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Tiros em
Colombine |
A estratégia e motivação de Michael
Moore para a realização deste documentário são muito diferentes de seu trabalho
anterior. Ele explica: "Roger & Me se concentrava em uma única cidade e na
empresa que destruiu a tal cidade. Tiros em Columbine é sobre algo muito maior: uma
sociedade que enlouqueceu e se armou em casa, com um total de quarto de bilhão de
armas."
O desafio é delicado, um chamado à compreensão, a uma empatia selvagem. "A única
coisa que você precisa saber sobre Michael é que ele é um grande patriota e aí está a
razão de ser tão crítico. Ele ama seu país. É irônico que um dos principais
críticos sociais da América seja, também, um de seus maiores patriotas," diz o
produtor Michael Donovan.
Moore ilustra sua teoria do medo através de seu clássico estilo, onde 'nenhuma questão
é pequena demais, nenhuma figura pública é sagrada demais.' No filme, isto é
divertidamente sintetizado em uma engraçada seqüência em animação. "Veja, a
primeira frase que você aprende sobre a história dos Estados Unidos quando criança é:
'Os primeiros colonos (pilgrims) vieram para a América porque tinham medo de serem
perseguidos. Eles tinham medo. Então, o que aconteceu? Os colonos vieram para cá com
medo, encontraram os índios e tiveram medo deles e por isso os mataram; depois, eles
passaram a ter medo uns dos outros e começaram a acreditar em bruxas e as queimaram;
depois, eles ganharam a Revolução, mas tiveram medo que os britânicos voltassem.
Então, alguém escreveu a Segunda Emenda que diz: "Vamos manter as nossas armas,
porque os britânicos podem voltar." O que acontece? Os britânicos voltaram! O que
seria pior para a paranóia? Ver seu medo tornar-se realidade!' "
"Diante disso, as pessoas disseram: 'Foi bom guardarmos as nossas armas! Uau! Segunda
Emenda, ótima idéia!'" O tratamento que Moore dá à história é profundamente
divertido. Ao invés de fazer uma árida interpretação acadêmica dos fatos, ele
acredita que o espectador será mais receptivo a novas idéias se puderem rir. "A
origem do medo na América," Moore explica, "estabelece-se a partir da
existência de uma população escrava que, em apenas 86 anos, desde a Guerra
Revolucionária em 1775 até a Guerra Civil em 1861, cresceu de 700.000 para 4 milhões.
Em regiões do sul rural, o número de negros ultrapassava o dos brancos, numa margem de 3
para 1, o que gerou rebeliões escravas, insurreições e muitas cabeças de senhores
cortadas. Os brancos estavam desesperados diante da possibilidade da libertação dos
negros."
"Então, em 1836," continua Moore, "Samuel Colt inventou a arma de seis
tiros. Antes disso, não era possível disparar uma arma mais de uma vez, você era
obrigado a recarregar a arma. O Colt era portátil e barato. Então, os brancos do sul
compraram o que eles passaram a chamar de O Mantenedor da Paz e foi assim que eles
conseguiram conter a escravidão por 25 anos."
A história das escolas foi diferente disto. Moore explica, "O Exército dos Estados
Unidos recebeu estas armas e nos 40 anos seguintes, exterminaram os índios, porque os
índios só possuíam rifles que atiravam uma bala por vez. Quando o Sul perdeu a Guerra
Civil, os brancos começaram a realmente ter medo e, em 1865, nasceu a Ku Klux Klan. Em
1871, a KKK foi considerada ilegal e alguns meses depois, outra organização, chamada
Associação Nacional do Rifle (NRA) foi formada, que legalizava a propriedade de armas
apenas para os brancos. Era ilegal para os negros possuírem armas. Então, a arma foi
usada nos próximos 80 anos para manter os supostos negros livres em seus lugares, até
1950, quando eles, finalmente, se cansaram e se insurgiram."
"O que fizeram os brancos então? Eles correram, amedrontados, para os subúrbios. E
uma vez nos subúrbios, ainda com medo, compraram milhões e milhões de armas. É o que
nós temos, mais de um quarto de bilhão de armas nos Estados Unidos são de propriedade
de brancos, que vivem em bairros seguros, onde não existe, virtualmente, nenhum crime. É
por isso que nossos assassinatos são, em sua maioria, domésticos: marido-mulher,
namorado-namorada, colegas de trabalho."
