
Nome:
Charles Spencer Chaplin
Data
de Nascimento: 16 de Abril de 1889
Local
de Nascimento: East Lane - Walworth - Londres - UK
Data
da Morte: 25 Dezembro de 1977 (Causas Naturais)
Alguns
fatos de sua vida:
Filho de um cantor barítono (Charles
Chaplin)
e da atriz Lily Harvey (nome do primeiro casamento: Hannah Hill), ambos artistas
do music-hall.
A mãe de Charles
Chaplin, aos 16 anos até então como Hannah Dryden ( sobrenome de solteira ) abandonou a
família para se tornar dançarina em um teatro de comédia. Sydney era filho do primeiro
casamento de Hannah com um lorde com o qual vivera um ano na África, era portanto
meio-irmão de Chaplin.
Chaplin ainda pequeno, viu seu pai começar a beber e se tornar uma
pesoa altamente agressiva, o que ocasionou o abandono da família por parte do pai
- Hannah e os dois filhos ( pois Sydney fora reconhecido por Charles (pai) como filho ) -
em um pequeno cômodo alugado.
Chaplin pôde demonstrar pela primeira vez
o seu grande talento para a interpretação em um teatro, devido a um grave problema na
laringe de sua mãe Hannah Chaplin (Lily Harvey) que levou-a a perda total de sua voz.
Nessa ocasião, Hannah Chaplin representava A Cantina no
teatro Aldershot, local frequentado principalmente por soldados e por uma platéia
grosseira em busca de qualquer motivo para risadinhas e caçoadas.
Aldershot era o terror de todo artista. Ao perder a voz no meio
de A Cantina, Hannah Chaplin ( Lily Harvey ) sofreu vários golpes de
objetos atirados à ela além de " miar como gatos " e
" cantar em falsete " (referencia de Chaplin em sua
autobiografia). Obrigada a sair de cena Lily Harvey voltou até os
bastidores do teatro, acabando por discutir com o empresário. O
empresário que já havia visto o garoto Chaplin representar para os
amiguinhos, mandou o menino ao palco. Chaplin sozinho começou a
cantar uma cantiga muito conhecida da época ( Jack Jones ) com a sua
voz de criança fazendo os violinos da orquestra " arranharem
" até acertarem o seu tom, além de cantar com seu jeitinho
faceiro, Chaplin até fez imitações de sua mãe perdendo a voz
atraindo a sorte de moedas que a platéia vibrante jogava ao palco
para o talentoso garoto desesperado, Chaplin agarrava uma a uma
enquanto cantava; desconfiando do empresário que com um lenço veio
ajudá-lo. Seguindo o empresário Chaplin saiu do palco por um certo
intervalo de tempo. Tal desconfiança foi transmitida à platéia,
voltando ao palco depois que o empresário lhe entregara o dinheiro,
arrancando várias gargalhadas do público. Ao fim da aparição do
pequeno Chaplin, Hannah buscando o filho no palco atraiu vários
aplausos da platéia. Esta noite marcou a primeira aparição de
Chaplin aos cinco anos de idade e a última de sua mãe.
Por este motivo Hannah ficou desempregada indo morar ela e os dois
filhos em um asilo para pobres de Lambeth, passando a trabalhar como
enfermeira e cosendo em casa (em uma máquina de aluguel).
Foram também morar, os três, nas escolas de Hanwell para crianças
órfãs e indigentes, período em começaram a surgir os primeiros
sintomas de insanidade mental em Hannah (medicada através da
Assistência Municipal). Acredita-se que a insanidade de Hannah tenha
sido em função da pobreza (mendicância) que ela e os filhos viviam
após sua saída do teatro.
Após Hannah procurar medicamento na Assistência Municipal, seus
filhos só voltaram a vê-la em um manicômio onde também dormiam em
um cômodo à parte. Assim Sydney conseguiu um emprego como mensageiro
em um telégrafo e o garoto Chaplin passou por diversas ocupações:
entregador de mercearia, recepcionista de consultório médico, garoto
de recados, entregador de papelaria, soprador de vidros ( esta
ocupação só durou um dia, pois fez tanto esforço que caiu
desmaiado), tipógrafo, vendedor de trapos.
Os primeiros anos da vida de Chaplin se passaram em orfanatos, e foi
neles onde Chaplin encontrou todos os elementos que utilizaria mais
tarde nos roteiros dos filmes que dirigiu e interpretou. Essa primeira
etapa da sua vida não tinha o humor nem a ironia com a qual o
cineasta sensibilizou o público do mundo inteiro.
