "As locações em Sapiranga, Novo Hamburgo, São Leopoldo e Lajeado eram de fato os locais onde os fatos históricos ocorreram. Os móveis e objetos das casas também são de época, generosamente cedidos pelos museus de colonização da região. Nossa intenção foi imprimir o máximo de autenticidade dentro do espírito de sobriedade da colônia alemã da época."

Durante um ano, Eichbauer realizou intensa pesquisa iconográfica e acompanhou a escolha das locações. "É difícil filmar o século XIX no Brasil, porque a maioria das cidades foi muito mexida e alterada. As regiões rurais, no entanto, estão mais preservadas, com suas fazendas de época e pequenas cidades". Ele assinala também que os móveis e objetos utilizados, simples e rústicos, eram feitos pelos fazendeiros e artesãos que vieram na leva imigratória e também estão preservados nos museus. "Os únicos enfeites das paredes eram panos com temas bíblicos bordados pelas mulheres ".

Eichbauaer observa que mesmo quando a locação não era original, se buscou a autenticidade: as cenas da rua de Sapiranga foram filmadas no Parque dos Imigrantes de Lajeado, construído a partir de casas originais desmontadas e remontadas para este espaço histórico. A estação de trem de São Leopoldo, justamente inaugurada para trazer as tropas para combater Jacobina, também foi filmada. A única criação cenográfica foi a construção de um galpão transformado em templo e cenário do grande incêndio - acompanhado por muitos bombeiros. "Não tinha como botar fogo em um cenário original", brinca.

Parte das armas dos soldados que combatem Jacobina também era original: "Espadas, garruchas e fuzis vieram de museus. Apenas as armas que atiravam foram criadas pelo departamento de efeitos especiais, assim como os quatro canhões, réplicas exatas dos que se encontram em museus, remanescentes da Guerra do Paraguai".

Diana Eichbauer / Figurinos

Criadora de figurinos para ópera e teatro, e irmã de Hélio Eichbauer, tem entre seus trabalhos para cinema Inocência (Walter Lima Jr), O Homem do Pau Brasil (Joaquim Pedro de Andrade), Gabriela (Bruno Barreto), e mais recentemente Eu não conhecia Tururu, de Florinda Bolkan. Repete com Fábio Barreto a parceria de Bela Donna.

Em trabalho desenvolvido junto à direção de arte, Diana pesquisou boa parte dos figurinos em fotografias e livros cedidos por historiadores gaúchos e no Museu Histórico do Rio de Janeiro. E não buscava apenas "os modelos", mas também o procedimento, a forma de fazer. "A opção pelo estilo alemão, bem fechado foi inspirada em uma tapeçaria alemã do século XIX", revela.

Nessa opção, as cores claras foram banidas dos figurinos: "Predominam o verde escuro, o cinza, o preto, o marrom escuro e o azul marinho das fardas dos soldados. O tom escuro correspondia ao comportamento rígido da colônia alemã somado ao fanatismo religioso. Nesse contexto, não havia espaço para tons vivos como vermelho ou amarelo", explica. Diz também que a opção da noiva vestir preto é rigorosamente verdadeira: "Descobrimos em museus da região que as noivas se casavam assim".

Para vestir atores e os 2.500 figurantes foram executadas cerca de 2 mil peças de roupa e montado um ateliê com um contra mestre, seis costureiras, um assistente e duas camareiras: O trabalho foi dividido em núcleos - a colônia Jacobina, as ruas de Porto Alegre, a cidade de Sapiranga, e ainda o núcleo do Exército. "Apenas as 100 fardas dos soldados foram feitas no Rio e são réplicas exatas das que foram usadas na Guerra do Paraguai - da lã militar aos cintos ", ressalva Diana. E conclui: "Foi um trabalho duro, mas muito interessante, e acho que o resultado transmite exatamente o que Fábio pensou. Fomos fiéis à época e à carga dramática do episódio".

Felix Monti / Diretor de Fotografia

Nascido na Argentina, Felix Monti traz no currículo a direção de fotografia de importantes produções de seu país, como A História Oficial (Oscar de melhor filme estrangeiro em 1985), de Luiz Puenzo, com quem trabalhou novamente em Gringo Viejo (com Jane Fonda e Gregory Peck) e A Peste, com Robert Duval e William Hurt. Para o diretor Fernando Solanas fotografou Tangos, o Exílio de Gardel, Sur e A Viagem. Entre seus outros filmes, destaca-se também De Amor e de Sombras, de Betty Kaplan, baseado em livro de Isabel Allende e estrelado por Antonio Banderas.

Entre 1966 e 1970 Felix Monti viveu no Brasil e trabalhou em publicidade no Rio e São Paulo. No entanto, sua ligação com o cinema brasileiro começou com o convite para assinar a fotografia de O Quatrilho, indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro, assim como seu trabalho seguinte, O Que é Isso Companheiro?. A parceria com o país continuou com Bela Donna, Eu Não Conhecia Tururu (Florinda Bolkan), O Auto da Compadecida (Guel Arraes) e A Partilha (Daniel Filho).