GÊNESIS
Nos 13 anos, desde que Moore fez Roger & Me, ele desenvolveu um estilo que é
confrontador, audacioso e divertido. Seus documentários são um modelo para sua
aproximação orgânica a idéias investigativas. "Às vezes, especialmente em
entrevistas, o melhor é o que acontece no momento. Se você se mantém dentro de um
planejamento restrito, então o filme acaba soando rígido e limitado. É importante para
mim deixar que o filme tome seu próprio curso," acrescenta Moore.
Na primavera de 1999, Michael Moore, já premiado cineasta, produtor de televisão,
diretor e escritor, estava trabalhando em uma série de TV, The Awful Truth, que teria
estréia no outono no canal Bravo (EUA e Canadá) e no Channel 4 (Inglaterra). Conhecido
por atuar e atingir os lugares certos na consciência do público, Moore já tinha
terminado um episódio bastante irônico a que ele chamou "Escola de Atiradores
Adolescentes" (Teen Sniper School). "Eu consegui que um instrutor de tiro
ensinasse crianças a partir de 2 anos a atirar. Isto acontecia numa escola, onde nós
lhes ensinávamos a melhor forma de eliminar o capitão de uma equipe de futebol, ou, se
você esqueceu seu antidepressivo hoje, é assim que você pode liberar seu excesso de
agressividade."
Devido à censura, o episódio nunca foi ao ar. Dias depois de terminado, doze estudantes
e um professor foram assassinados na Columbine High School em Littleton, Colorado. Moore
havia, misteriosamente, antevisto um ponto muito nocivo da cultura americana e isto, por
sua vez, gerou clamores, que pediam explicações.
"Eu queria fazer algo sobre aquilo, algo mais," explica Moore. Analisando
cuidadosamente todas as reportagens sobre Columbine, ele começou a perceber
coincidências inesperadas. Eric Harris, um dos dois atiradores de Columbine, viveu parte
de sua juventude em uma base da força aérea, próxima a cidade onde coincidentemente
Moore passou sua infância, em Michigan. E lá estava, também, Terry Nichols, parceiro de
Timothy McVeigh no atentado na cidade de Oklahoma, em 1995, que estudou em uma escola
perto de onde Moore estudou. E Charlton Heston, o gladiador da Associação Nacional do
Rifle (NRA), viveu a uma hora e meia à norte da casa de Moore. O cineasta ficou intrigado
com a cultura de onde fora educado.
Pouco tempo depois, Moore reuniu-se com o produtor Michael Donovan em um bar em Manhattan.
Donovan é sócio da Salter Street Films e produziu a série de Moore, The Awful Truth,
indicada para o Emmy. "Eu lhe expus a idéia de fazer um documentário sobre
armas," relembra Moore. "Eu ainda não tinha terminado a frase quando Donovan
disse: 'Concordo. Levantarei o dinheiro e financiarei o filme.'"
Michael Donovan e Charles Bishop da Salter Street acreditavam que Moore era o homem certo
para fazer este documentário e fazê-lo bem. "Ele é o principal crítico social do
cinema e da televisão nos Estados Unidos de hoje," diz Bishop. "Michael havia
pensado, na época, que seu próximo filme seria sobre saúde," conta Donovan. Mas
este tema era maior, mais imediato e mais perigoso. Durante o processo, Donovan pensou
muito sobre o tema. "Columbine, a obsessão da América por armas. Isto tinha
implicações internacionais, porque o que acontecia em pequena escala com armas de mão,
estava acontecendo em larga escala com mísseis scud e bombas nucleares. Isto tudo vem de
uma cultura que reage, de forma desproporcional, à realidade da situação."
Kathleen Glynn, produtora e esposa de Moore, trabalha ao seu lado nos últimos 20 anos e
é testemunha do processo de sofisticação do marido, sem perder seu lendário humor e
charme. Entre a televisão, escrever livros e realizar documentários, "Michael
explorou todas as possibilidades," diz Glynn. "Este filme é um grande
documento. E foi feito em camadas. Na superfície, é factual e chocante, mas acima de
tudo isto, existe uma aura emocional e crítica, porque pretendemos que o público libere
sua emoção."
Moore acrescenta: "Nas mãos de outro, esse filme seria: 'Ei, vamos seguir esses
loucos armados por aí e rir deles'. Mas as pessoas não vão ao cinema para 'levarem uma
surra' ou para ouvirem sermão. As pessoas procuram bons filmes, porque gostam de
desafios, definitivamente, querem se divertir. Então, como diverti-los e, ao mesmo tempo,
fazer-lhes perguntas difíceis?"