Algum tempo mais tarde, Charles viu-se vivendo em orfanatos, só e
abandonado, pois, seu irmão Sydney empregara-se como marinheiro e
Hannah ainda continuava internada em manicômios. Foi neles onde
Chaplin encontrou todos os elementos que utilizaria mais tarde nos
roteiros dos filmes que dirigiu e interpretou. Essa primeira etapa da
sua vida não tinha o humor nem a ironia com a qual o cineasta
sensibilizou o público do mundo inteiro.
Antes: Chaplin e Sydney ainda foram morar com o pai e a amante Louise
que quando estava alcoolizada cometia incríveis malvadezas com os
meninos. A loucura de Hannah temperava-se com seu jeito doce e meigo;
saiu do manicômio recuperando a posse dos filhos.
Felizmente, Chaplin acabou construindo a sua vida com a única coisa
positiva que poderia ter herdado da sua família: a paixão pelo
teatro. Graças a seu pai, comemorou o seu oitavo aniversário
contratado por uma companhia de bailarinos chamada Eight Lancashire
Lads.
Pouco depois, a morte do seu pai e a internação da sua mãe em um
sanatório marcariam a vida de Chaplin até 1901. Nessa época,
assinou seu primeiro contrato estável como ator, interpretando um
mensageiro em uma versão de Sherlock Holmes. Com esse trabalho,
melhorou a sua situação financeira. Nesse mesmo ano conseguiu um
emprego no Circo Casey, onde pode desenvolver as suas habilidades
cômicas. Já na primeira apresentação, conseguiu arrancar sonoras
gargalhadas do público pela maneira desesperada com a qual recolhia
as moedas atiradas à arena. O adoslecente Chaplin conseguiu um lugar
no companhia do acrobata Fred Karno, apresentado por seu irmao Sidney.
Karno, que fazia sucesso com espetáculos de mímica, chegou a ter
cinco companhias, apresentando-se em todas simultaneamente. Chaplin
rapidamente superou o artista Harry Weldon, com quem dividia o
número, e, em 1909, teve a sua primeira temporada em Paris.
A CIDADE MÁGICA
Chegando em Paris, conheceu os favores das prostitutas, e a cidade
onde os irmãos Lumière, George Méliès e Max Linder fizeram nascer
a magia do cinematógrafo. Anos mais tarde, Max Linder diria: "Chaplin
teve a gentileza de me confessar que os meus filmes o levaram a fazer
os seus próprios filmes. Chamou-me de mestre, mas fui eu que tive o
prazer de aprender com ele". Naquela época, o mundo das imagens
animadas ainda lutava para conseguir uma linguagem própria e um
reconhecimento social.
Depois de uma outra turnê pelo norte da Inglaterra, Karno ascendeu
Chaplin a primeiro ator das representações que a companhia faria nos
Estados Unidos, em 1910. Toronto e Nova lorque foram as primeiras
paradas desta turnê, antes de prosseguir para o oeste. A Broadway
não assimilou o humor inglês, mas Chaplin chamou a atenção de
alguns jornais e de um jovem espectador, que nessa época trabalhava
para o cinema; era Mack Sennett, que voltaria a encontrar Chaplin dois
anos mais tarde, em uma nova turnê pelos Estados Unidos.
O NASCIMENTO DE CARLITOS
Enquanto estava na Filadélfia, em 1913, Chaplin recebeu um telegrama
pedindo~lhe que fosse até um escritório no centro da Broadway. Ali
funcionava a sede da Keystone Comedy Film Company, onde lhe ofereceram
um salário de 150 dólares para que fizesse três filmes por semana.
Depois de algumas negociações, Chaplin acabou aceitando o trabalho
e, ao chegar em Los Angeles, reencontrou Mack Sennett, que seria seu
novo chefe.
Chaplin dividiu camarim com estrelas da casa, como Ford Sterling,
Roscoe Arbuckle e Mabel Normand. No início, Chaplin teve que se
adaptar ao estilo de Sennett, com perseguições policiais e
exibições de insinuantes banhistas. O seu primeiro filme, estreado
em fevereiro de 1914, mostrava as aventuras de um personagem cômico
na redação de um jornal. Em seu segundo filme, Corrida de
automóveis para meninos (1914), criou um personagem que logo seria
identificado pelo público. Sennett pediu-lhe que se vestisse de
maneira engraçada. "Pensei que poderia usar umas calças muito
grandes e uns sapatos enormes, além de uma bengala e um chapéu coco.