"Quando cheguei para filmar O Quatrilho, não lembro porque, viajei do aeroporto à locação em uma ambulância - eu estava saudável e cheio de força. Desta vez, não havia ambulância na chegada, mas eu não me sentia bem. Comecei a trabalhar graças à ajuda de Lucy e Luiz Carlos. Sem esse apoio, eu não conseguiria.

A Paixão de Jacobina, como O Quatrilho, conta a história de imigrantes. Uma história de culturas que se cruzam, de passados que não se desprendem e que se misturam no novo mundo. Esses alemães trouxeram consigo tudo de sua terra. Construíram suas casas como eram as casas que deixaram, plantaram as hortas como eram as suas hortas. Nesta transposição, encontravam-se também suas crenças. Velhas recordações esquecidas de uma primeira época do cristianismo na chegada às tribos germânicas. Os apóstatas, os Mucker. Tudo isso nos provoca um clima. Inclinei-me então pelo romantismo sombrio do pintor alemão Gaspar Friedrich (1774-1840). No entanto, a realidade na qual Jacobina cresce é uma época marcada pelo terror e pela vergonha da guerra da Tríplice Aliança. E neste mundo, foram os quadros de guerra de Candido Lopéz que me assinalaram um caminho. A imagem foi tomando forma nesta união de Friedrich e a ingenuidade de Lopez, acompanhando Hélio Eichbauer em seu projeto de direção de arte.

Pude observar Letícia Spiller ir se fundindo com Jacobina. Dia a dia, Letícia entrava neste mundo cheio de forças terríveis, cheia de energia. Incansável, sem um casaco, no meio da chuva e do barro. Seu trabalho é admirável.

Fábio usou duas posições de câmera simultâneas para filmar os diálogos. Assim, os atores puderam contracenar e desenvolver toda a cena sem cortes, o que enriquece a interpretação: os atores se olham nos olhos. Quando se usa apenas uma câmera, o ator fala para o olho de vidro da lente. Para a imagem, não é fácil obter a luz ideal ou a posição da câmera nos dois ângulos. Creio que este é um ponto a ser discutido - onde e quando é importante perder algo para ganhar algo. O cinema americano trabalha com duas câmeras, como fez Robert Duvall no filme que dirigiu e que terminei pouco antes de começar Jacobina.

Embora a minha relação com o cinema brasileiro tenha começado com O Quatrilho, na verdade a minha relação com "os Barretos" começou muito antes de nos conhecermos, quando vi Vidas Secas. A luz de Luiz Carlos é a protagonista daquela história e aquela história é aquela luz que com as imagens de Gabriel Figueroa estão entre os momentos mais altos de nossa fotografia.

Desde que Luiz Carlos me convidou para O Quatrilho, nossa relação vem se aprofundando e Fábio é realmente o diretor de quem me sinto mais próximo".

Mair Tavares - Montador

Um dos mais experientes montadores do cinema brasileiro, apresenta um currículo diversificado, que abrange vários gêneros e estilos, do cinema underground a grandes produções. Entre seus muitos trabalhos, destacam-se: O Anjo Nasceu e A Família do Barulho (Júlio Bressane), Xica da Silva, Chuvas de Verão, Bye-Bye Brasil, Quilombo, Veja Esta Canção e Tieta do Agreste (Cacá Diegues), A Lira do Delírio e Ele, o Boto (Walter Lima Jr.), Eu Te Amo e Eu Sei que Vou Te Amar (Arnaldo Jabor), Ópera do Malandro, A Bela Palomeira, Quarup e Estorvo (Ruy Guerra).

Com O Quatrilho, ao lado de Karen Harley, Mair Tavares foi pioneiro no país na edição de imagens com tecnologia Macintosh através do programa Avid.

A Paixão de Jacobina marca a sua segunda parceria com o diretor Fábio Barreto.

Jaques Morelenbaum - Trilha Sonora

Como compositor, arranjador, diretor musical, violoncelista e produtor musical, Jaques Morelenbaum tem uma extensa lista de parceiros e colaboradores. Durante dez anos, acompanhou Tom Jobim em turnês internacionais com a Banda Nova e após a morte do compositor continua a divulgar a obra do grande mestre com o quarteto Jobim/Morelenbaum.

Ao longo dos anos, Jaques Morelenbaum estabeleceu inúmeras parcerias e criou arranjos marcantes para artistas como Egberto Gismonti, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa, Danielle Mercury, Marisa Monte, Carlinhos Brown, entre muitos outros. Entre seus parceiros internacionais destaca-se o trabalho desenvolvido com o pianista japonês Ryuchi Sakamoto desde meados dos anos 90.

Para o cinema, compôs as trilhas sonoras de O Quatrilho, Tieta do Agreste (com Caetano Veloso) e Central do Brasil (com Antônio Pinto).

A Paixão de Jacobina marca a sua segunda parceria com o diretor Fábio Barreto.


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