Moore se sentiu à vontade ao falar sobre a teoria do medo. "Existe algo interessante
sobre o cérebro humano. Nós gostamos de sentir medo, adoramos filmes de terror, gostamos
de Halloween. É nosso desejo manter esta sintonia, para quando detectarmos o perigo,
saibamos como dar o fora dali. Mas existe uma diferença: sentir medo no cinema é uma
coisa, ser manipulado pela imprensa ou programas 'realistas', ou um presidente dizendo-lhe
que existe uma mente do mal que irá matá-lo a qualquer momento, é algo diferente."
Do pondo de vista do produtor Charles Bishop, Tiros em Columbine começou como uma boa
idéia e, durante seu desenvolvimento, os eventos que apareciam nos noticiários davam
maior significado ao filme. "A questão aqui é que a idéia inicial do filme
concentrava-se, exclusivamente, em Columbine, mas alguns meses depois, houve as mortes em
Flint, Michigan, de Kayla Rolland, uma menina de 6 anos, morta por um menino de 6 anos.
Flint é a cidade natal de Michael e isto o afetou profundamente, fazendo com que o foco
do filme passasse de Columbine para Flint."
"Este documentário excedeu nossas mais loucas expectativas." Diz Donovan com um
enorme orgulho. "Este filme e seus desdobramentos é dez vezes mais vigoroso do que
pensei. A tragédia de 11 de setembro mexeu com Michael e no filme. Ele estava na festa do
Emmy em Los Angeles e ficou preso lá. Ele não conseguiu um vôo e precisou voltar para
Nova York de carro. Era a primeira vez que fazia aquilo e, enquanto dirigia, todos falavam
sobre o 11 de setembro e ele percebeu a angústia que o povo americano estava sentindo
naquele momento."
A viagem através da América, de Los Angeles a Nova York, que seria, originalmente, de
três dias, transformou-se numa jornada meditativa pelo país. Moore e Glynn tomaram a
rodovia pelo sul e passaram por Oklahoma, Texas e Missouri. Moore explica: "Acho que
antes do 11 de setembro, estávamos tentando encontrar uma linha para o filme e nesta
viagem através do país, resolvemos conversar com as pessoas. Queríamos ouvir o que elas
diziam e fiquei surpreso por não saber de nenhuma tentativa de vingança sangrenta
naquela primeira semana. Havia muita comoção, muita tristeza e muitas perguntas. Por
quê? Por que fizeram isso? Por que eles nos odeiam? O que fizemos? Isso era muito forte e
me fez pensar em como o filme se encaixaria dentro deste cenário."
No geral, na mente de Moore, o padrão de agressividade e comportamento paranóico, é
repetido sempre, sucessivamente, variando apenas o tamanho. "Eu poderia ter feito
este filme há 10 anos e da mesma forma, porque, na verdade, o filme não trata
exclusivamente de Columbine ou mesmo de armas. A América estava no mesmo lugar antes do
que está agora. A questão é a nossa cultura do medo e como este medo nos leva a atos
violentos, no âmbito doméstico ou internacional."
Das 200 horas de filmagem, uma parte do tempo de Moore está comprometida com a arte da
confrontação direta, o que se tornou sua assinatura. É fácil ser acadêmico, é
simples entrevistar testemunhas indefesas, mas está no cinema verité, introduzido junto
às pessoas e corporações, a fonte das questões no coração deste documentário.
"A breve explicação para a técnica de Michael é que ele faz perguntas que as
pessoas gostariam de fazer," diz a produtora Kathleen Glynn. "A explicação
mais correta de dizer é que ele faz essas perguntas a pessoas cujo público acredita
serem capazes de respondê-las, e respondê-las honestamente."
"Algumas vezes você vê uma entrevista, fica excitado e pensa: 'Oh, essa vai ser
boa'", diz Glynn. "Estive com ele várias vezes nessas ocasiões," continua
Glynn, "e costumo pensar. 'Oh, meu Deus, não acredito que ele está fazendo isso.'
Mas ao assisti-lo é como assistir uma cirurgia. Ele é delicado, mas é preciso ter
cautela e estar bem preparado para o que vem, pois ao começar, nunca se sabe o que se vai
encontrar." Sob o ponto de vista de Moore, essas entrevistas são uma forma dele se
manter de fora do documentário, embora ele saiba que o filme reflete a sua posição
pessoal. É muito importante para ele que as pessoas dêem suas próprias opiniões sobre
os temas e entrevistas que ele propõe.