Queria que tudo fosse contraditório: as calças folgadas, o paletó
apertado, o chapéu pequeno e os sapatos enormes. Não sabia se
deveria parecer velho ou jovem, mas quando me lembrei que Sennett
tinha pensado que eu era bem mais velho, coloquei um bigodinho que me
daria alguns anos sem esconder a minha expressão". Assim nasceu
o famoso Carlitos. As disputas com outros diretores e a ambição
dificultaram sua relação com a Keystone, depois de ter filmado 35
longas-metragens em apenas um ano. Não foi difícil conseguir, em
1915, um contrato com a Essanay, a produtora que tinha por estrela
principal Gilbert M. Anderson, o famoso Bronco Billy dos primeiros
filmes western. A partir desse contrato, Chaplin começou a ganhar
1.250 dólares por semana e uma bonificação extra de 10.000
dólares, com a qual formou uma equipe bastante competente,
consolidando uma técnica e um estilo próprio.
Insatisfeito com os estúdios da Essanay em Chicago e em São
Francisco, instalou-se em Los Angeles. Desde o primeiro dos quinze
filmes que realizou para essa produtora, teve a colaboração de
Rollie Totheroh, seu fiel câmera durante sua carreira nos Estados
Unidos. Contratou Edna Purviance como primeira atriz dos filmes que
realizaria nos próximos quinze anos e, logo após ter começado a
dirigir, percebeu "que o posicionamento da câmera não era
apenas uma questão psicológica, mas também constituía a
articulação da cena; na verdade, era a base.do estilo
cinematográfico". O sucesso de Chaplin foi consolidado pelo
contrato com a Mutual, em 1916. Em troca de 10.000 dólares semanais e
de uma bonificação inicial de 150.000 dólares, Chaplin
comprometeu-se a entregar doze curtas-metragens de duas bobinas,
dentre os quais estão algumas das suas primeiras obras-primas:
Carlítos no armazém (1916), R ua da paz (191 7), O balneário (191
7) e O emigrante (191 7). A produtora colocou um novo estúdio à sua
disposição, o Lone Star, e o cineasta pôde trabalhar com liberdade,
rodeado por uma equipe de fiéis colaboradores como os atores Eric
Campbell, Henry Bergman, Albert Austin e Edna Purviance.
A respeito de seu envolvimento com Edna Purviance, o próprio Chaplin
reconheceu na sua autobiografia: "Como Balzac, que achava que uma
noite dedicada ao sexo significava a perda de uma boa página de algum
dos seus romances, eu também achava que seria perder um ótimo dia de
trabalho nos estúdios".
ARMAS EM PUNHO
Quando os Estados Unidos decidiram entrar na Primeira Guerra Mundial,
em 1917, Chaplin utilizou a sua popularidade para vender bônus de
guerra com Mary Pickford e Douglas Fairbanks.
Dessa experiência surgiram dois filmes 7he Bonde e Carlítos nas
trincheiras (1918), uma paródia do exército. Apesar do compromisso
com a Cia. First National, o cineasta se uniu a Fairbanks, Pickford e
ao realizador David Griffith para criarem juntos a companhia United
Artists. A primeira intenção era romper o monopólio de Hollywood,
mas Chaplin só pôde começar a dedicar-se à United Artists depois
de rodar os nove filmes que havia prometido à First National. Entre
eles, rodou Vida de cachorro (1 918), Os clássicos vadios (1 92 1), O
peregrino (1923) e O garoto (1 92 1). Essa obra-prima de seis rolos
contou com a participação do pequeno Jackie Coogan e teve que ser
montada longe do domínio dos diretores do estúdio. Nessa mesma
época, Chaplin, que já era um cineasta, casou-se com a atriz Mildred
Harris, em outubro de 1918, quando ela tinha apenas dezessete anos;
tiveram um filho que morreu logo depois de ter nascido, e o casamento
durou pouco. Em setembro de 1921, oito anos depois de sua chegada aos
Estados Unidos e quando ainda não tinha concluído o seu contrato com
a First Nacional, Chaplin decidiu viajar à Europa. A sua passagem por
Paris e londres foi memorável. Durante essa viagem, conheceu várias
personalidades do mundo da cultura e escreveu um livro: My Trip Abroad,
baseado nessa experiência.
