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Pão
e Rosas |
"Pão e Rosas
começou num ponto de ônibus, por volta das 2:30h da manhã. De repente, fui rodeado por
animados sotaques do México, Honduras, El Salvador e Nicarágua. Mulheres, na maioria.
Começamos a conversar. Trabalhavam como zeladoras para banqueiros, companhias de seguro,
advogados e agentes de Hollywood em alguns dos mais prestigiosos escritórios de Los
Angeles. Davam uma forte impressão, vestindo aqueles uniformes, de que pertenciam a algum
tipo de exército da madrugada", recorda-se o roteirista, Paul Laverty. De acordo com
Ken Loach, Laverty estava em Los Angeles supostamente para fazer um curso na
universidade, mas obviamente fazia outra coisa, convivendo com encrenqueiros.
Próximo do final de 1994, Loach estava editando Terra e Liberdade. Laverty entrou em
contato e em uma de suas cartas mencionou a campanha Justiça para os Zeladores.
Fiquei chocado por várias coisas a respeito deles¹, Laverty se lembra. "Eram
irreverentes e tinham muita energia. Também me fizeram rir muito com suas histórias, mas
havia um senso de direção muito forte em seus esforços. Estavam formando alianças
criativas com organizações de base, estudantes, e igrejas que se uniram eles."
Sentia-se que era uma comunidade inteira desafiando o poder das corporações "Sem
Justiça Não Há Paz" foi central para o direcionamento de sua organização
sindical.
Imediatamente Loach ficou tão entusiasmado sobre o assunto quanto Laverty. Primeiro
porque a história acontecia nos Estados Unidos, onde não havia trabalhado antes, "e
achei que deveria fazer uma tentativa antes de aposentar o visor da câmera. E também
porque era na cidade que é o templo dos filmes, ao mesmo tempo que se tratava de um mundo
paralelo, completamente um outro mundo existindo lado a lado com o mundo do cinema.
Tratava-se da organização de trabalhadores imigrantes, de língua espanhola, muito
vulneráveis, facilmente explorados e que no entanto conseguiram levar o objetivo a cabo.
E depois de trabalhar num filme na Nicarágua, este parecia um outro elemento dentro de
uma mesma história mais ampla: a relação entre os Estados Unidos e países que são
essencialmente suas colônias; não que sejam formalmente colônias mas que na prática
são suas colônias econômicas e culturais."
As seqëências de abertura do filme mostram Maya atravessando a fronteira com outros
mexicanos, tendo dois "coiotes" como guias elo essencial no lucrativo tráfico
humano através da fronteira do México com os Estados Unidos. Maya, e com ela o público,
gradativamente vai descobrindo a outra Los Angeles, esta imensa comunidade
"invisível" de imigrantes, na maioria latinos. São pessoas que andam de
ônibus em LA, que ficam em pé nas esquinas como diaristas à procura de trabalho
-pessoas que fazem os piores trabalhos e ganham os piores salários.
"Tendo passado algum tempo com os sindicalistas, logo compreendi que estavam diante
de uma enorme tarefa", diz Laverty. "Muitos trabalhadores não falavam inglês e
chegavam lá ilegalmente. As empresas de conservação e limpeza não só lhes faziam
ameaças de demissão, mas de deportação dos Estados Unidos. Para completar, muitos
trablhadores tinham dois empregos, às vezes três se contarmos o fim de semana. Estavam
exaustos. Isso, somado aos compromissos familiares, tornavam a tarefa de organização
incrivelmente difícil. Por razões objetivas e concretas muitos trabalhadores se sentiam
atemorizados demais para se envolverem na luta. Por razões muito concretas muitos
trabalhadores estavam desesperados por conseguir mudanças nas terríveis condições de
trabalho. É uma escolha dramática."
"Tentamos ver Los Angeles de uma forma diferente daquela que vemos em geral nos
filmes que dominam a TV: cheia de policiais com seus carros velozes e arruaceiros",
diz Loach. "Queríamos dissipar a névoa da janela para ver as pessoas reais que
existiam lá".