"Desnecessário dizer que Michael não tem medo," explica Glynn, com o
conhecimento de duas décadas de experiência ao lado de Moore. "Ele é um verdadeiro
investigador e ao fazer perguntas e ouvir respostas que não são o que ele
necessariamente tem em mente, é que mantém a sinceridade do processo."
"Disseram-me que ao envelhecer, você acalma e fica mais conservador," diz o
cineasta. "Na medida que fico mais velho, fico mais ativo. Vou fazer 48 anos na
próxima semana e acho que Tiros em Columbine é o a coisa mais provocativa que já fiz em
termos de cinema."
BIOGRAFIAS
MICHAEL MOORE (Roteiro/Produção/Direção) - Michael Moore é premiado
diretor de Roger & Me de 1989, a história de sua inexorável tentativa de confronto
com o Presidente da General Motors, Roger Smith, sobre os efeitos devastadores do
enxugamento (donwsizing) da GM na cidade de Flint, Michigan. Roger & Me apareceu em
mais de cem listas como "Um dos Dez Melhores Filmes do Ano", ganhou o prêmio de
Melhor Documentário da Associação dos Críticos de Cinema de New York e prêmios de
outras associações de críticos por toda a América. Moore empregou o lucro do filme
para fundar o Centro de Mídia Alternativa, uma fundação que, desde de sua criação,
desembolsou mais de meio milhão de dólares em subvenção para cineastas independentes e
grupos de ação social.
Moore nasceu e foi criado em Flint, onde aos 18 anos, concorreu para o conselho de
diretores da escola e ganhou, tornando-se um dos mais jovens no país a ser eleito para o
cargo público. Aos 22 anos, fundou a The Flint Voice (A Voz de Flint), uma dos mais
respeitados jornais alternativos do país por 10 anos. Em meados de 1990, Moore foi
produtor, diretor, roteirista e apresentador da premiada série de TV Nation, que foi
exibida pela NBC e depois pela Fox.
Moore, também, escreveu e dirigiu uma comédia Canadian Bacon (Un Certain Regard, Cannes
1995). Seu segundo e premiado documentário foi The Big One, que revelava a cobiça e o
mau procedimento nos grandes negócios por toda a América, forçando a Nike a acabar com
o uso do trabalho infantil na Indonésia. Como escritor, Moore escreveu alguns
best-sellers, incluindo Downsize This! Random Threats from na Unarmed American, que
escreveu com sua mulher Kathleen Glynn.
Em 1999 e 2000, Moore produziu duas temporadas da série indicada para o Emmy, The Awful
Truth, para a Bravo (EUA e Canadá) e Channel 4 (Inglaterra). O L.A. Times considerou a
série como "a mais inteligente, divertida sátira política."
Michael Moore dirigiu, também, clipes musicais para o REM E Rage Against the Machine, e
apareceu várias vezes em Politically Incorrect, The Late Show with David Letternam e Late
Night with Conan O'Brien.
O último livro de Moore sobre humor político leva o título Stupid White Men and Other
Sorry Excuses for the State of the Nation, foi o primeiro da lista de best-sellers do The
New York Times durante nove semanas consecutivas na época de seu lançamento. O livro
também foi muito bem recebido no Canadá e na Inglaterra e já está em sua 19o.
edição.
KATHLEEN GLYNN (Produtora) - Kathleen Glynn, produtora premiada com um
Emmy e Montreaux, já trabalhou com Moore em quatro filmes e duas séries de TV.
Começando com Roger & Me, Glynn também produziu Canadian Bacon, The Big One e,
agora, Tiros em Columbine. Além destes, Glynn produziu, também, os premiados TV Nation e
The Awful Truth, para a televisão. Kathleen Glynn está a frente da produtora Dog Eat Dog
Filmes.
MICHAEL DONOVAN (Produtor) - Michael Donovan co-fundador da Salter Street
Films, produtora canadense de filmes e televisão da Alliance Atlantis. Ele tem 24 anos de
experiência em criação, financiamento, produção e marketing no mercado canadense de
cinema e televisão. Seu trabalho para a televisão canadense foi reconhecido com doze
prêmios Gemini e três indicações para o Emmy Internacional.