AS MULHERES E O CINEMA
Edna Purviance deveria ter interpretado o papel de Josefina no filme
sobre o imperador francês, mas, nesse momento, outras mulheres
surgiram na vida de Chaplin. A primeira foi a sua própria mãe, que
se mudou de Londres para uma casa na costa da Califórnia, onde o seu
filho a instalou sob os cuidados de uma enfermeira. Nessa casa, a
velha atriz assistiu com grande orgulho todos os filmes de Chaplin,
até morrer, em 1928, durante a filmagem de O circo, filme com que
Chaplin ganhou o seu primeiro Oscar. A segunda destas mulheres, com a
qual Chaplin teve uma relação muito agitada, foi Peggy Hopkinsjoyce,
dona de uma conta bancária de três milhões de dólares. Ela contava
histórias sobre as suas relações sentimentais, como a de um jovem
que se suicidou por sua causa em Paris. Chaplin não deixou nenhuma
dessas histórias escapar e inspirou-se nelas para o filme A opiníão
pública (1923), sua estréia definitiva na United Artists, que
curiosamente não contou com a presença de Carlitos. Chaplin também
tinha conhecido Pola Negri, quando a atriz alemã estreou em
Hollywood. A relação de Pola Negri com Chaplin foi um escândalo
alimentado pela imprensa sensacionalista, com manchetes que anunciavam
um casamento que nunca chegou a ocorrer. A aventura foi rapidamente
superada pela chegada de uma jovem admiradora mexicana, que vestiu o
pijama de Chaplin, meteu-se em sua cama e depois tentou envenenar-se
diante da porta da sua casa.
Porém, Chaplin acabou sucumbindo aos encantos de Lita Grey. Lita,
ainda adolescente, conseguiu ser escolhida para protagonizar a
primeira comédia de Chaplin para a United Artists, o longa-metragem
Em busca do ouro (1925). Durante as filmagens, Lita demonstrou
sintomas de gravidez, e o cineasta, que sabia que manter relações
sexuais com uma menor era um delito, resolveu casar-se rapidamente com
ela. Em junho de 1925, nasceu Charles Chaplin jr. e, nove meses mais
tarde, o segundo filho, Sydney Earle, Mas a relação entre o casal
deteriorou-se e o divórcio foi anunciado em agosto de 1927. Nas suas
memórias, Chaplin guarda um prudente silêncio sobre esse casamento,
alegando que "como temos dois filhos que amo muito, não entrarei
em maiores detalhes".
A única satisfação desse casamento infeliz foi a substituição da
sua esposa por Georgia Hale como protagonista de Em busca do ouro.
Durante as filmagens, Chaplin conheceu a atriz Marion Davies, amante
do magnata William Randolph Hearst e anfitriã de festas memoráveis
na sua mansão de San Simeón. Um outro importante produtor que esteve
em contato com Chaplin foi Josef Von Sternberg. Ele produziu um filme
intitulado The Seagull, baseado em um relato do próprio Chaplin sobre
os pescadores da costa californiana. Edna Purviance e Eve Sothern eram
as protagonistas, mas o produtor ficou insatisfeito com o resultado,
retirando o filme de circulação e destruindo-o antes de ter
estreado.
Chaplin dirigiria, depois, O circo, mas a liberdade que tinha gozado
até então parecia estar com os dias contados. Em 1927, enquanto
Chaplin recebia o cientista Albert Einstein na sua mansão e
emprestava a sua quadra de tênis para o produtor soviético Serguei
Eisenstein relaxar, o produtor Joseph M. Schenk assumiu a presidência
da United Artists. O maior problema foi a aparição do cinema sonoro.
A partir da estréia do filme O Cantor de jazz, em outubro de 1927, o
cinema começou a incorporar o som. Chaplin começou as filmagens de
Luzes da cidade (1928) e percebeu que o cinema mudo tinha seus dias
contados. Apesar disso, não admitia que Carlitos falasse e, depois de
interromper as filmagens por algumas semanas, decidiu tomar partido
por seu personagem e opor-se totalmente ao cinema sonoro. Em uma
entrevista para a revista Motion Pictures Herald, declarou:
"Detesto os talkies. Eles chegaram para destruir a arte mais
antiga do mundo, a arte da mímica. Derrubam o edifício atual do
cinema. A beleza plástica continua sendo a coisa mais importante do
cinema. O cinema é uma arte pictórica". Ao contrário de
Eisenstein, que conseguiu adaptar o som à sua revolucionária
concepção de montagem, a partir do Manifesto do Contraponto
Orquestral, de 1930, Chaplin foi ainda mais reacionário. Ao retomar
as filmagens de Luzes da cidade, decidiu que o seu filme incorporaria
uma partitura sonora que ele mesmo compôs, baseada na popular La
violtera, mas vetou o uso da palavra. Só uma pessoa com tanto poder
em Hollywood, como ele, poderia ter tomado uma decisão tão radical;
alugou uma sala de exibição em Nova Iorque, com mais de mil lugares,
onde exibiu o filme durante doze semanas.