Ken Loach, Laverty e o pesquisador Pablo Cruz passaram vários meses entrevistando
centenas de pessoas em Nova Iorque, Los Angeles, Tijuana e México até que encontraram os
atores e atrizes principais, bem como o vasto elenco "multinacional".
O ELENCO
PILAR PADILLA -
Maya - As atrizes de Los
Angeles, cuja idade e conhecimento do inglês se adequavam ao papel de Maya, não tinham a
necessária formação, naturalidade e consciência de classe que a personagem exigia.
Pilar Padilla, a jovem atriz mexicana que finalmente pegou o papel, não falava inglês e
portanto não foi considerada a princípio. Entretanto, durante as improvisações
realizadas por Loach no México era ela quem contracenava com as outras candidatas.
Aos poucos e bastante naturalmente sua presença começou a roubar a atenção das
câmeras até que se ficou óbvio que ela era a atriz de que precisávamos para o papel de
Maya, uma personagem aguerrida e independente. Como Loach diz, "Pilar é muito
direta, pode-se ler seus pensamentos. Tem grande espontaneidade e magnitude
resplandescente".
Depois de fazer um curso intensivo de inglês de dois meses em São Francisco, Pilar
chegou a Los Angeles para fazer seu primeiro filme. Sua experiência anterior como atriz
foi em peças do teatro independente no México.
Pilar revelou que o trabalho com Loach foi a melhor experiência de sua vida "Acho
que o segredo está na confiança que ele passa, confiança que se espalha por toda a
equipe. Sempre pensei que filmes fossem para cameramen e diretores, não para
atores. Mas
agora sei que, para Loach, os atores vêm primeiro. Com Ken o set se torna um templo. Sou
muito agradecida e sortuda".
ADRIEN-BRODY - Sam - O sucesso de uma
campanha como a Justiça para os Zeladores precisava de pessoas com capacidade de ironia e
imaginação prontas para entrarem em ação. "Quando criança, eu era revoltado, um
encrenqueiro, e botei tudo isso em prática neste filme", diz Brody. Seu personagem,
Sam, é o sindicalista menos sério e burocrático que se possa imaginar.
Sua carreira cresceu recentemente. Nos últimos anos fez filmes com diretores como Spike
Lee, Berry Levinson, Steven Soderbergh e Terence Mallick. "Quando este filme
apareceu, achei que realmente era diferente de Hollywood e dos temas de
Hollywood.
Acontece tudo em LA, mas num lado da cidade que ninguém vê."
Brody admite que teve muito o que aprender. Durante a preparação, teve que participar de
reuniões, de marchas e conviveu com ativistas, "mas o maior aproveitamento foi
durante um curso de fim de semana sobre organização sindical. Tive até que dividir o
quarto!", se lembra rindo. "Ensinaram todas as técnicas sobre as táticas de
ameaças usadas pelas empresas, até visita às casas, a como alcançar níveis de
qualidade de liderança, ou identificar quem poderia ser de ajuda entre os trabalhadores.
Basicamente táticas e estratégias..."
ELPIDIA CARRILLO - Rosa - Elpidia Carrillo
ficou famosa por seus papéis nos filmes Salvador, de Oliver Stone, e The
Border, de Tony Richardson. Sempre se percebia que ela seria a atriz ideal para fazer o papel de Rosa,
irmã de Maya, uma mulher generosa que vai se endurecendo por ter tido sempre que lutar
sozinha.
"É uma mulher mexicana que teve de lutar por trabalho durante quase toda sua
vida", diz Elpidia, "portanto me identifico com isso. Ainda assim, Ken me pediu
que fosse a Tijuana para conhecer as maquiadoras, as montadoras estrangeiras instaladas na
fronteira, os subempregos onde a personagem trabalhava em condições sub-humanas quando
jovem. Também fomos à Rua Coahuila onde estão todas as prostitutas. Acho que esta foi a
parte mais difícil do 'dever de casa', uma coisa muito intensa, triste e
deprimente."