CHARLES BISHOP (Produtor) - Além de Vice-presidente Executivo da Salter
Street Films, Charles Bishop é o responsável por toda a produção de séries para
televisão para Alliance Atlantis Entertainment Group. Bishop tem cerca de 20 anos de
experiência em produção para cinema e televisão. Até vendê-la para a Salter Street
Films, em 1998, Bishop tinha sua própria produtora em Halifax, Nova Escócia.
Dentre os muitos prêmios nacionais e internacionais que Bishop ganhou, destacam-se o
Gemini de Melhor Séries Informativas de 2000, o Gemini de Melhor Programa Dramático de
1998, Can-Pro Awards de Melhor Série Documental de 1998.
JIM CZARNECKI (Produtor) - Jim Czarnecki é amigo e colaborador de
Michael Moore há mais de 10 anos, começando pelo premiado TV Nation, passando por The
Awful Truth, Canadian Bacon e The Big One. Antes de trabalhar com Moore, Czarnecki já
havia se estabelecido na comunidade cinematográfica de Nova York com os filmes Sid &
Nancy, versão para cinema de Sandra Bernhard de Without You I'm Nothing; e Pee Wee's
Playhouse. Czarnecki, também, produziu Julian donkey-boy; foi produtor executivo de Love
Liza e da Ridley Scott and Associates (RSA), onde produziu comerciais de TV dirigidos por
Martin Scorsese, Oliver Stone, Spike Lee, Chris Cunningham e Woody Allen.
WOLFRAM TICHY (Produtor Executivo) - Wolfram Tichy é fundador e único
dono da TiMe Medienvertriebs GmbH e da TiMe Film - und TV Produktions GmbH. Também, é
responsável por criar o primeiro Cinema para Crianças Alemãs e foi co-fundador do
primeiro cinema municipal alemão em Frankfurt.
De 1977 a 1985, Tichy foi responsável pelas aquisições da Wagner-Hallig Film e, de 1985
a 1989, pela divisão de cinema da Beta-Taurus. Em 1989, Tichy montou sua própria
produtora, TiMe Medienvertriebs GmbH, em 1989. Depois de ser co-roteirista da minissérie
The Minikins, Tichy montou a TiMe Film - und TV Produktions GmbH em 1933 para a produção
da série de TV de grande sucesso, Lexx. Além de escrever várias biografias, Tichy
produziu mais de vinte filmes e séries de TV, incluindo Deeply, Eisenstein, Where Eskimos
Live, Love The Hard Way e as séries de TV, Myth Quest. Tiros em Columbine é a quarta
co-produção com a Salter Street Films, depois de Lexx.
ALLIANCE ATLANTIS COMMUNICATIONS INC. - Alliance Atlantis Communications
Inc. lidera o ramo das comunicações como criadora e distribuidora de filmes,
proprietária de ações de 18 canais de TV, cinco já em operação: Showcase, Life
Network, History Television, HGTV Canadá e Food Network Canada; e nove inaugurados
recentemente: Series+, Historia, Showcase Action, Showcase Diva, The Independent Film
Channel Canada, Discovery Health Channel Canada, BBC Canada, BBC Kids e National
Geographic Channel; e mais quatro canais como acionista minoritária: Scream, The Score,
PrideVision TV e One: the Body, Mind and Spirit Channel. Os principais negócios da
empresa são dirigidos por três grupos: Broadcast Group, Motion Picture Distribution
Group e The Entertainment Group. Com sede em Toronto, a Alliance Atlantis tem escritórios
em Los Angeles, Londres, Montreal, Dublin, Edmonton, Halifax, Shannon e Sidney.
ENTREVISTA COM MICHAEL MOORE
POR SERGE KAGANSKI
LES INROCKUPTIBLES, Nº359
O IMPÉRIO DO MEDO
Herói popular, agitador, documentarista engraçado, cineasta eficaz, Michael Moore
tornou-se em pouco tempo o nosso novo amigo americano. Descoberto em 1989 com o cáustico
"Roger e Me", impõe-se hoje, depois de três documentários, uma ficção,
alguns livros e uma série para televisão, como o mais célebre crítico da América
dominante. (
) É graças a pessoas como Michael Moore que a América não nos faz
desesperar completamente, e o seu novo barril de pólvora, BOWLING FOR COLUMBINE,
vinga-nos de todos os filmes insípidos que Hollywood persiste em despejar em todos os
ecrãs do mundo com objectivos anestéticos ou de propaganda. E quando ele nos fala da
violência americana e dos meios de comunicação a soldo da ideologia do medo, quando ele
vomita Bush e venera Kubrick, isso é uma mudança nos estereótipos dos hollywoodianos em
promoção nas províncias da Europa. Conversa com um cidadão estadunidense.