ANOS TURBULENTOS
A estréia de Luzes da cidade em Londres foi o pretexto para uma outra
viagem à Europa. Dentre as personalidades públicas, políticas e
culturais com as quais entrou em contato, estavam Winston Churchill,
Mahatma Gandhi, john Maynard Keynes, George Bernard Shaw, H. G. Wells,
Aristide Briand, a condessa de Noailles, além de alguns membros da
realeza. Chaplin era uma celebridade mundial e era também uma
personalidade pública que nunca escondeu a sua simpatia pelo
socialismo e pela defesa das classes oprimidas. Somerset Maugham
escreveu: "Tenho a impressão de que sente saudade dos
Subúrbios. (... ) Acho que se lembra, com nostalgia, da liberdade da
sua juventude dificil, com a pobreza e as amargas privações, e sabe
que nunca estará satisfeito". O cineasta escreve na sua
autobiografia: "Esta maneira de querer fazer com que a pobreza do
próximo seja atraente é péssima. Eu ainda não conheci um pobre que
sinta falta da pobreza ou que se sinta livre sendo pobre". Depois
da crise de Wall Street, com o New Deal e com a efervescência dos
movimentos fascistas europeus, a consciência social de Chaplin
intensificou-se. "Eu não sou patriota. Como se pode tolerar o
patriotismo, quando seis milhões de judeus foram assassinados em seu
nome?". O cineasta transferiu essas inquietações para os seus
dois únicos longas-metragens feitos durante os anos trinta.
O primeiro filme, Tempos modernos (1936), é uma sátira sobre a
alienação dos operários no processo de produção em série. O
protagonista continua sendo Carlitos, que não diz nenhuma palavra
durante todo o filme. O segundo filme é ainda mais radical: apesar de
toda a prudência que Hollywood manteve com relação ao nazismo até
1938, Chaplin não duvidou em caricaturar Adolf Hitler. O grande
ditador (1940), de Chaplin, e Confessions of a Nazi Spy (1939), de
Anatole Liuvak, foram os dois primeiros filmes americanos a declararem
guerra ao nazismo. A Alemanha e os países ocupados ou aliados, os
países neutros tiveram que esperar um outro momento político para
exibirem o filme. Nem todos os americanos se identificaram com o
discurso pacifista que o protagonista divulga no final. Franklin D.
Roosevelt recebeu Chaplin, pessoalmente, na Casa Branca, depois de ter
solicitado uma projeção privada de O grande ditador, sendo seu
único comentário bastante lacônico: "Sente-se Charlie, o seu
filme nos está dando muitas dores de cabeça".Pelo simples fato
de ter sido o diretor e intérprete do filme, Chaplin foi rotulado
pelos movimentos anticomunistas que surgiram depois da Segunda Guerra
Mundial. Rodar um filme antinazista e expressar argumentos
humanitários em favor de uma nação aliada eram motivos suficientes
para ser mal visto nos Estados Unidos, que, paradoxalmente, estavam em
guerra contra a Alemanha e ao lado da União Soviética.
Nessa época, Chaplin já tinha conhecido a sua quarta esposa. Era
Oona O'Neil, filha do famoso dramaturgo Eugene O'Neil. Os dois se
casaram em 1943, em uma pequena cidade na costa da Califórnia. Uma
curiosa coincidência fez com que, nessa mesma época, Chaplin
decidisse filmar Monsieur Verdoux (1947), baseado em uma biografia de
Landru, um sádico assassino que matava mulheres depois de seduzi-Ias.