Por morar em Los Angeles, Elpidia conhece muito bem a luta dos imigrantes. "É uma
realidade concreta ali, porém a indústria de Hollywood não toca nela. A maioria dos
filmes são de ação, com os bons e os maus, estes geralmente negros e latinos. Não
querem mostrar o lado sujo de seu próprio país, não querem contar que existem muitas
Tijuanas em Los Angeles."
GEORGE LOPEZ - Perez - O chicano George
Lopez, que faz o papel de Perez, o supervisor, é muito conhecido em Los Angeles como
comediante. Suas gags, de conteúdo social, falam da comunidade latina e tudo o que as
afeta como a Lei 187, que tentou impedir que imigrantes sem documentação recebessem
tramento médico.
ALONSO CHAVEZ - Ruben - Alonso
Chavez,
mexicano, faz o papel de Ruben, um dos companheiros de trabalho de Maya. Seu personagem
não quer se envolver na luta porque isso pode ameaçar sua bolsa de estudos na
universidade.
Na vida real, Alonso se tornou um 'coiote' por necessidade financeira. Desta forma acabou
entrando nos Estados Unidos ilegalmente. Conseguiu trabalho em uma companhia independente
de teatro em Los Angeles e depois ajudou o restante de sua própria companhia, do México,
a atravessar a fronteira, a fim de que pudessem atuar numa peça em Los Angeles. Por um
tempo, enquanto tentava conseguir emprego como ator, ele foi uma espécie de
'coiote'
Robin Hood, ajudando amigos e parentes a atravessar a fronteira pagando pouco. Pão e
Rosas é seu primeiro filme.
O DIRETOR
KEN LOACH - Mais uma vez, Ken Loach deu início à aventura de filmar em outro
país e com personagens que basicamente falam espanhol como já havia feito em Terra e
Liberdade e Uma Canção para Carla. Pão e Rosas fala da condição de ser imigrante. E
em Hollywood, como de um modo geral, ele não é representado. É como o mundo dos
escritores dos séculos dezoito e dezenove antes de Dickens, onde os trabalhadores são
invisíveis. Para Loach, a questão dos imigrantes é, na essência, "uma evolução
da questão de classe." Como alguém diz no filme, "não importa para o patrão
se você é negro ou mulato se ele pode te roubar. Quero dizer, os americanos ricos não
têm nenhum problema com os mexicanos ricos."
Como fez com o grupo de milicianos e mulheres em Terra e Liberdade, com resultados
extraordinários , em Pão e Rosas ele compôs um grupo de zeladores que conduz a
história da campanha do Sindicato. "Tínhamos um grupo fantástico de zeladores e
isso foi importante porque a força ou debilidade de um filme não está apenas nas
pessoas que representam papéis principais, mas toda o entusiasmo e vitalidade
delas."
Loach revelou que filmar em Los Angeles sob a regulamentação do sindicato foi uma
experiência cheia de contradições. "Acho que pode-se ver o lado bom do
sindicalismo, mas também os piores exemplos do sindicalismo, como quando os sindicatos se
tornam sociedades auto-protetoras. Então, de novo, os americanos que fizeram o filme
conosco foram magníficos comprometidos, leais e trabalharam duro.Tínhamos a impressão
de que havia muitas pessoas boas, tentando fazer um bom trabalho, num meio
alienante."
Filmar em Los Angeles é uma atividade muito regulamentada, mas nem sempre da forma mais
lógica, conforme se recorda Loach. "Tínhamos que ser maliciosos em certas ocasiões
e infringir as regras discretamente. Seguir as regras deles, ou contorná-las, ou
encontrar uma outra saída diferente daquela que eles esperavam era sempre muito divertido
...como se fosse um garoto travesso de volta à sala de aula."
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