No início, BOWLING FOR COLUMBINE tinha como tema um fait divers. O resultado é bem
mais alargado. Como é que o projecto evoluiu?
Michael Moore - O filme demorou três anos a fazer. Era um verdadeiro puzzle que era
preciso juntar. Um acontecimento como o 11 de Setembro tornou-se, como é óbvio, numa
peça suplementar neste puzzle. Nós, os americanos, somos tanto senhores como vítimas de
uma violência extrema. A questão que me coloco ao longo de todo o filme é:
"Porquê?". Mas é bom que um filme evolua ao longo da sua feitura. Você é
espectador: se eu o levar para uma viagem de questionamento e descoberta será mais
interessante e excitante se participar plenamente e a viagem for imprevisível. É melhor
assim do que estar tudo programado à partida. Não é muito excitante ver um filme em que
o realizador respondeu a todas as questões e sabe onde vai. Pelo contrário, imagine um
filme em que o realizador não conhece as respostas, ou em que as respostas que há são
más e ele aceita o desafio de encontrar outras. Por exemplo, eu achava que os canadianos
não andavam aos tiros porque não tinham armas. Fui ao Canadá e descobri que tinham
tantas armas como na América. Era então preciso encontrar outras respostas. E não é
nisso que consiste o que amamos no cinema: as incertezas, as viragens, as surpresas...?!
Não gostamos dos filmes em que adivinhamos a cena a seguir. Mesmo que a maioria dos
filmes seja assim.
O filme aborda muitos temas. Como é que fez a triagem e arranjou um assunto central -
a paranóia e a violência da sociedade americana?
Foi muito difícil. Nos meus outros filmes os meus alvos são muito fáceis de
identificar: a General Motors, a Nike... Neste, o alvo somos nós, os americanos. É o
público americano que vai ver o filme. A base do meu objectivo é a razão da violência
e do número de assassínios e não as armas, somos nós. Há um problema no nosso
comportamento colectivo, na nossa mentalidade. É um adversário bem mais difícil de
circunscrever, e isso fez com que este fosse um filme mais difícil de fazer.
Não acha que se regulamentassem a venda de armas como nos países da Europa, a
violência e a taxa de criminalidade baixariam consideravelmente, independentemente da
mentalidade dos americanos?
Não. Haveria talvez menos mortos, mas o decréscimo não seria significativo. E
sobretudo, a mentalidade dos americanos continuaria a ser a mesma, uma mentalidade que
lhes diz que é normal ser-se violento com outra pessoa para resolver um conflito, que é
normal que o Estado exerça violência sobre os pobres. Se regulamentássemos as armas, as
pessoas não deixariam de morrer por causa da violência. A prioridade é corrigir a nossa
forma de pensar e agir. Veja o exemplo dos suíços: há uma arma por lar porque não há
exército e está na lei. E quantos assassínios há na Suíça por ano? Setenta, 80 no
máximo: a taxa de assassínios por habitante na Europa. Mas mesmo assim é muito baixa
comparada aos 11200 assassínios anuais nos Estados Unidos. Simplesmente, os suíços não
são loucos a puxar o gatilho. Nem os franceses.
Em França, não temos armas.
Mas se quisesse realmente ter uma, poderia. Além disso, têm mais armas em circulação
agora do que no passado e a vossa taxa de assassínios subiu um pouco. Digo-lhe uma coisa:
assim que começarem a romper a vossa rede de segurança social, assim que descurarem os
pobres, que comecem a acusar os vossos imigrantes, que comecem a agir como nós o fazemos
há anos nos Estados Unidos, vão começar a parecer-se connosco. Mas tenham cuidado. A
ética francesa diz: "se alguém adoece, se alguém perde o trabalho, há uma
responsabilidade colectiva de ajudar essa pessoa". A ética americana, por seu lado,
diz: "Vai-te foder! Cada um por si!". E é esta forma de pensar, esta
mentalidade que deve mudar absolutamente.
No filme diz que é membro da NRA (National Rifle Association). É verdade ou era um
estratagema para conseguir a entrevista com Charlton Heston?