Apesar da idéia de rodar esse filme ter sido de Orson Welles, o
cineasta inglês decidiu realizar o projeto e fazer o primeiro filme
em que Carlitos estaria excluído definitivamente. Monsieur Verdoux
não apenas foi censurado pela Motion Picture Association, mas também
por um amplo setor da imprensa e por algumas organizações de
direita. O filme acabou sendo um verdadeiro fracasso. O círculo de
intelectuais formado por Salka Viertel, Clifford Odets, Aldous Huxley,
Hanns Eisler, Theodor Dreiser e Bertold Brecht fortaleceu a sua imagem
antiamericana. Nessas circunstâncias, o Comitê de Atividades
Antiamericanas incluiu Chaplin numa primeira lista de
"testemunhas hostis", tornando-se conhecidos como "os
dez de Hollywood". Como Chaplin demorou a ser citado, decidiu
antecipar-se e declarar por escrito: "Para a sua conveniência,
direi o que eu acho que desejam saber, Não sou comunista e nunca fiz
parte de nenhum partido ou organização política na minha vida. Sou
o que vocês chamam de traficante da paz. Espero que não se sintam
ofendidos por isso".
UM REI NO EXÍLIO
Apesar desse ambiente totalmente hostil, Chaplin ainda rodou outro
filme nos Estados Unidos, Luzes da ribaIta (1952), um melodrama sobre
um artista do music-hall que dedica seus últimos anos de vida a
incentivar a carreira de uma jovem bailarina. Nesse filme, Chaplin
trabalhou com Buster Keaton, outro grande ator cômico da época.
Em setembro de 1952, Chaplin recebeu a visita de funcionários do
Departamento de Imigração por causa da suspeita sobre a sua
militância comunista, a falta de patriotismo que tinha impedido a sua
nacionalização e a suspeita de adultério. Eram os últimos dias de
Chaplin nos Estados Unidos. Com a desculpa de tirar umas férias, foi
para Nova lorque apresentar o filme Luzes da ribalta à imprensa e,
junto com sua mulher e os quatro filhos do casal, embarcou para
Londres, no Queen Elizabeth. Depois de dois dias de viagem, Chaplin
recebeu um telegrama comunicando a abertura de uma nova
investigação, solicitada pelo Fiscal Geral do Estado, na qual
voltavam a aparecer as antigas acusações sobre suas atividades
políticas e sua vida particular, o que significou a ruptura
definitiva com o país onde tinha vivido durante quarenta anos. A
estréia de Luzes da ribalta (1952) em Londres, Paris e Roma fez com
que Chaplin viajasse bastante pela Europa, íristalando-se em uma
mansão perto da cidade suíça de Vevey. Oona voltou aos Estados
Unidos para resolver questões bancárias, pegar os negativos dos
filmes de Chaplin e, de volta à Europa, no consulado americano de
Lausanne, renunciou à sua cidadania. Chaplin também devolveu o seu
visto de regresso, alegando que "já estava velho demais para
aguentar tantas bobagens". Mesmo assim, continuou a encontrar-se
com importantes políticos como Winston Churchill - que o censurou por
não ter respondido à sua felicitação pela estréia de Luzes da
ribalta -, Kruschov, Nehru e Chu En-Lai, sem abandonar completamente a
possibilidade de continuar trabalhando para o cinema.
Apesar de Chaplin ter escrito a sua autobiografia entre 1958 e 1964,
não mencionou em nenhum momento o filme Um rei em Nova lorque (1956).
O filme, rodado em Londres, foi sua vingança definitiva por todas as
humilhações passadas nos Estados Unidos.
Nove anos mais tarde, em 1965, Chaplin retomou um antigo roteiro que
havia escrito para Paulette. A condessa de Hong Kong foi protagonizado
por Sofia Loren e Marlon Brando. Chaplin interpretou um pequeno papel
de garçom e o filme teve uma péssima crítica na Europa.
Apesar disso, o cineasta ainda viveu o suficiente para receber vários
prêmios. Em 1971, a Academia de Hollywood quis restaurar a sua
reputação nos Estados Unidos com um Oscar especial "pela
incalculável contribuição à arte do século: o cinema". Um
ano mais tarde, recebeu outro Oscar com um sabor especial, o de melhor
trilha sonora pelo filme Luzes da ribalta, que por não ter estreado
em Los Ángeles, pôde ser candidato ao Oscar vinte anos depois. Nessa
ocasião Chaplin decidiu voltar aos Estados Unidos e pisou em um palco
pela última vez, sendo aplaudido durante muitos minutos. Três anos
mais tarde, a rainha da Inglaterra o nomeou cavaleiro do Império
Britânico. Em 1977, na fria madrugada do dia 25 de dezembro, o
cineasta deu o seu último suspiro, aos oitenta e oito anos de idade.
Morria o gênio de infância triste que, com os seus filmes, fez com
que milhares de espectadores do mundo inteiro rissem e chorassem.
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