Não, é verdade. Tornei-me membro na adolescência. E sou membro para toda a vida mesmo
não usando armas e mesmo que me oponha fortemente ao porte de armas. Depois de Columbine,
pensei candidatar-me contra Charlton Heston, ganhar e depois dissolver a organização.
Depois, mudei de programa: fiz um filme. Mas no início a NRA era uma espécie de
organização desportiva. Só mais tarde é que se tornou numa organização de extrema
direita.
Apesar ou graças à sua carga crítica, o seu filme pode ser considerado como sendo muito
patriótico. É na realidade mais patriótico do que Bush porque se preocupa mais com o
interesse geral do que com interesses particulares.
Sem dúvida! Estou totalmente de acordo com essa noção. Acho que podemos e devemos fazer
melhor. Acho que nós, os americanos, merecemos melhor. Há muitos aspectos positivos nos
americanos, então porque não corrigir e melhorar o que não está bem?
Como é que o público americano olha para si? Como um traidor?
Oh não! Como alguém que gosta profundamente do seu país, como um cidadão normal. Não
me colocam nem na extrema esquerda nem nas margens da intelligentsia. O meu livro é o
mais vendido na categoria da "não-ficção" neste ano nos Estados Unidos. Desde
o 11 de Setembro, desde que Bush está na Casa Branca, o número 1 de vendas chama-se
"Stupid White Men". Por isso tenho esperança. Não estou isolado.
No entanto, a imagem da América no estrangeiro continua a ser de uma sociedade
revanchista, maioritariamente unida apoiando Bush.
Essa imagem é falsa. Donde é que vem? Quem a criou e quem a veicula? Viu neste ano na
televisão o autor número 1 nos Estados Unidos? Porque é que os meios de comunicação
social franceses nunca me mostram na televisão? Porque é que quando 7000 pessoas fazem
fila numa livraria quando dou uma conferência de imprensa não vê esses americanos na
sua televisão? Os que vê são só aqueles que agitam uma pequena bandeira à frente de
Bush.
Também lemos artigos de pessoas como Noam Chomski, mas esses americanos parecem uma
minoria.
Compreendo o que diz, mas não é verdade. O que é verdade é que é mais difícil
exprimir uma opinião contrária à política externa americana, podemos ser acusados de
traição. Tornou-se por exemplo mais difícil para mim aparecer na televisão americana.
Há sete meses que o meu livro é um best-seller e nunca fui convidado para uma única
emissão numa grande cadeia de televisão.
Quando vemos os telejornais que vêem os americanos, chegamos à conclusão que eles não
têm as ferramentas necessárias para pensar de outra forma...
É verdade. Mas por outro lado, têm uma taxa de audiência de uma fraqueza histórica. As
pessoas estão fartas dessas notícias onde a violência é erguida como espectáculo. No
fundo, todos temos vontade de acreditar que o homem é bom. Cada dia, os meios de
comunicação de massas dizem-lhes para não confiarem em ninguém, que as pessoas são
más, que é preciso fechar a porta à chave, votar nos conservadores que vão
protegê-las e defendê-las. Graças a eles, vai haver mais armas, mais polícia... Tudo
isso está ligado de forma a que os conservadores nunca abandonem o poder. Mantém-se a
população no medo. O fascismo triunfa quando a população é atormentada pelo medo,
porque as pessoas estão angustiadas e precisam de um chefe. É assim que estamos neste
momento nos Estados Unidos.
Podemos comparar o estado actual dos Estados Unidos ao maccarthismo?
Completamente. O meu próximo documentário vai prolongar a reflexão que comecei em
Columbine. Vou dissecar a forma como Bush se serve do 11 de Setembro no seu próprio
interesse. Resumindo a sua política, é "Dêem-nos mais poder! Larguem as vossas
liberdades públicas! Vamos bombardear o Afeganistão, vamos bombardear o Iraque".
Mas estou optimista porque a maioria das pessoas não apoia Bush. A maioria não votou
nele, ele não se tornou presidente pela vontade do povo. Ainda estou chocado com esta
eleição viciada com a ajuda do irmão (governador na Flórida) e do pai e vou chateá-lo
até à minha morte.
De acordo com a sua opinião, uma administração democrata é melhor?
É mais ou menos igual. Digamos que os democratas são menos directos, mais dissimulados
nas suas práticas devassas. Salvam a aparência, são aparentemente mais afáveis, mais
tolerantes, mas isso é só à superfície. Não sabemos como reagiria Clinton se fosse
Presidente no 11 de Setembro. Tenho quase a certeza que teria feito como Bush.
Diz que não pertence à intelligentsia de esquerda, mas relaciona-se com essas
pessoas?
Claro. Fiz campanha para os Verdes, admiro Noam Chomsky e os intelectuais ou
universitários do género. Não sou de todo anti-intelectual, mas cada um é útil no seu
lugar. Eu não faço parte dos círculos intelectuais e tento chegar a um público o mais
lato possível.
É um bom entrevistador. Não tem medo de apanhar de surpresa os seus interlocutores e
pôr o público no bolso de forma demasiado fácil?
A relação de força nunca é a meu favor. As pessoas que abano são pessoas que detêm o
poder, que estão à cabeça de multinacionais, que controlam os meios de comunicação
social... Eu estou sozinho com a minha câmara. Quando os assalto de surpresa, são apenas
os meios para tornar o nosso diálogo um pouco mais igual. Charlton Heston, da NRA, é o
presidente da maior e mais poderosa organização nos Estados Unidos. K-Mart é a segunda
cadeia de supermercados, é uma empresa enorme. Por isso não tenha pena deles.
O que é que aconteceu com Charlton Heston depois da entrevista? Tentou recuperar a
cassete, censurar o filme, processá-lo?
Logo depois de o ter filmado a entrar em casa, os portões foram fechados, estávamos
fechados na propriedade. Mas tinha tido o cuidado de deixar um dos meus rapazes lá fora.
Peguei na cassete e dei-lha e disse-lhe para se pôr a mexer. Quando viram isso,
desistiram e abriram os portões. Mas, durante um momento, pensámos mesmo que nos iam
partir a cara.
Os seus filmes são radicais mas obedecem aos princípios clássicos do espectáculo
de massa na forma. Acha que essa é uma contradição?
Não. Acho que é uma contradição maior quando as obras radicais tocam 300 pessoas que
já estão convencidas. Um discurso radical não quer mudar a sociedade? Nesse caso, ao é
melhor chegar às massas? O facto de eu conseguir chegar às massas é uma verdadeira
vitória para todas as pessoas de esquerda.
É cineasta. Tem modelos, influências estéticas maiores?
Em primeiro lugar Stanley Kubrick. Admiro-o em tudo: no estilo, nos temas, na
independência face a Hollywood... Ele era audaz, tentava sempre coisas novas, estava
sempre à frente do seu tempo, tinha uma visão forte do estado do mundo. A Laranja
Mecânica é sem dúvida o filme que mais me marcou e inspirou. Táxi Driver também não
anda longe disso.
A Laranja Mecânica e Táxi Driver são filmes que falam da relação entre a violência,
a sociedade e a política, como Columbine...
A violência é um assunto que me interessa há muito tempo. Cresci na época dos
levantamentos raciais perto de Detroit, depois a Guerra do Vietname. Aí fui obrigado a
pensar na questão: "E se for recrutado?". Não queria de todo ir matar
vietnamitas. Este filme é sem dúvida o cumprimento de 30 anos de reflexão.
A segurança era o tema mais importante da nossa campanha presidencial. Le Pen fez 17 por
cento sobre este tema a que os grandes candidatos voltaram todos à carga.
Eles sabem que é humana a tendência a ter medo do que não se conhece, do que é
diferente. Se manipulamos as pessoas sobre estes temas, podemos juntar muitas vozes.
Hitler não fez um golpe de Estado, foi eleito. As pessoas sentem falta de um, chefe, de
um protector, de um pai.
Quando os europeus criticam os americanos fica contente ou tem um reflexo patriótico?
Gostaria que essas críticas fossem mais severas e mais numerosas. Nunca as encarei como
anti-americanismo. As pessoas muito críticas podem amar o rock, o jazz, os jeans, os
filmes de Scorsese... E acho que o americano médio também sabe fazer essa distinção. O
Governo pode fazer-nos crer que o mundo inteiro nos odeia. Mas as últimas sondagens
mostram que a maioria dos americanos não apoiará a intervenção no Iraque se os países
aliados não a apoiarem. É por isso aflitivo ver Blair a apoiar Bush, Chirac a hesitar.
Digo aos europeus: "Então maltam estamos a contar convosco! Não nos deixem! Sem
vocês, Bush não mexerá uma palha".
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